THE BRIT BOX – 1984 / 1999 – RHYNO – 2007 – O INDI ROCK BRITÂNICO PÓS PUNK E ALÉM NEW WAVE.

COLEÇÕES fazem parte de um amplo “HABITAT” e formam CONCEITO mais circunscrito. Quem gosta de “tudo” monta DISCOTECA. Porque ampla, geral e irrestrita.
O COLECIONADOR é, por princípio, um “SELETIVO”. Portanto, escolhe aprofundar – se em preferências – sejam poucas ou muitas. Há opções variadas: estilos, épocas, artistas, gravadoras… Cada um escolhe.
Para colecionar legal eu acho importante a noção de ASCENDÊNCIA e CONSEQUÊNCIA dos objetos. ( larga de ser pedante, TIO SERGIO! ) Quer dizer: você conhecerá melhor se viajar para o antes e o após. O terreno ficará mais bem mapeado e destacando os porquês.
Eu tenho DISCOTECA bastante eclética e dentro dela existem várias coleções de características diferentes.
Na parte do ROCK eu foco principalmente do “ROCK AND ROLL” dos anos 1950″ ao “ROCK PROGRESSIVO” e “FUSIONS” diversas. Vou passando pelo “BEAT”, a “PSICODELIA”, o “HARD ROCK” algum METAL e me dispersando por mil ARTIMANHAS.
Contudo, na andança do tempo fui escalando a DISCOTECA para além dos anos 1980; mas sem qualquer limitação, incorporando e mantendo o que acho interessante.
É um processo de contínua destruição criativa. Cortei muita coisa e retive outras – tipo este BOX MAGNÍFICO e interessantíssimo!
Dia incerto, assisti a um filme com BILL MURRAY, algo chato mas profundo: “LOST IN TRANSLATION”. Esqueci o título em português.
O tema básico, a meu ver, transcorre fora da ótima TRILHA SONORA repleta de “BRIT POP”, “SHOEGAZE” e “NEO-PSICODELIA” – seus efeitos e guitarras.
Lembrei-me do “BRIT BOX”. 78 músicas em quatro CDS, e repertório que vai dos “SMITHS”, em1985, até “GAY DAD”, cantando OH, JIM (???), em 1999.
Você gosta de “STONE ROSES”, “RIDE”, “TEENAGE FAN CLUB”? Ou curte “BLUR”, “MY BLOOD VALENTINE” e “JESUS & MARY CHAIN”? Prefere viajar com “THE VERVE”, “ECHO & THE BUNNYMEN”, “CURVE”, “RIALTO” “SPIRITUALIZED” e “LUSH”? Estão todos ali! E mais um monte de não – famosos, CULTS e/ou imprescindíveis.
O BOX é um LATIFÚNDIO POP imenso! Belas e feras cantando: “LIZ FRASER”, do “COCTEAU TWINS”; “LAETITIA SADIER”, do “SAINT ETIENNE”, e outras meninas siderantes que povoaram aqueles tempos.
É, também, artefato esteticamente maravilhoso; um MUST imperdível! Vem acondicionado em caixa com DESIGN MATADOR e conteúdo muito legal para escutar e ter!
E traz excelente livro com FOTOS e TEXTOS expondo cada faixa, as bandas e músicos no contexto artístico onde estavam inseridos. É visão panorâmica das melodias e arranjos típicos do Pop Inglês “PÓS BEATLES”.
Para os que pretendem conhecer ou colecionar é um excelente começo!
Se ainda achar por aí, não perca. Perca-se nele!
POSTAGEM ORIGINAL: 27\09\2020
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THE NEON PHILHARMONIC – THE MOTH CONFESSES – WARNER, 1969

Vou começar da seguinte forma:
Esse disco foi lançado em janeiro de 1969. No encarte há um sub – título: “A PHONOGRAPH OPERA”. Para não esquecer, TOMMY, o célebre álbum conceitual do THE WHO, foi lançado em 12 de maio de 1969. Cinco meses depois…
É chatice abissal discutir idades, ideias prévias ou detalhes sobre supostas competições, porque chamar um disco pop um pouco fora do comum de ÓPERA ROCK tornou-se clichê, daqueles tempos em diante. Mas quase sempre era informação distorcida, marketing oportunista – ou pura FAKE NEWS.
THE MOTH CONFESSES é uma curiosidade artisticamente bem elaborada, que teve sua gênese em tempos de inventividade artística incontestável. Temos aqui, um ÁLBUM CONCEITUAL.
O NEON PHILHARMONIC não era exatamente um grupo, mas o projeto de um compositor de vanguarda meio escondido, chamado “TUPPER SAUSSY”, que concebeu o disco. Ele se juntou a DON GANT, um cantor de estúdio e a outros músicos profissionais. E utilizou nas gravações parte da ORQUESTRA SINFÔNICA DE NASHVILLE. Começou chamando atenção, você concorda?
O resultado é uma obra “PROGRESSIVO-PSICODÉLICA” – ou vice-versa. A orquestração é vanguardista, de jeito semelhante ao que fizeram os nossos ARTHUR VEROCAI e ROGÉRIO DUPRAT. E também os arranjadores americanos dos discos da COLUMBIA RECORDS, da época.
SAUSSY era um visionário. Embatucou na ideia de fazer uma ÓPERA POP. E teve como método assistir às “piores produções em cartaz” para entender o “porquê de serem consideradas ruins”!!!
E desenvolveu uma “ÓPERA” de uma única voz e para ser escutada em disco – mas não encenada. Um contrassenso esfuziante!
O personagem era “livre como uma mariposa” (MOTH, em inglês ). Errático, fascinado pelas luzes, e solitário. Metáfora para o nome do álbum e certamente para ele mesmo.
TUPPER era leitor de escritores do realismo fantástico. JORGE LUIS BORGES, principalmente. Tinha formação musical e ousadia suficiente para aproveitar as novas tecnologias de gravação e ideias correntes no final dos anos 1960.
Misturou coisas do dia-a-dia com ficção; elaborou letras misteriosas e livres, típicas de quem havia lido e escutado DYLAN, JAMES JOYCE e KAFKA. E deu fluxo às ideias de forma subjetiva – a tal “STREAMING OF CONSCIENCE”.
