Os flashes de realidades vividas sempre me assolam, e trazem memórias que vou lapidando sem a certeza de ter acontecido aquilo mesmo. Gentes e fatos passaram e eu convivi obnubilado mas aplicando a intensidade dos curiosos.
Eu era quase criança, pré-adolescente, portanto imaturo e sem recursos para analisar. Ainda assim, retomo sempre as impressões que mantive de certos momentos.
Em meio à aula de piano com a professora LYDIA, amiga de minha tia NORA e do tio ABRAMO GARINI, me dei conta da alteração de clima entre as pessoas. O golpe de 1964 havia eclodido uns dias antes. Vi a família de minha mãe confusa, com exceção do tio ANTONIO GARINI. O TONICO foi homem consciente e jornalista já de alguma expressão que se opôs àquilo tudo, mas sob algum muxoxo dos irmãos – que tinham medo do incerto, claro!
O período criativo e de nascentes liberdades transcorrido entre o suicídio de GETÚLIO VARGAS, em 1954 e a queda de JOÃO GOULART, em 1964, é o pano de fundo dessa transformação cultural profunda nas artes brasileiras – que se estenderam muito além do evento crucial. E tomaram bordoada firme, em 1968 e, mesmo assim, continuaram a se expandir.
LIBERDADE, IGUALDADE e EQUIDADE são os fundamentos de qualquer sociedade que se diga civilizada.
Aqui, a pretensão é falar de música boa e farta; e de alguns artistas não tão notórios – mas certamente notáveis.
Avis raras? Terras raras cai melhor para a turma de brasileiros da foto. Principalmente as três moças: cantoras fundamentais da BOSSA NOVA – todas contemporâneas e conectadas entre si.
Emergiu antes delas um moço do Recife craque dos teclados – tocava todos eles, acredite! – e se tornou o mais expressivo organista de sua geração. Instrumento que operava com absoluta destreza, criatividade e “brasilidade”; e dava o toque moderno e “outsider” para organizar pequenos combos harmonizando ou fazendo contraponto ao violão, o baixo e a percussão em discos de inequívoca música brasileira.
Opaaa!!! É bom apresentá-los a vocês. Será por ordem de chegada, já que a pertinência é também audível. As meninas são ASTRUD GILBERTO, SYLVINHA TELLES e NARA LEÃO. Todas de classe média alta, nas definições da época, e filhas de famílias educadas e mais abertas – também nos limites daqueles tempos.
O cavalheiro era do RECIFE, foi casado com a cantora ISAURINHA GARCIA e juntos fizeram parceria artística famosa nos 1950.
WALTER WANDERLEY é nome de nascença prontinho para o “marketing” no exterior. Começou na música no princípio da década de 1950. E como TIO SÉRGIO está velho e vive esquecendo coisas, deixei de colocar na foto dois boxes fantásticos lançados pela DISCOBERTAS, com oito álbuns originais e mais alguns 78 rotações gravados por WALTER entre 1958 e 1963.
Em 1965, seguindo a moda, foi lançado o único disco do QUARTETO BOSSAMBA, com ele ao piano e um grupo de craques não identificados. Claro, é um afluente do BRASILIAN JAZZ.
A reviravolta na carreira aconteceu quando o grande TONY BENNETT, um dos responsáveis pela divulgação da BOSSA NOVA no exterior, fazia turnê pelo BRASIL e descobriu WALTER WANDERLEY. Ficou impressionado com o virtuosismo artístico e técnico do organista! E abriu as portas para ele nos EUA.
WALTER emigrou em 1966, e fez sucesso “de verdade”: a versão de SAMBA de VERÃO e o álbum RAIN FOREST – coalhado por jazzistas craques – venderam mais de um milhãode cópias cada!
WALTER WANDERLEY gravou trinta e um Long Plays e morreu em São Francisco, em 1986.
WALTER WANDERLEY e ASTRUD GILBERTO fizeram juntos, em 1966, “A CERTAIN SMILE, A CERTAIN SADNESS”, com a participação de JOÃO GILBERTO.
SYLVIA TELLES – A TRANSIÇÃO
O pai de SYLVIA TELLES gostava de música clássica, vá lá, erudita… e era advogado. Família da alta classe média carioca, tinha vida confortável. SYLVINHA foi a primeira cantora profissional de BOSSA NOVA, e a primeira a gravar TOM JOBIM, em 1956. Mas é bom observar: TOM e VINÍCIUS não significam “automaticamente” BOSSA NOVA. Foi preciso o violão e o estilo de cantar e tocar de JOAO GILBERTO para determinar a seminal mudança.
