Três animais de instinto aguçado: sentem o cheiro e vão atrás das caças. Ouvi de uma veterinária que o gato deixa tudo e persegue por quilômetros, dias, cheiro qualquer que o interessou! Os cães farejam, encontram e apontam o alvo.
Colecionadores fazem mais ou menos a mesma coisa: correm obsessivamente por décadas atrás de uma ideia, de um som, um livro, um sei lá o quê… No meu caso, sismo com determinada música às vezes ouvida há trinta, quarenta, cinquenta anos atrás!
Os discos da postagem são eivados por canções memoráveis – ao menos para mim – e ilustram o texto. Escutei durante a vida incontáveis melodias e não esqueci. Eu não sabia quem eram os artistas, e nem onde estavam as gravações. Mas fui xeretar e tentar conseguir.
Desde criança, alguns desses fragmentos sonoros impregnam-me. Instalaram-se em minha cabeça; e tocam durante anos dentro do cérebro. São coisas, eu acho – melhor dizer eu tenho certeza! – que de certa maneira ouvi….
Antes da INTERNET era muito difícil encontrar os discos, origens. TIO SÉRGIO exercitava um jogo de memória e comparações para tentar concluir quem estaria cantando ou tocando. Farejava, ruminava cérebro adentro. E deu certo na maioria das vezes.
No final dos anos 1960, comprei por preço extorsivo três fitas
“FITAS K7”, gravadas por um sujeito cheio de grana e acesso a discos e “tapes”.
Sei lá como cheguei até o cara! Joaquim era um playboy curtidor da noite e possuía um amontoado de compactos e fitas importados. E os punha pra rolar em boates da moda – lugares onde jamais estive, e que depois se perderam na cachoeira dos tempos.
As músicas foram captadas – capturadas? – principalmente do HIT PARADE americano em momento determinado daqueles tempos. Coisas escondidas, escorregadas no PICK-UP de um D.J. anônimo em recanto qualquer da AMÉRICA. Mal atingiam a parada nacional do “HOSPÍCIO DO NORTE”. Pilhas de lixo e preciosidades convivendo lado-a-lado esquecidas, subestimadas, negligenciadas.
O acesso `aquilo tudo era difícil e, como sempre, impermanente, surpreendente, porque gravados em discos legais, mas que ninguém conhecia. A imensa maioria permaneceu no limbo.
Pois bem, comprei muito daquelas coisa posteriormente, e ao longo de décadas. Fui descolando aos poucos.
Dia incerto, anos atrás li matéria na “RECORD COLLECTOR” sobre um produtor da década de 1960, chamado “CURT BOETTCHER”. O jornalista que o entrevistou citou o hipotético nome de certa música, “MRS. BLUE BIRD”… Era uma das minhas memórias!
Pesquisei, encontrei o CD dos “ETERNITY´S CHILDREN”, lançado em 1968. É delicioso.
SUNSHINE POP para quem aprecia o “MAMAS & THE PAPAS”, “THE ASSOCIATION”, e a linha soft da PSICODELIA.
Aos poucos fui descobrindo música por música da fita. No álbum “A CHILD IS A FATHER TO THE MAN”, o primeirão do “BLOOD, SWEAT and TEARS”, 1968, está a encantadora “MORNING GLORY”, um show de interpretação e voz de STEVE KATZ. Encontrei outra mais ouvindo o “VANILLA FUDGE”: “SOME VELVET MORNING”, 1968.
E descolei por absoluto acaso pérola em um disco da banda “OHIO EXPRESS”: procurem ouvir “BEG, BORROW & STEAL”, 1968, um sensacional GARAGE ROCK! Assim como “I SEE THE LIGHT”, lado B de “A LITTLE BIT OF SOUL” , 1968, sucesso de outra banda de “BUBBLEGUM” algo “GARAGE-FAKE”, “THE MUSIC EXPLOSION”.
E assim, diversas várias foram surgindo feito espinhas na cara de adolescentes…
A turma que aprecia R&B precisa conhecer “THE GOODEES”, trio de mulheres brancas que fez um “PSICHEDELIC SOUL” matador chamado “CONDITION RED”, em 1969. É na mesma linha do excelente HIT menor “NATHAN JOHN”, gravado pelas “SUPREMES”. Toda essa turma habita minhas estantes.
Acho que faltaram umas três ou quatro músicas interessantes naquelas fitas que jamais identifiquei ou descolei. E, confesso, tenho “RETROGOSTO AUDITIVO” – humm!!! – de apenas uma que, também, não tenho pista do que seja. Era violentíssima, em 1968, até para coisas do BLUE CHEER!
E assim, cacei, comprei, troquei e aos poucos fui colecionando “NUGGETS” “BANDAS DE GARAGEM”. Muita música legal escondida na bruma do tempo faz parte do repertório de bandas “quase inexistentes” como “SOUTHWEST FOB”, “FORUM QUORUM”, “THE HOBBITS”, “NEW COLONY SIX”, “PEPPERMINT TROLLEY CO.” Ou CULTS quase famosos como “THE BEAU BRUMMELS”, “THE STANDELLS”, e centenas encontrados no cheiro, na raça e no chute em décadas de capinagens por sebos, livros, revistas, acasos e o vasto etc… que a vida desvela.
CODA
Dia qualquer, em uma das lojas de CD que tive, a CITY RECORDS, apareceu um cliente mais ou menos da minha idade e perguntou se eu identificaria certa música que açoitara o cérebro dele por décadas dele. Cantarolou. E eu matei de cara: “THE WORST THAT COULD HAPPEN”, com THE BROOKLIN BRIDGE, 1968. Importei e vendi o disco. Ah, essa eu não tenho…
Assistindo a filme antigo e banal na televisão, descobri outra canção que me torturava desde 1971! De repente, ela impregnou meu cérebro e imaginação. Fui ao GOOGLE, escrevi trechos da letra, informei que poderia estar em alguma trilha sonora. E vá lá, Bingo! ENCONTREI!
É um filme francês chamado “UN BEAU MONSTRE”, e a música se chama “STAY”. Foi gravada por um grupo “POP/PROGRESSIVO” BELGA e quase famoso na época: “WALLACE COLLECTION”.
A música é BABA PURA, e hoje parece-me um tanto óbvia. Mas e daí? Está na coleção guardadinha.
Os que apreciam o POP romântico daqueles tempos vão gostar dessas duas “babas.
Da minha parte, fico satisfeito por ter usado a expressão CODA em outro contexto. Ela vem da música. É um restinho da música, ou acorde, que soa depois da música ter tecnicamente acabado. E, aqui, é um restinho de texto agregado à ideia principal da postagem.
POSTAGEM ORIGINAL: 20\07\2022

POSTAGEM ORIGINAL: 20\07\2022