Resultado: criou música livre, nada ortodoxa, melódica mas algo difícil e muito original. Desse disco saiu um pequeno mas cult sucesso do “SUNSHINE POP”, a lindíssima “MORNING GIRL”. A dupla gravou outro Long Play, também em 1969. E ponto final.
CODA
Uma historinha pessoal sobre o álbum: o LONG PLAY saiu por aqui, em 1969. Então, comprei. Certo dia, um incauto amigo fez um bailinho na casa dele e pediu para eu “discotecar” a gandaia.
Não tive dúvida, e levei “os meus discos”…
Tragédia terminal!!! Num certo momento, e sei lá o porquê… coloquei o NEON PHILHARMONIC pra tocar. Foi protesto em nível de agressão! Alguns amigos me “liberaram” da vitrola – não muito gentilmente…
E, quando fui ao quintal para tomar cerveja, encontrei o disco com barbante passado pelo furo e amarrado no varal junto com as roupas lavadas!!!
Meu eterno amigo/irmão Aldahyr Ramos havia pegado o artefato, colocado na privada e dado a descarga…
Estava secando no varal por causa disso…
A minha raiva subiu como foguete, e desabou feito míssil em cima do DADÁ e outros encapetados. Mas o disco sobreviveu.
Hoje, este “cedezinho” mora em lugar seguro e meio inacessível na estante.
Consiga o disco para a sua discoteca. TIO SÉRGIO recomenda com discreta emoção. Não deixe de conhecer.
POSTAGEM ORIGINAL: 22\09\2020
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JEFF BECK EM OUTRA DIMENSÃO: “BECKOLOGY”, O PRIMEIRO BOX DE JEFF BECK, 1991. “BECK, BOGERT & APPICE” – EM ESTÚDIO E “LIVE IN JAPAN”, 1973. EPIC RECORDS

O CREAM foi muito mais do que um grupo de ROCK. JACK BRUCE, ERIC CLAPTON e GINGER BAKER, três músicos perto da genialidade, tocavam integrados e, ao mesmo tempo, como três solistas. Existe algo do JAZZ na maneira de pensar e executar do TRIO. Ah, também conseguiam cantar bem, quase exceção da regra!
E, percebam, a concorrência era excelente: JIMI HENDRIX EXPERIENCE; TASTE; WEST, BRUCE & LAING; o primeiro JEFF BECK GROUP, com ROD STEWART, no vocal; e, claro, o LED ZEPPELIN. Só para ficar nos maiores – que focavam mais na integração do que no destaque de um ou dois integrantes.
A minha impressão depois de 50 anos, é que JEFF BECK, TIM BOGERT & CARMINE APPICE tinham potencial para se tornarem um trio de solistas absorvendo certas características do CREAM, mas rumando em direção ao R&B e ao HARD ROCK.
Só que não rolou assim. Os três especularam fazer algo juntos desde o início de 1968, quando a original fusão SOUL/PSICODELIA feita pelo VANILLA FUDGE, de BOGERT e APPICE namorava com o gosto de BECK pelo R&B e a experimentação.
Os percalços da vida e um acidente de automóvel muito sério sofrido por BECK, desviaram os três. Assim, CARMINE e BOGERT montaram o CACTUS – banda eficiente de HARD ROCK e “levada” BLUESY/BOOGIE como o SAVOY BROWN e o FOGHAT – sucessos de público por aqueles tempos.
JEFF BECK, depois dos YARDBIRDS, foi testando carreira solo. O BOX “BECKOLOGY”, lançado em1991, vem com 3 CDS, LIVRETO, etc… e é ótima opção para desvendar a carreira de BECK.
Lá estão os SINGLES onde ele cometeu vocais. E teve um HIT instrumental com música do maestro PAUL MAURIAT, a melosa e grande sucesso “LOVE IS BLUE”. Há, também, vários B SIDES e outras faixas inéditas.
A discografia clássica do período vem a seguir:
JEFF BECK montou seu primeiro “GROUP’ com ROD STEWART, no vocal; RON WOOD, no baixo, e grande elenco. O primeiro disco, TRUTH , saiu em 1968, e foi sucesso de público e crítica. Foi mais ou menos clonado pelo LED ZEPPELIN no primeiro disco de PAGE e CIA…
BECK lançou outro com o mesmo time: BECK OLA, em 1969. Depois, modificou totalmente a banda, orientando o som para FUSION entre o ROCK, o R&B e a SOUL MUSIC.
E, fez outros dois álbuns sensacionais e determinantes para o destino de BECK: “ROUGHS AND READY”, 1971; e “JEFF BECK GROUP”,1972. Em ambos, já existem músicas instrumentais, o carro chefe de seu repertório posterior e até o final da carreira.
Finalmente, em 1973, BECK, BOGERT & APPICE conseguiram se juntar. O resultado é um TRIO instrumentalmente poderoso, fundindo o gosto dos três pelo R&B, com a levada BOOGIE de TIM & CARMINE e a guitarra inconfundível de BECK – já consagrada e foco de atração internacional.
O primeiro disco, feito em estúdio, é bem produzido, muito harmônico, melodioso e com fusão instigante de R&B e ROCK. Em minha opinião, no entanto , peca pelos vocais raquíticos e sem inspiração nenhuma. A bem da verdade, nenhum dos três sabia cantar!
É compreensível que continuassem como trio. Afinal, é muito difícil achar um vocalista que se adapte; ao mesmo tempo seja eficiente e não roube a cena dos instrumentistas. O disco foi sucesso.
O segundo lançamento, um álbum duplo gravado ao vivo no JAPÃO, em 1973, é considerado clássico e CULT. Todos os meus amigos e a maior parte da turma do ROCK adora! É um SHOW barulhento; e, claro, os vocais são lamentáveis… Mas, e daí? É ROCK pesado de alta qualidade na veia e nos tímpanos…
JEFF BECK gosta de bateristas poderosos mas não conseguia ouvir o que rolava, tal o caos sonoro que a bateria furiosa de CARMINE APPICE gerava!!!