É interessante ouvir o álbum AMOR DE GENTE MOÇA, de 1959, onde as orquestrações estão doces demais e bem tradicionais. E perceber que SYLVIA, mesmo cantando baixinho e de jeito intimista lembra, um pouco, a forma de interpretar de ELIZETH CARDOSO, em CANÇÃO DO AMOR DEMAIS, 1958 – um disco erradamente classificado como BOSSA NOVA.
SYLVIA caminhou no lusco-fusco estilístico até que os traços do passado aos poucos foram sendo substituídos pelo novo. O rompimento foi cauteloso. Em 1963, já na gravadora ELENCO, lançou BOSSA, BALANÇO e BALADA – onde os arranjos orquestrais e o canto já estão mais integrados à nova onda.
Ela e NARA LEÃO foram amigas íntimas. Após a morte de SYLVIA, aos 32 anos, em 1966, num desastre de automóvel, a turma dela começou a frequentar o famoso apto de NARA, na Avenida Atlântica, 2856, COPACABANA. E a História continuou
CODA
SYLVIA TELLES tinha malas prontas e passagem marcada para NOVA YORK, onde faria shows e gravaria um disco para a KAPP RECORDS. O destino fez-lhe uma surpresa.
NARA LEÃO – A ECLÉTICA INCLUSIVA
Nara foi pessoa símbolo de uma pretensa perfeição: a beleza discreta, o fino trato, a coragem e assertividade incorporados na militante política e na artista eclética, vanguardista, ousada e de bom gosto. Nara fazia xilogravuras e sabia “montar filmes” – ela foi casada com o cineasta CACÁ DIEGUES.
Entre as três cantoras, Nara talvez tenha sido a de menor recurso vocal. Talvez, especulo. Era, no entanto, boa violonista e foi lapidada na escola de música que CARLOS LYRA e ROBERTO MENESCAL tinham em Copacabana. Tinha ótima noção de harmonia e ouvidos apurados.
NARA LEÃO foi a musa da BOSSA NOVA, mas conflitou com a “facção” mais “ingênua”, “alienada”, e saiu fora. Já no primeiro álbum, “NARA”, lançado em 1964, ela incorporou a música de protesto no repertório.
Depois do golpe de 1964, tornou-se militante da esquerda política e quase foi presa. Deu entrevista, em 1966, dizendo que as forças armadas deveriam ser extintas. O poeta CARLOS DRUMOND de ANDRADE dedicou poema a ela: “Meu honrado marechal \ dirigente da nação\ venho fazer-lhe um apelo\ não prenda Nara Leão!
Não prendeu.
O ecletismo de NARA somado à sua visão ampla e inclusiva, revelou artistas como CHICO BUARQUE e MARIA BETHANIA, e trouxe ao proscênio o sambista ZÉ KETTI e a música nordestina de JOÃO do VALE – o autor de CARCARÁ, que tanto ela como BETHANIA gravaram.
Depois, NARA apoiou a turma da TROPICÁLIA: GIL, CAETANO, o maestro ROGÉRIO DUPRAT… E fez um álbum, em 1978, só com músicas de ROBERTO e ERASMO CARLOS. Ela e ELIS REGINA também não se entendiam. Eram antípodas em temperamentos e posições estéticas. Postaram CAETANO explicando como foi a treta. E concluindo que NARA tinha razão. Eu também acho.
NARA LEÃO gravou 23 álbuns entre 1964 e 1989. Obra extensa . Eu tenho o primeiro BOX com os onze CDS / LONG PLAYS gravados entre 1964 e 1969. Há outro, que nunca vi, abrangendo de 1971 a 1989. Ela faleceu aos 60 anos em 07 de junho de 1989 de câncer no cérebro.
Foi ícone produtivo e vanguardista de uma geração que aspirou romper com a breguice autoritária.
O LONGO VOO DA MENINA TÍMIDA
JOÃO GILBERTO conheceu ASTRUD EVANGELINA WEINERT no apartamento de NARA LEÃO, no Rio de Janeiro. As duas eram amigas íntimas. O local se tornou histórico, porque lá se reunia a TURMA da BOSSA: CARLOS LYRA, ROBERTO MENESCAL, RONALDO BÔSCOLI e outros. E os dois se apaixonaram e se casaram, em 1959.
