BJORK: AVENTURA SINGULAR DO GELO AO COSMOS

O TIO SÉRGIO foi ótimo office boy. Desde os 14 anos, desenvolvi o senso de direção adquirido intuitivamente, e que me levava e trazia dos confins da cidade até onde horizontes fossem vistos. Durante uns sete meses, passei buscando coisas, pacotes, processos, e o escambau determinado pelas secretárias da diretoria. Eram amorosas e despóticas – e bem ao gosto brasileiro…
A remuneração em um grande banco da época, o NOVO MUNDO, era um atentado aos direitos humanos. Eu ganhava, em 1967, o chamado “SALÁRIO MÍNIMO DO MENOR”. A exata metade do mínimo de um adulto para trabalhar o dia inteiro, de segunda a sexta feira – e durante certo tempo, aos sábados até o meio-dia!!!!
Se hoje vivemos tempos de abusos, há cinquenta e tantos anos era “proto-escravidão” impingida.
Valeu a pena: eu girava São Paulo e, vez por outra, parava em lojas de discos, minha eterna paixão!
Mas também fui péssimo jogador de futebol. Não tinha orientação espacial para jogar em espaços curtos, e muito menos habilidade motora para dribles, marcação, essas coisas que definem um garoto até, digamos, uns 16 anos.
Fui estudante ruim, medíocre, e perdi dois anos no antigo ginásio tentando aprender a jogar bola. Aprendi? Claro que não! Vocês lembram, Renato César CuryJoão Raphael Ditommaso?
Então, fui mesmo em direção aos discos, e depois aos livros.
Por isso, TIO SÉRGIO descobriu fácil a BJORK; mas deixou de lado BRUCE SPRINGSTEEN – hipoteticamente, mais afeito à vida de garoto pobre em metrópole incipiente do terceiro mundo. Eu deveria ter estado mais para o “BORN TO RUN”, do que para “HEART FULL OF SOUL”, dos YARDBIRDS. Mas, não foi.
A BJORK eu conheci no final dos anos 1980, com os SUGARCUBES – que pouco me diziam. Mas ela saiu do gelo para o mundo; olhar de “laser”, talvez lince, enxergou seu diferencial até agora não transposto: um cantar único auxiliado por um timbre soprano raro, mesclado com a estranheza do sotaque “islandês” imposto como regra e não exceção. BJORK entrou no mundo POP e submeteu-o, colocou-se.
TIO SÉRGIO, apesar da idade, tem o estranho orgulho de conhecer mais HITS da nórdica excêntrica, do que do BRUCE SPRINGSTEEN.
E por que seria? Fácil. O americano é óbvio, mesmo que talentoso. Então, TIO atentou-se mais para ela.
A moça islandesa autotransplantada para o REINO UNIDO espanta! Como alguém vinda do gelo interessou-se por gente tão tropical como MILTON NASCIMENTO e ELIS REGINA, e convocou EUMIR DEODATO para produzi-la? E mais agora de seu tempo, incorporou e digeriu DJs do mundo inteiro para amplia-la? Pois, é!
E, pasme! Como não se desfigurou sob influências tão exóticas? Eu não sei: de alguma forma assimilou, foi em frente – expandiu as próprias hipóteses.
Você sabia que BJORK coleciona discos da ELIS REGINA? E que ISOBEL foi composta em homenagem a ela? Não notou? Não tem importância – mas certamente tem substância…
Ela é moderníssima, multiartista e multimídia. Quando assisti a “DANCING IN THE DARK”, filme do… ahnn psicopata… LARS VON TRIERS, grande cineasta do mal (desculpem – me se não concordam) fiquei mais fascinado ainda por ela! Principalmente pela crueldade do epílogo, em que acaba sendo executada injustamente por enforcamento, em cena horrorosamente brilhante. Está no filme CATHERINE DENEUVE – musa recorrente de minha adolescência “anarcoetílicointelectualizada”.
A reação que tive depois do filme foi desfazer-me da trilha sonora, tal a repulsa por aquilo tudo! Não consegui escutar mais, ou sequer manter na coleção! Faltará sempre.
Conclusão lateral inescapável: BJORK é, além de grande, criativa, e sempre mutante compositora e arranjadora, ótima atriz! Conclusão lateral número dois: sou fascinado por VON TRIER, assisti e assisto a todos os filmes que ele faz. Mas o quero preso em algum hospício. Ele não é humano!
BJORK é diferenciada. Não repete coisas. Compõe melodias, todas “DARK”, “DISMAL”, TRISTES, como sinopse de filme de terror. E orienta arranjos misteriosos que lembram “FILMES NOIR”. Tudo o que ela faz é relevante e de qualidade artística indiscutível.
A voz de BJORK determina o andamento de suas músicas, é simbiótica às suas criações, composições, sei lá o quê! O senso melódico da moça é meticulosamente ajustado à sua voz e ideias. É única! Tem estilo.
É minha opinião que DAVID SYLVIAN, BJORK e o RADIOHEAD são os mais importantes artistas de relevância do ROCK DE VANGUARDA, surgidos nos últimos 40 anos. Seriam?
Fui atrás do que pensam sobre a música dela. A quantidade de fusões identificadas é imensa! Talvez a maior que vi por aí! Cito poucas: MÚSICA CONCEITUAL, TRIP-HOP, ETHEREAL, DREAM POP, e tantas mais e tão bonitas que tanto faz…E são dez álbuns originais de estúdio e várias coletâneas.
Nem vou me concentrar em seus CONCERTOS! Diferentes, com a banda organizando outras sonoridades. São visualmente intrigantes, e é onde mais bem ela exerce seu lado teatral. Muita gente a estranha, e nem sempre dela gosta.
BJORK é um pequeno gênio nórdico? Superdotada seguramente ela é! Ah, sim!
Como sempre, eu escrevo sobre impressões pessoais. Sou um memorialista, digamos… Por isso as digressões, falas e resmungos espalhados ao longo do texto.
A hoje madura senhora é um sucesso de público. Também por isso, tempos atrás colocou à venda um apto, em Nova York, por $ 4,2 milhões dólares. Saiu na RECORD COLLECTOR – que também baba-ovo por ela, como o TIO SÉRGIO aqui.
Ah, o imóvel já foi vendido….
POSTAGEM ORIGINAL: 03\07\2024
Pode ser uma imagem de texto

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