O TRIO gravou um terceiro disco, que foi arquivado. Mas virá em BOX com livreto, fotos e tudo o que fizeram. Além de mais um SHOW inédito da época, gravado na INGLATERRA.
Aquele foi um período intenso de transição e afirmação. JEFF BECK desenvolveu-se artística e tecnicamente; e concluiu já em 1974 que o atalho era a música instrumental. E, claro, passou a convidar cantores e outros instrumentistas para incrementar discos e SHOWS.
Se observarmos atentamente, JEFF BECK está no cerne do JAZZ FUSION da COLUMBIA RECORDS na companhia de MILES DAVIS e da MAHAVSHINU ORCHESTRA de JOHN McLAUGHLIN.
E um olhar mais profundo nos levará ao som de PAT METHENY e a FUSION da gravadora ECM, dos anos 1970, e até hoje. Para confirmar é mandatório ouvir “RHAYNE´S PARK BLUES”, de 1971 – depois mediocremente rebatizada “MAX TUNES”. Essa tendência talvez tenha começado lá.
JEFF BECK, foi um verdadeiro gênio. Cruzou e influenciou mais de 55 anos de música popular relevante.
Aqui, a iniciação do mito. É pra lá de legal!
Evitem não conhecer!
POSTAGEM ORIGINAL:23/09/2023
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AVIS RARAS: TRÊS MENINAS: A BOSSA NOVA E A TRANSIÇÃO DA MPB EM TEMPOS ABRASIVOS

Os flashes de realidades vividas sempre me assolam, e trazem memórias que vou lapidando sem a certeza de ter acontecido aquilo mesmo. Gentes e fatos passaram e eu convivi obnubilado mas aplicando a intensidade dos curiosos.
Eu era quase criança, pré-adolescente, portanto imaturo e sem recursos para analisar. Ainda assim, retomo sempre as impressões que mantive de certos momentos.
Em meio à aula de piano com a professora LYDIA, amiga de minha tia NORA e do tio ABRAMO GARINI, me dei conta da alteração de clima entre as pessoas. O golpe de 1964 havia eclodido uns dias antes. Vi a família de minha mãe confusa, com exceção do tio ANTONIO GARINI. O TONICO foi homem consciente e jornalista já de alguma expressão que se opôs àquilo tudo, mas sob algum muxoxo dos irmãos – que tinham medo do incerto, claro!
O período criativo e de nascentes liberdades transcorrido entre o suicídio de GETÚLIO VARGAS, em 1954 e a queda de JOÃO GOULART, em 1964, é o pano de fundo dessa transformação cultural profunda nas artes brasileiras – que se estenderam muito além do evento crucial. E tomaram bordoada firme, em 1968 e, mesmo assim, continuaram a se expandir.
LIBERDADE, IGUALDADE e EQUIDADE são os fundamentos de qualquer sociedade que se diga civilizada.
Aqui, a pretensão é falar de música boa e farta; e de alguns artistas não tão notórios – mas certamente notáveis.
Avis raras? Terras raras cai melhor para a turma de brasileiros da foto. Principalmente as três moças: cantoras fundamentais da BOSSA NOVA – todas contemporâneas e conectadas entre si.
Emergiu antes delas um moço do Recife craque dos teclados – tocava todos eles, acredite! – e se tornou o mais expressivo organista de sua geração. Instrumento que operava com absoluta destreza, criatividade e “brasilidade”; e dava o toque moderno e “outsider” para organizar pequenos combos harmonizando ou fazendo contraponto ao violão, o baixo e a percussão em discos de inequívoca música brasileira.
Opaaa!!! É bom apresentá-los a vocês. Será por ordem de chegada, já que a pertinência é também audível. As meninas são ASTRUD GILBERTO, SYLVINHA TELLES e NARA LEÃO. Todas de classe média alta, nas definições da época, e filhas de famílias educadas e mais abertas – também nos limites daqueles tempos.
O cavalheiro era do RECIFE, foi casado com a cantora ISAURINHA GARCIA e juntos fizeram parceria artística famosa nos 1950.
WALTER WANDERLEY é nome de nascença prontinho para o “marketing” no exterior. Começou na música no princípio da década de 1950. E como TIO SÉRGIO está velho e vive esquecendo coisas, deixei de colocar na foto dois boxes fantásticos lançados pela DISCOBERTAS, com oito álbuns originais e mais alguns 78 rotações gravados por WALTER entre 1958 e 1963.
Em 1965, seguindo a moda, foi lançado o único disco do QUARTETO BOSSAMBA, com ele ao piano e um grupo de craques não identificados. Claro, é um afluente do BRASILIAN JAZZ.
A reviravolta na carreira aconteceu quando o grande TONY BENNETT, um dos responsáveis pela divulgação da BOSSA NOVA no exterior, fazia turnê pelo BRASIL e descobriu WALTER WANDERLEY. Ficou impressionado com o virtuosismo artístico e técnico do organista! E abriu as portas para ele nos EUA.
WALTER emigrou em 1966, e fez sucesso “de verdade”: a versão de SAMBA de VERÃO e o álbum RAIN FOREST – coalhado por jazzistas craques – venderam mais de um milhãode cópias cada!
WALTER WANDERLEY gravou trinta e um Long Plays e morreu em São Francisco, em 1986.
WALTER WANDERLEY e ASTRUD GILBERTO fizeram juntos, em 1966, “A CERTAIN SMILE, A CERTAIN SADNESS”, com a participação de JOÃO GILBERTO.
SYLVIA TELLES – A TRANSIÇÃO
O pai de SYLVIA TELLES gostava de música clássica, vá lá, erudita… e era advogado. Família da alta classe média carioca, tinha vida confortável. SYLVINHA foi a primeira cantora profissional de BOSSA NOVA, e a primeira a gravar TOM JOBIM, em 1956. Mas é bom observar: TOM e VINÍCIUS não significam “automaticamente” BOSSA NOVA. Foi preciso o violão e o estilo de cantar e tocar de JOAO GILBERTO para determinar a seminal mudança.