Como NARA e SYLVIA TELLES, ASTRUD era menina da alta classe média. O pai, um senhor alemão, professor de línguas e literatura, tornou-a fluente em seis idiomas: inglês, espanhol, francês, italiano; o português – é claro -; e pasmem: até o japonês!
Ela jamais pensou em ser profissional. Mas cantava entre os amigos e bem! Tinha voz pequena, afinada, delicada e bem adequada para o repertório mais intimista da BOSSA NOVA.
JOÃO GILBERTO já despontava como violonista e cantor originalíssimo. Em novembro de 1962, participou com TOM JOBIM e outros no histórico concerto de BOSSA NOVA, realizado no CARNEGIE HALL. E a convite do produtor CREED TAYLOR e da gravadora VERVE, retornou a Nova York, em março de 1963, para gravar com STAN GETZ o seminal GETZ/GILBERTO, o disco supremo da BOSSA NOVA.
Houve tensão entre os estilos divergentes de JOÃO, um intimista refinado, e o de STAN – saxofonista explícito e nitidamente JAZZ, que já havia gravado música brasileira com o violonista CHARLIE BYRD, no clássico JAZZ SAMBA, de 1962.
No meio dos trabalhos pintou a ideia de gravar uma parte da música em inglês. E como TOM JOBIM e JOÃO GILBERTO não eram fluentes, convenceram ASTRUD a cantar.
A fusão contrastante criada por JOÃO, STAN e TOM JOBIM somados ao vocal delicioso de ASTRUD, gerou o híbrido sonoro simbiótico entre os dois gêneros musicais. Que pode ser definido como forma específica de “LOUNGE” que ajudou a eternizar o álbum e a BOSSA NOVA, nos compêndios da música. E haja STREAMING para dar conta disso!
“GAROTA de IPANEMA” tem mais de 440 gravações diferentes! Vendeu milhões e milhões de cópias em diversos formatos e está incluída em mais de 1500 álbuns distintos. Faz parte, também, das dez músicas mais tocadas em todos os tempos! No entanto, e aos costumes da rapina musical da época e “beyond”, ASTRUD, a moça tímida, ganhou a fortuna de $120,00 dólares para cantar um HIT de sucesso eterno e monumental! Não vou repetir. ASTRUD e JOÃO GILBERTO terminaram o casamento em 1964.
ASTRUD aproveitou a oportunidade e foi, das três, a cantora mais bem sucedida. A experiência trazida pelo acaso abriu o caminho na música internacional. No ano seguinte, ela voltou a gravar e excursionar com STAN GETZ, e iniciou a carreira solo. Gravou 16 álbuns originais, algumas coletâneas; aos poucos foi ampliando seu repertório, e sempre o adequando à voz curta e delicada.
De todos os discos na foto, fui surpreendido por “LOOK AT THE RAINBOW”, de 1966, álbum com arranjos orquestrais de GIL EVANS. É uma pequena maravilha possível de se interpretar como cruzamento da BOSSA NOVA com as orquestrações de EVANS para MILES DAVIS, cerca 1956/1959. Há composições de VINÍCIUS e BADEN POWELL, TOM JOBIM e CARLOS LYRA e MARCOS VALLE, também, mesclados a MICHEL LEGRAND… e por aí vai.
ASTRUD é a primeira cantora brasileira a ganhar um GRAMMY. Em 1965, foi indicada pela “canção do ano de 1964”. Adivinhem qual é? E também faz parte do LATIN MUSIC HALL OF FAME. E de 1965 até 2002, gravou entre 16 e 18 álbuns solo.
Sua última apresentação no BRASIL foi em 1965. Ela tinha mágoa de parte da imprensa que a tratava como amadora, “ONE HIT WONDER”. Em 2002, discretamente anunciou que estava deixando a carreira por tempo indeterminado. E não voltou mais.
Continuou morando reclusa na Filadélfia, pintando quadros, quieta e calada fez o pouso definitivo de uma carreira diferente, algo à sua revelia, mas de sucesso artístico e comercial.
Observando ASTRUD GILBERTO e sua forma tímida e ultra restrita de se movimentar e interpretar; seu timbre diferenciado, a facilidade para línguas e o talento natural para a música, não é difícil desconfiar de que talvez tivesse sido uma superdotada.
E assim, termino.
AVIS RARAS, TERRAS RARAS, TEMPUS FUGIT.
POSTAGEM ORIGINAL: 23/09/2026

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