Viver e sonhar? Ou fazer enquanto sonhando? Quem sabe dar forma ao sonho depois de acordado, e tudo feito meio “sem querer – querendo”?
Tudo isso junto, provavelmente…
Talvez MILES DAVIS tenha sido um predestinado. Foi contratado pela COLUMBIA RECORDS em 1957, e permaneceu por lá até 1989.
O legado ficou no estupendo BOX com 70 CDS e um DVD, abrangendo tudo o que foi lançado, e inclusive o descartado na época reaproveitado no decorrer das décadas.
O lapso temporal aconteceu entre o final de um dos “MILES DAVIS QUINTET”, aquele criado em 1965 com o pianista HERBIE HANCOCK; RON CARTER, no contrabaixo; TONY WILLIANS, baterista; e WAYNE SHORTER, saxofones. Músicos excepcionais, herdeiros do JAZZ MODERNO da década de 1950. Juntos gravaram quatro LPS, e faixas que saíram em mais três álbuns lançados posteriormente.
Quando o grupo foi dissolvido, em 1968, MILES montou o próximo com músicos mais jovens, também extraordinários, e depois ultraconhecidos: JOE ZAWINUL e CHICK COREA, teclados; JOHN McLAUGHLIN, guitarra e DAVID HOLLAND, no baixo. Manteve TONY WILLIANS e HANCOCK para completar o combo.
Este é o time que atuou no álbum ” IN A SILENT WAY” original. E acrescido por outros músicos tocou nas faixas que compõem a presente edição. O BOX contém 3 CDs e livreto bem informativo de fino acabamento gráfico.
Segundo JOHN McLAUGHLIN, o estúdio era amplo, os músicos ficavam mais espalhados, e MILES circulava dirigindo, orientando e falando baixinho no ouvido de cada um…
As sessões que resultaram no “IN A SILENT WAY”, o BOX SET, seguem dois caminhos não tão distantes.
Claro, MILES também procurou ficar próximo à sua sonoridade “histórica” para não fugir radicalmente do público que conquistara. Afinal, continuava trabalhando e fazendo turnês. A estratégia funcionou. E grande parte do que não entrou no álbum original acabou sendo aproveitada nos discos posteriores: “FILLES DE KILIMANJARO”, 1969; “DIRECTIONS”, 1971; “WATER BABIES”, 1976 e “CIRCLE IN THE ROUND”, 1979. Esse material é menos experimental, e facilmente identificável com a evolução “normal” de sua carreira.
“IN A SILENT WAY”, lançado em 1969, faz fronteira com “BITCHES BREW”, 1970; e ambos são marcos fundadores do “JAZZ FUSION”.
O disco foi produzido por “TEO MACERO” e é diferente de tudo o que MILES DAVIS fizera, fazia, e veio a fazer depois. O álbum foi sendo concebido e realizado durante as diversas sessões de gravação que resultaram neste BOX. E a mudança de foco em direção ao mais experimental é nítida.
DAVIS integrou ao time três tecladistas com estilos diferentes, para desempenharem funções distintas. Todos assumiram a música de “base elétrica”. E MILES deu liberdade para o super “Guitar Hero”, JOHN McLAUGHLIN, expor seus talentos. Resumindo, com os novos integrantes o lado ROCK afluiu.
A música título foi composta por JOE ZAWINUL, austríaco, e tecladista de vanguarda que se inspirou no “clima” do Natal, de 1968, que passara com a família em VIENA. A ideia foi expressar a intensa paz, calor humano, a proximidade com suas origens e a natureza. O resultado é artístico e pleno de simbolismo!
DAVIS gostou do que ouviu. E mesmo que fuja da “tensão” característica de seu estilo, o produto é obra coesa e inovadora, onde foram experimentadas novas texturas e harmonias.
As músicas são “oníricas”, digamos – com inícios “fluidos”; sem final explícito, e reinícios no decorrer das faixas. Moderníssimas.
MILES DAVIS compôs SHHHH / PEACEFULL, e ABOUT THAT TIME, para completar o LONG PLAY. São quatro músicas experimentais enunciando FUSION JAZZ e o início da FASE ELÉTRICA, na carreira dele. Há diversas faixas no BOX indo também para esse lado.
Depois de concluído o trabalho de estúdio, houve a seleção das faixas a serem lançadas. E o resultado é uma construção peculiar entre o ROCK PROGRESSIVO e o JAZZ de VANGUARDA que abriu, tempos depois, novos caminhos agora definidos como NEW AGE, AMBIENTE MUSIC, TRANCE, e tendências outras da moderna música eletrônica.
É preciso perceber que a impermanência de tudo é a regra da vida. Os conceitos até então consolidados sobre estilos, suas origens, consequências e influências, também estão sob escrutínio.
Hoje, encara-se os já falecidos RICK WRIGHT, no PINK FLOYD; e MIKE PINDER, um dos fundadores dos MOODY BLUES, como tecladistas mestres na criação dos climas e conceitos marcantes das bandas. Tanto o FLOYD como os MOODIES seriam totalmente diferentes sem a presença desses dois.
Neste sentido, não é estranho que as sonoridades encontradas no álbum “IN A SILENT WAY” possam ter influenciado BRIAN ENO na criação da AMBIENT MUSIC. E daí, os caminhos da “música elétrica” para os “eletrônicos de vanguarda modernos”, tipo a NEW AGE e o TRANCE.
E é imprescindível citar a gravadora ECM em sua imensidão criativa, que abre portais desde a música totalmente acústica até o eletrônico. E grava artistas do JAZZ ao CLÁSSICO; e do experimental ao conservador modernizado.
Em tantas palavras, TIO SÉRGIO propõe que o MILES DAVIS possa ter sido pioneiro e deixado sua benção por aqui, também!
E DURMA-SE COM UM SILÊNCIO DESSES!
POSTAGEM ORIGINAL: 08\06\2024

POSTAGEM ORIGINAL: 08\06\2024