É interessante ouvir o álbum AMOR DE GENTE MOÇA, de 1959, onde as orquestrações estão doces demais e bem tradicionais. E perceber que SYLVIA, mesmo cantando baixinho e de jeito intimista lembra, um pouco, a forma de interpretar de ELIZETH CARDOSO, em CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, 1958 – um disco erradamente classificado como BOSSA NOVA.
SYLVIA caminhou no lusco-fusco estilístico até que os traços do passado aos poucos foram sendo substituídos pelo novo. O rompimento foi cauteloso. Em 1963, já na gravadora ELENCO, lançou BOSSA, BALANÇO e BALADA – onde os arranjos orquestrais e o canto já estão mais integrados à nova onda.
Ela e NARA LEÃO foram amigas íntimas. Após a morte de SYLVIA, aos 32 anos, em 1966, num desastre de automóvel, a turma dela começou a frequentar o famoso apto de NARA, na Avenida Atlântica, 2856, COPACABANA. E a História continuou
CODA
SYLVIA TELLES tinha malas prontas e passagem marcada para NOVA YORK, onde faria shows e gravaria um disco para a KAPP RECORDS. O destino fez-lhe uma surpresa.
NARA LEÃO – A ECLÉTICA INCLUSIVA
Nara foi pessoa símbolo de uma pretensa perfeição: a beleza discreta, o fino trato, a coragem e assertividade incorporados na militante política e na artista eclética, vanguardista, ousada e de bom gosto. Nara fazia xilogravuras e sabia “montar filmes” – ela foi casada com o cineasta CACÁ DIEGUES.
Entre as três cantoras, Nara talvez tenha sido a de menor recurso vocal. Talvez, especulo. Era, no entanto, boa violonista e foi lapidada na escola de música que CARLOS LYRA e ROBERTO MENESCAL tinham em Copacabana. Tinha ótima noção de harmonia e ouvidos apurados.
NARA LEÃO foi a musa da BOSSA NOVA, mas conflitou com a “facção” mais “ingênua”, “alienada”, e saiu fora. Já no primeiro álbum, “NARA”, lançado em 1964, ela incorporou a música de protesto no repertório.
Depois do golpe de 1964, tornou-se militante da esquerda política e quase foi presa. Deu entrevista, em 1966, dizendo que as forças armadas deveriam ser extintas. O poeta CARLOS DRUMOND de ANDRADE dedicou poema a ela: “Meu honrado marechal \ dirigente da nação\ venho fazer-lhe um apelo\ não prenda Nara Leão!
Não prendeu.
O ecletismo de NARA somado à sua visão ampla e inclusiva, revelou artistas como CHICO BUARQUE e MARIA BETHANIA, e trouxe ao proscênio o sambista ZÉ KETTI e a música nordestina de JOÃO do VALE – o autor de CARCARÁ, que tanto ela como BETHANIA gravaram.
Depois, NARA apoiou a turma da TROPICÁLIA: GIL, CAETANO, o maestro ROGÉRIO DUPRAT… E fez um álbum, em 1978, só com músicas de ROBERTO e ERASMO CARLOS. Ela e ELIS REGINA também não se entendiam. Eram antípodas em temperamentos e posições estéticas. Postaram CAETANO explicando como foi a treta. E concluindo que NARA tinha razão. Eu também acho.
NARA LEÃO gravou 23 álbuns entre 1964 e 1989. Obra extensa . Eu tenho o primeiro BOX com os onze CDS / LONG PLAYS  gravados entre 1964 e 1969. Há outro, que nunca vi, abrangendo de 1971 a 1989. Ela faleceu aos 60 anos em 07 de junho de 1989 de câncer no cérebro.
Foi ícone produtivo e vanguardista de uma geração que aspirou romper com a breguice autoritária.
O LONGO VOO DA MENINA TÍMIDA
JOÃO GILBERTO conheceu ASTRUD EVANGELINA WEINERT no apartamento de NARA LEÃO, no Rio de Janeiro. As duas eram amigas íntimas. O local se tornou histórico, porque lá se reunia a TURMA da BOSSA: CARLOS LYRA, ROBERTO MENESCAL, RONALDO BÔSCOLI e outros. E os dois se apaixonaram e se casaram, em 1959.
Como NARA e SYLVIA TELLES, ASTRUD era menina da alta classe média. O pai, um senhor alemão, professor de línguas e literatura, tornou-a fluente em seis idiomas: inglês, espanhol, francês, italiano; o português – é claro -; e pasmem: até o japonês!
Ela jamais pensou em ser profissional. Mas cantava entre os amigos e bem! Tinha voz pequena, afinada, delicada e bem adequada para o repertório mais intimista da BOSSA NOVA.
JOÃO GILBERTO já despontava como violonista e cantor originalíssimo. Em novembro de 1962, participou com TOM JOBIM e outros no histórico concerto de BOSSA NOVA, realizado no CARNEGIE HALL. E a convite do produtor CREED TAYLOR e da gravadora VERVE, retornou a Nova York, em março de 1963, para gravar com STAN GETZ o seminal GETZ/GILBERTO, o disco supremo da BOSSA NOVA.
Houve tensão entre os estilos divergentes de JOÃO, um intimista refinado, e o de STAN – saxofonista explícito e nitidamente JAZZ, que já havia gravado música brasileira com o violonista CHARLIE BYRD, no clássico JAZZ SAMBA, de 1962.
No meio dos trabalhos pintou a ideia de gravar uma parte da música em inglês. E como TOM JOBIM e JOÃO GILBERTO não eram fluentes, convenceram ASTRUD a cantar.
A fusão contrastante criada por JOÃO, STAN e TOM JOBIM somados ao vocal delicioso de ASTRUD, gerou o híbrido sonoro simbiótico entre os dois gêneros musicais. Que pode ser definido como forma específica de “LOUNGE” que ajudou a eternizar o álbum e a BOSSA NOVA, nos compêndios da música. E haja STREAMING para dar conta disso!
