BUBBLEGUM, POP DESCARTÁVEL, ROCK DE GARAGEM… E “DISCOS DESMATERIALIZADOS”. E OS ENSINAMENTOS DE DOSTOIÉVSKI PARA ANTROPÓLOGOS E MUSEÓLOGOS.

Quem não conhece “NOBODY BUT ME”, não foi jovem em 1969!No início dos 1970, resolvi melhorar o meu inglês, e procurei um curso. Fui em duas escolas de referência, em São Paulo: a “CULTURA INGLESA” e a “UNIÃO CULTURAL BRASIL – ESTADOS UNIDOS”. Assisti aulas promocionais, e optei pela “CULTURA”…
Pois bem: rolou o que vou descrever. E, por consequência, a minha “inflexão” e posterior “reflexão” ética ( nossa, TIO SÉRGIO, manera aí!).|
Aqui estão dois originais que foram salvos da “extinção por maus tratos e tortura”. Explico em partes, como recomendam os princípios da dissecção…ooopss, what porra it´s that, TIO SÉRGIO?
Pô, eu disse metaforicamente, é claro:
“THE MUSIC EXPLOSION” foi uma das invenções da dupla de empresários, JERRY KASSENTEZ- que morreu há pouco tempo – e JEFFREY KATZ. Eles produziram e venderam como chicletes músicas dançáveis do final dos 1960, até meados dos 1970. A banda gravou um LP ( que tive o “original massacrado”… ) e vários SINGLES:
“A LITTLE BIT OF SOUL”, 1967, estourou! Curiosamente, o LADO B, “I SEE THE LIGHT”, é garageira e matadora! Eu escuto até hoje!
O duo K&K foi um dos criadores do chamado “BUBBLEGUM”. Subgênero meio fake, festeiro e juvenil, que legou “artistas montados sob encomenda”, que transitavam entre as diversas bandas e projetos da dupla.
Ficaram quase famosos os grupos “1910 FRUITGUM CO.” e “OHIO EXPRESS”; notórios frequentadores das trilhas sonoras dos bailinhos e paradas de sucesso daqueles tempos. Ambos gravaram SINGLES de sucesso. E o primeiro álbum do “OHIO EXPRESS”, BEG, BORROW and STEAL é imperdível: puro GARAGE ROCK!!! Mas “KASSENETZ & KATS” foram os caras! Depois, envolveram – se em outras formas de ARTE POP, CINEMA, e etc…
O maior sucesso da era do BUBBLEGUM foi SUGAR, SUGAR, com “THE ARCHIES”. Grupo “artificial”, inspirado por um desenho animado de sucesso, foi criatura do empresário “DON KIRSCHNER”, um concorrente fortíssimo e muito envolvido com os MONKEES.
Outro álbum que “salvei” foi KICKS, com PAUL REVERE & THE RAIDERS, banda legal de verdade, que também andava por ali.
Transitavam do POP radiofônico ao ROCK DE GARAGEM, e vice – versa, e com tudo o que uma… digamos… “BOYS BAND DA PESADA” poderia fazer de melhor! Tinham imenso FAN CLUB, e um grande “TEEN IDOL” , o cantor MARK LINDSAY. Tocavam bem; e a sonoridade e produção da COLUMBIA RECORDS garantia o restante!
PAUL & THE RAIDERS gravaram mais de 30 SINGLES de sucesso, e alguns LPs que ficam bem em qualquer coleção de BEAT e GARAGE ROCK. Ouçam no álbum KICKS a cheia de pique CORVAIR BABY! Vale o disco.
E quem quiser curtir essa “BUBBLEZEIRA” deliciosa, deve procurar o BOX da foto, “POUR A LITTLE SUGAR ON IT”. São 91 faixas de puro “nothing”. Está todo mundo lá! Artistas como LOBO, TOMMY JAMES & THE SHONDELLS, CUFF LINKS, ANDY KIM, CRAZY ELEPHANT, GARY LEWIS & THE PLAYBOYS, TOMMY ROE, JOHN FRED & HIS PLAYBOYS. E até – pasmem!!! – VELVET UNDERGROUND!!!!
Agora, vou contar sobre os salvamentos e a ressurreição. Durante um mês, eu frequentei a UNIÃO CULTURAL – mas “não a escolhi”. Por lá, havia uma discoteca gerenciada por uma senhora que tratava os discos como o KIM JONG UN trata os adversários; e a guarda revolucionária iraniana cuida dos dissidentes…
Olhando a pequena estante, enxerguei dois LPs jogados, sujos e capas vilipendiadas. E claramente manuseados com o desdém estúpido dos desinteressados: “KICKS”, de PAUL REVERE & THE RAIDERS, e “A LITTLE BIT OF SOUL”, do MUSIC EXPLOSION. Eram vistos como lixos descartáveis…
Uma tarde, houve o “descolamento e, ao mesmo tempo, o deslocamento” dos objetos… TIO SÉRGIO concluiu que foi por “desmaterialização”… Técnica que o CAPITÃO KIRK, da nave ENTERPRISE, fazia na época. Ainda não havia a “INTERNET DAS COISAS”…
Acho que a combinação de magia e tecnologia fez os discos migrarem para a minha coleção… Eu tratei bem deles. Foram lavados, curados, capas recompostas, entre diversos atos de afeto. Hoje, tenho quase certeza de que sobrevivem “pelaí”…
Essa historinha que narrei nos leva aos ensinamentos da ARQUEOLOGIA, da ANTROPOLOGIA e de DOSTOIÉVSKI:
Incerta vez, um ANTROPÓLOGO americano deu surpreendente resposta para o colega ARQUEÓLOGO mexicano, enquanto faziam considerações sobre os males do imperialismo, e os desvios e roubos das riquezas culturais de seu país para outros locais.
O americano simplesmente disse:
“Você está certo. Nós e outros países tiramos daqui – e de vários lugares do mundo -, parte de suas relíquias e as levamos para os nossos museus. E, também estão em coleções particulares metade do patrimônio arqueológico “removido”.
“Mas, eu pergunto: O que aconteceu com a parte restante das relíquias?”
E o professor mexicano respondeu constrangido:
“Pois, é; perdeu-se ou foi destruída…”
E um grande dilema ético se instalou:
Roubar, mas preservar? Ao invés de “respeitar” e perder um passado relevante e precioso? Uma escolha de Sofia?
Durante muito tempo senti-me um transgressor por causa da materialização daqueles discos em outro lugar…
No entanto, eu li CRIME E CASTIGO, de DOSTOIÉVSKI. É sobre a racionalização de um crime hediondo; o assassinato premeditado de uma criatura nefasta e deletéria pelo personagem principal do livro.
Considerando as devidas proporções, eu sou o RASKOLNIKOFF do colecionismo.
Eu e muita, mas muita gente, mesmo, né pessoal?
POSTAGEM ORIGINAL: 24\04\2026
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