“GAROTA de IPANEMA” tem mais de 440 gravações diferentes! Vendeu milhões e milhões de cópias em diversos formatos e está incluída em mais de 1500 álbuns distintos. Faz parte, também, das dez músicas mais tocadas em todos os tempos! No entanto, e aos costumes da rapina musical da época e “beyond”, ASTRUD, a moça tímida, ganhou a fortuna de $120,00 dólares para cantar um HIT de sucesso eterno e monumental! Não vou repetir. ASTRUD e JOÃO GILBERTO terminaram o casamento em 1964.
ASTRUD aproveitou a oportunidade e foi, das três, a cantora mais bem sucedida. A experiência trazida pelo acaso abriu o caminho na música internacional. No ano seguinte, ela voltou a gravar e excursionar com STAN GETZ, e iniciou a carreira solo. Gravou 16 álbuns originais, algumas coletâneas; aos poucos foi ampliando seu repertório, e sempre o adequando à voz curta e delicada.
De todos os discos na foto, fui surpreendido por “LOOK AT THE RAINBOW”, de 1966, álbum com arranjos orquestrais de GIL EVANS. É uma pequena maravilha possível de se interpretar como cruzamento da BOSSA NOVA com as orquestrações de EVANS para MILES DAVIS, cerca 1956/1959. Há composições de VINÍCIUS e BADEN POWELL, TOM JOBIM e CARLOS LYRA e MARCOS VALLE, também, mesclados a MICHEL LEGRAND… e por aí vai.
ASTRUD é a primeira cantora brasileira a ganhar um GRAMMY. Em 1965, foi indicada pela “canção do ano de 1964”. Adivinhem qual é? E também faz parte do LATIN MUSIC HALL OF FAME. E de 1965 até 2002, gravou entre 16 e 18 álbuns solo.
Sua última apresentação no BRASIL foi em 1965. Ela tinha mágoa de parte da imprensa que a tratava como amadora, “ONE HIT WONDER”. Em 2002, discretamente anunciou que estava deixando a carreira por tempo indeterminado. E não voltou mais.
Continuou morando reclusa na Filadélfia, pintando quadros, quieta e calada fez o pouso definitivo de uma carreira diferente, algo à sua revelia, mas de sucesso artístico e comercial.
Observando ASTRUD GILBERTO e sua forma tímida e ultra restrita de se movimentar e interpretar; seu timbre diferenciado, a facilidade para línguas e o talento natural para a música, não é difícil desconfiar de que talvez tivesse sido uma superdotada.
E assim, termino.
AVIS RARAS, TERRAS RARAS, TEMPUS FUGIT.
POSTAGEM ORIGINAL: 23/09/2026
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COLEÇÕES POSSÍVEIS: “BRASILIANA” E “AMERICANA”

TIO SÉRGIO, este compósito de alcoviteiro da música e conselheiro matrimonial entre vocês e os discos vem, não muito respeitosamente, propor a instauração de outra dissidência (“mais uma, seu velho irresponsável”?) na discoteca dos fãs da MPB.
Já tentei vender essa ideia algumas vezes, com alguma timidez e reticência, mas agora vou dar nome aos bodes.
Vou contar desde o início. Na América, há muito tempo a turma separa bodes pretos de bodes brancos, uma decorrência da segregação de raças. E isto gerou culturas à parte que se miscigenaram.
Mas para efeito do colecionismo, por lá sobram evidências que sustentam esta separação.
Para os “pérolas negras”, há décadas existe um Hit Parade baseado em estilos e origens. Bodes pretos formam a maioria do RHYTHM ´N’ ´BLUES, da SOUL MUSIC, do FUNK, do JAZZ original, e de muitas tipificações que “saltam aos ouvidos”, mesmo quando feitas por não negros.
Para os bodes brancos o pessoal com cara de bolacha, pescoço vermelho e bandeira americana na porta de casa, há o “COUNTRY-WESTERN” como matriz inspiradora. Claro, existe imensa segmentação; mas dá pra identificar, em sua maioria, como música feita por brancos.
Nem vou comentar, especificamente, um dos filhos desse blend magnífico: o ROCK. Porque há tantos e cada vez mais depois que a segregação básica começou a desaparecer…
Então, o que significaria “AMERICANA” neste contexto?
A turma de lá propôs colecionar também observando a integridade original da música branca, mesmo que ela se desenvolvesse em vários tópicos. É parte da AMERICANA gente como ELVIS PRESLEY, JOHNNY CASH, WILLIE NELSON, EVERLY BROTHERS, EAGLES, BRUCE SPRINGSTEEN e ATÉ o GREEN DAY. Entre milhares ou talvez milhões.
E o que os distinguiria, por exemplo do PEARL JAM, do KANSAS, da MADONNA e tantos vários outros?
Seria a putativa autenticidade original: não terem sido contaminados por nada que viesse de fora dos E.U.A. Coisa difícil, talvez impossível, mas a turma tenta desenvolver isso lá.
Mas vale a pena fazer?
Sei, lá. É questão de perspectiva.
Por causa disso, o disco de ELVIS PRESLEY que consolidou o “ROCK AND ROLL, a gravação original da CHESS RECORDS lançada em 1956, ainda que já a caminho da fusão com R&B; e também BILLIE JOE, guitarrista e vocalista do GREEN DAY em dupla com NORAH JONES gravaram o álbum FOREVERLY, em 2013, e recriando magnificamente um álbum inteiro e original dos EVERLY BROTHERS; são dois exemplos de AMERICANA na veia…
Aqui, no BRASIL, a criação de uma “BRASILIANA” tomaria outras características. A miscigenação entre brancos e negros na música e na sociedade é mais cristalina. A turma da música de raiz brasileira se entende sem diferenças tão caracterizadas. Mas para fazer algo semelhante a exigência é ser original da terra.
Numa discoteca tipicamente BRASILIANA entrariam artistas como CHICO BUARQUE, PAULINHO DA VIOLA, ZECA PAGODINHO, ADONIRAM BARBOSA, CARTOLA, JOÃO BOSCO, e a turma das ESCOLAS DE SAMBA, DO CARNAVAL, FORRÓ e MÚSICA CAIPIRA DE VERDADE.
Estarão incluídos a riqueza absurda de ritmos e músicas regionais. Além de uma infinidade a ser pesquisada, inclusive entre os artistas mais novos, claro.
Mas não entrariam artistas de características mais pop, como CAETANO VELOSO, GILBERTO GIL, PIXINGUINHA, EGBERTO GISMONTI, MARCOS VALLE, MARISA MONTE… E nem o RAP, SERTANEJOS e NEO-AXÉS, ou o POP\ROCK PÁTRIO que todos conhecemos. E ficaria de fora boa parte da BOSSA NOVA. Seriam Quem sabe seja complexo demais – instigante, no entanto: o que fazer com TOM JOBIM? e VILLA LOBOS?
Resumindo: tem espaço pra muita, muita gente “ocupar a exclusão”. Então, a minha sugestão para os colecionadores de MPB é montar uma esfuziante dissidência radical – de raiz!
Eu sei que vai bagunçar o teu orgasmo sonoro, mas vale tentar pensar esta orgia. Porque será um jeito peculiar de ouvir e perceber a música brasileira.
POSTAGEM ORIGINAL: 21/09/2020
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GARY PEACOCK, KEITH JARRET & JACK DEJOHNETTE – TALES OF ANOTHER – ECM RECORDS – 1977

É álbum lançado pela E.C.M RECORDS e a minha edição foi remasterizada no Japão em SHMCD, garantindo a qualidade técnica HIGH – END da gravação.
O produtor é MANFRED EICHER, um discreto superdotado da indústria musical, que sabe incentivar o vanguardismo dos artistas até o limite; ao mesmo tempo que mantém a beleza explícita dos arranjos, principalmente nas melodias, direção fundamental para tornar a obra compreensível por ouvintes não especialistas – mas interessados em música de vanguarda.
A gravadora E.C.M é vizinha do paraíso e sucursal do belo neste mundo medíocre. E nos legou mais um disco lindíssimo!
No entanto, permitam-me citar frase jovial de um HIT da BLITZ, famosa banda POP brasileira: “está tudo muito bem, está tudo muito bom… mas realmente…”
O esperado fez sua visita. E temos KEITH JARRET, um verdadeiro gênio – vivo ou morto -, porém, às vezes inconveniente e chato.
Além da excepcional performance no piano, somos presenteados com “a sua” irrefreável arte em música incidental: GEMIDOS, FLATULÊNCIAS, ORGASMOS, SIBILOS, COCHICHOS e outras prendas inenarráveis e muito frequentes!
“KATIANO”, ao longo da gravação liberou o “Mico-Leão Dourado” nele aprisionado! (explicitei a raça da macaca) E, mama mia! Oi, suecos do ABBA, lembrei de vocês!
KEITH deu espetáculo à parte GRUNHINDO, RANGENDO, prevendo notas e acordes antes de “cantar” e … tocar!
Para nos enlevar deveras, a voz lembra o ROD STEWART nos piores momentos: uma “velha dando “piti” em supermercado por algum motivo qualquer”…
Ninguém merece?
Não! Alguns merecem!
Se o TIO SÉRGIO fosse o GARY PEACOCK, pavão em português, teria aberto asas e bicado a bunda do JARRETT até ele calar a boca e simplesmente tocar! Cheguei a pensar pedir o endereço do PET SHOP mais próximo, e mandar uma focinheira pra ele. Não fiz; mas cerquei a gralha!
Para expressar a genialidade reconhecida não precisaria ter sido tão chato e inconveniente. Bastava exercitar sua técnica e arte excepcionais! A Sociedade Humana agradece e o reverencia. E a Sociedade Protetora dos Animais vai ter bem menos trabalho.
POSTAGEM ORIGINAL: 17\09\2019
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UM DEUS EM MINHA JANELA

Indiferente como sempre, Atlântico saiu de si mesmo e veio nos perscrutar. Quase sempre faz isto no inverno. A praia para ele pouco importa. E gente tanto faz. Construções, avenidas, postes? Ele não sabe. Ultrapassa, contorna, deforma e retorna.
Até quando? Não sabemos e ele também não sabe.
Não sabe, mas continua belo. Ele não sabe que nós sabemos. Valores? Ele não os tem – e nem precisa deles. Quando a gente o machuca, ele não está nem aí: apenas se vinga. E quando e se quiser. E do jeito dele.
Nós passamos, ele permanece. Século após século, era após era, presta contas somente ao Cosmos, ao “Sistema”. Ele não sabe que é vivo. Mas, nós sabemos. Ele não é amistoso e não está nem aí com isso…
Início da madrugada, eu insone tentei decifrar o Atlântico.
Taciturno? Achei que sim. Mas, ele não sabia. Noite azul de lua cheia velada por nuvens? Ele não dá a mínima.
E os Namorados? sempre eles e ainda bem! Mas para o ATLÂNTICO tanto faz… Diamonds in the Sky? Rhyanna? Beatles e Lucy in the Sky with Diamonds? Ele nem reparou. Simplesmente não sabe; não liga!
E prosseguiu lentamente, em metástase sobre a pele da areia. Hipnótico, perturbador, sedutor irrefreável como Kate Blanchet, em”Carol”. E eu surpreso, tímido e perplexo, como a Thérèze, de Rooney Mara – que foi seduzida por “Carol” naquele filme cult e famoso…
Mas, para ele tanto faz. Ele nunca sabe…
POSTAGEM ORIGINAL: 16\09\2021
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JOSS STONE, A DIVA POP DESCALÇA, AMY WINEHOUSE; E A CONCORRÊNCIA QUE A MORTE EXTIRPOU

Duas meninas inglesas, talentos explosivos e incontornáveis, cruzaram vidas e vozes nas rádios, shows e gravadoras. E, talvez, nunca tenham se encontrado pessoalmente!
Elas foram a bola da vez quase ao mesmo tempo, entre 2003 e 2011. E, de certa forma, pagaram preço alto em momento histórico de transformações de mercados e tecnologias. A indústria da música estava e continua em crise.
Então, o que fazer quando surgem pedras valiosas, semilapidadas e ocupando praticamente o mesmo espaço artístico? JOSS e AMY são excelentes cantoras e basicamente de música negra, e suas imensas variações.
A gravadora ISLAND, filiada à UNIVERSAL MUSIC, contratou AMY WINEHOUSE. E uma pequena gravadora, a S CURVE, levou JOSS STONE – que depois foi para EMI.
AMY WINEHOUSE, garota pobre, família disfuncional e consumidora de drogas; voz contralto nítida e atitudes antissociais, cantava REGGAE/SKA, HIP-HOP… em bares da Inglaterra.
Gravou pela primeira vez em 2003. “FRANK”, o álbum de estreia seguindo o novo R&B , HIP-HOP, foi elogiado e fez algum barulho. Mas AMY somente arrasou em 2006, com “BACK TO BLACK”. Disco de letras agressivas mas calcado na sonoridade tradicional do R&B. Foi o álbum mais vendido de 2007, com seis milhões de cópias!!!
JOSS STONE, adolescente de classe média descoberta em Londres foi enviada para NOVA YORK, onde imediatamente se transformou em sensação internacional. Era o ano de 2003 – e tinha aos 16 anos de idade!
JOSS saiu “cantando…pneus”. Os dois primeiros discos, SOUL SESSIONS em 2003; e MIND, BODY AND SOUL lançado em 2004, e também de R&B / SOUL tradicionais, venderam mais de 5 milhões de cópias!
Observe as estratégias: são inversas. AMY WINEHOUSE começa, no mesmo ano que JOSS, 2003, gravando o R&B modernizado da época. E vai para o “tradicional” em seu disco seguinte, onde está claramente influenciada pelo cantar de DINAH WASHINGTON e BILLIE HOLIDAY.
AMY infelizmente teve pouco tempo. Mas deixou quase pronto o que poderia oferecer dali em frente. Em 2011, LIONESS, HIDDEN TREASURES, seu disco póstumo, ela ensaia repertório mais abrangente.
Vai de clássicos POP da década de 1960, como OUR DAY WILL COME, canção com dezenas de versões, a de JULIE LONDON, por exemplo. Ou WILL YOU LOVE ME TOMORROW, hit das SHIRELLES, também de outras com outras versões, ao longo das décadas.
AMY fez dueto com TONY BENNETT, teste definitivo do POP ADULTO, e adequado para o seu background e características vocais.
Quatro anos mais jovem, JOSS STONE é “cria espiritual” de ARETHA FRANKLIN e JANIS JOPLIN, e com respingos de DONNA SUMMER, e DUSTY SPRINGFIELD – a referência inevitável para qualquer cantora inglesa dos últimos 50 anos. Ela começou tutorada por BETTY WRIGHT, veterana de R&B, com sucessos marcantes na década de 1970.
Professora exigente, BETTY ensinou JOSS a voz e os maneirismos dos clássicos da SOUL MUSIC e do R&B, em canções intensas e difíceis de cantar e interpretar. BETTY ainda participou nos vocais em gravações e shows.
Eu só me lembro de ter assistido uma vez a estreia de gente tão jovem e com tanta energia: foi MARIA BETHANIA cantando CARCARÁ, quando tinha uns19/20 anos. A voz, já marcante, abalou as estruturas do teatro!!!! Eu estava lá e tinha 14 anos… Inesquecível!!!
JOSS STONE fez o DVD da foto, em 2004. Juntou o repertório dos discos iniciais e, acompanhada por banda impecável, gravou show simplesmente fantástico!
Aos 16 anos, a voz diferenciada já estava mudando. JOSS cantou belamente, demonstrou carisma, descontração e domínio de palco. Para uma adolescente já linda, mas corpo ainda em formação, ficou justificada sua fama de grande promessa.
Depois, foi preciso testa-la no mercado jovem. Porque não faria o menor sentido uma quase menina dedicar-se a repertórios tão adultos, que exigem maturidade e sensualidade. Os pais cuidavam dela. A mãe ia junto nas viagens, etc… e certamente não permitiriam exageros.
Assim, a sequência de discos já sem o sucesso dos iniciais, é composta por SKAS, o novo R&B; HIP-HOP voltados para a moçada, em geral. A exigência da voz também é menor, mais compatível ao repertório.
São discos bons – mas não memoráveis:
“INTRODUCING”, 2007, mescla NEO SOUL, HIP-HOP, e boa participação de LAUREN HILL, o sucesso mais notório da época. “COLOUR ME FREE”, 2009, é menos intenso e vai na mesma linha. JOSS fez com DAVID STEWART, ex – EURYTHMICS, um bom álbum, em 2011. É POP mais pesado, com guitarras e arranhando o ROCK. E a voz de JOSS já está bem madura. O volume dois de “SOUL SESSIONS”, saiu em 2012 – ensaio para a volta ao R&B mais original.
Finalmente, em 2015, lançou “WATER FOR SOUL”, a sequência POP, SKA, REGGAE e R&B. Foi o derradeiro álbum de inéditas. E talvez haja relação com a briga e processos contra a gravadora EMI, para o rompimento de contrato.
Em vinte anos, JOSS STONE gravou relativamente poucos discos. Mas cantou com muita gente, JAMES BROWN, SLY STONE: MICK JAGGER, STING, PAT LABELLE, AL GREEN, etc… Ela vendeu mais de 40 milhões de discos, nos diversos formatos.
E não deixou de excursionar e a bem sucedida turnê de 20 anos de carreira passou pelo BRASIL e girou o mundo, Prestem atenção na banda fantástica; principalmente no guitarrista STEPHEN DOWN – um exuberante!!!
Eu assisti a vários SHOWS COMPLETOS e de épocas diferentes, que ela fez. JOSS, quando publiquei esta resenha, estava com 35 anos, e cantando melhor do nunca! Madura, linda, carismática e dona do palco. Estava claramente transitando para repertório mais adulto de R&B, SOUL, e adjacências; rearranjando o acervo base e os antigos sucessos para o seu público que, é lógico, também amadureceu.
A grande vantagem de JOSS STONE foi nunca ter sido uma SANDY, por exemplo. Ela não começou carreira cantando músicas que jamais se adequariam à maturidade. JOSS não entrou em crise com a própria História, como provam shows atuais.
Oito anos de distância do último disco certamente ajudaram JOSS a retornar em outro nível. E com suas marcas registradas: cantar descalça e distribuir girassóis ao público.
Ela é SUPER DUPER!
POSTAGEM ORIGINAL: 16\09\2023
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THE WHO – TOMMY – 1969 – EDIÇÃO JAPONESA – SHMCD

“TOMMY” é álbum ícone do ROCK MODERNO PÓS BEAT. Tem sonoridade que se desvia para o ROCK PSICODÉLICO com pitadas de PROGRESSIVO.
Vale mais pelo conceito pretendido do que pelo desenvolvimento da música em si. Que, pensando bem, é melódica, rítmica e harmonicamente conservadora.
“TOMMY” foi concebido como um álbum CONCEITUAL’ na esteira de “S.F.SORROW”, dos PRETTY THINGS , lançado em 1968. É disco bastante admirado por “PETER TOWNSHEND”, o guitarrista e compositor principal do WHO.
Porém, “TOMMY” foi espertamente VENDIDO e posteriormente reinventado como ÓPERA ROCK. Foi gravado, filmado e encenado diversas vezes, o que lhe garantiu merecida fama e perenidade.
O álbum, em tese, representa o amadurecimento de uma banda que havia se firmado como ídolo para para os adolescentes rebeldes. “THE WHO” como THE ROLLING STONES sempre foram sinônimos e paradigmas de rebeldia e iconoclastia.
Em 1968, a banda estava em crise financeira e de criatividade. Os quatro precisavam fazer algo para resolver. E “TOMMY” foi um achado e a solução.
Os quatro tiveram muita sorte. “ARTHUR”, dos KINKS, lançado no mesmo ano, também é musicalmente conservador. No entanto, é mais pretensioso e bem escrito. A obra narra a HISTÓRIA e o modo de vido dos BRITÂNICOS com muita ironia e SARCASMO. Postura em dia com aqueles tempos de insubordinação e contestação política. Comparem, por exemplo, o que faziam CHICO, GIL e CAETANO, aqui no BRASIL. Todos artistas relevantes em pari passu com a HISTÓRIA.
No entanto – e haja “no entanto” significativo! – “TOMMY” anteviu uma sociedade crescentemente baseada na ELETRÔNICA, que vinha se caracterizando pela incomunicabilidade e alienação entre os indivíduos, uma chaga marcante do mundo contemporâneo. “TOMMY”, o personagem central, é CEGO, SURDO e MUDO. E um craque em jogos eletrônicos.
Resumindo, o mundo em que hoje vivemos foi exposto há mais de meio século neste álbum que THE WHO legou!
Para quem duvida, basta observar em volta. Nos metrôs, mesas de bares, reuniões de família, escolas e enxergará no presente aquele futuro que PETE “TOWNSHEND” intuiu.
Deste ponto de vista, “TOMMY” É OBRA DE GÊNIO; metáfora duradoura. E quem não conhece “NÃO PASSA DE ANO EM ROCK’N’ROLL…”
PS: Esta edição é japonesa, remasterizada em “SHMCD”, o que lhe garante estar entre as melhores tecnologias possíveis para reprodução musical.
POSTAGEM ORIGINAL: 13/09/2020
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BOB DYLAN, O PRINCÍPIO – ORIGINAL MONO RECORDINGS – 1962/1967 – BOX SET – COLUMBIA RECORDS – 2010

É o BOB DYLAN no início da carreira, em CDS com formato de “Mini L.P, trazendo os primeiros oito álbuns que gravou, acondicionados em um BOX SET edição limitada. Os discos são mixados e remasterizados em MONO; com todo o capricho e a histórica qualidade sonora da COLUMBIA RECORDS. Claro, acompanham ótimo livreto, fotos, etc..
As mixagens em MONOAURAL foram originalmente realizadas para LPS lançados entre 1962 e 1967. A experiência de ouvir soa mais “natural” e integrada, pois destaca a percepção para o todo. E se adequa muito bem ao FOLK acústico.
Colecionadores acham o fino!
BOB DYLAN é questão de gosto. Sua linearidade melódica é enriquecida pela poética sofisticada que revolucionou o POP/ROCK, e lhe garantiu um PRÊMIO NOBEL de LITERATURA. No entanto, é para muitos, um porre potencializado por sua voz quase fanha e monocórdica.
De outro lado, é o brado da contestação e iconoclastia que incentivou o surgimento dos “cantautores”: os “Cantores-Compositores” intérpretes originais das próprias obras.
O mundo ganhou – e muito – ao admitir a expressão de tantas vozes novas. CHICO BUARQUE e BELCHIOR; LEONARD COHEN e TOM WAITS são exemplos de vozes talvez algo fustigantes. No entanto, de personalidade marcante.
Coube a DYLAN a honra do primeiro experimento do chamado FOLK-ROCK. Seu produtor, TOM WILSON, eletrificou a MÚSICA FOLK. Em 1965, ele uniu as guitarras elétricas do “BEAT ROCK” ao órgão, no clássico seminal “Like a Rolling Stone”.
Repetiu a experimentação com os BYRDS, em MR. TAMBOURINE MAN, canção de DYLAN que se espalhou mundo afora. E chegou ao “Estado da Arte” quando em 1966 SIMON & GARFUNKEL lançaram “The Sound of Silence” – clássico definitivo.
TOM WILSON, que era negão, inventou o FOLK ROCK!
A COLUMBIA RECORDS tornou-se referência com a invenção do FOLK ROCK. E propiciou as primeiras experiências com o JAZZ ROCK, lançando bandas como CHICAGO TRANSIT AUTHORIT e BLOOD SWEAT & TEARS.
E fez a mesma coisa no sentido contrário, fundindo o JAZZ ao ROCK e abrigando a fase FUSION/ELECTRIC de MILES DAVIES. E, também, com JOHN McLAUGHLIN e a MAHAVSHNU ORCHESTRA; e o WEATHER REPORT, de JOE ZAWINUL e WAYNE SHORTER.
Todos referências de qualidade técnica e invenção artística!
POSTAGEM ORIGINAL: 15/12/2019
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