ANDANÇAS, VIAGENS E CHEGANÇAS DE BOWIE, IGGY POP, E OUTRO CRIATIVOS PELOS HANGARES E RADARES DO KRAUTROCK, E DA MÚSICA EXPERIMENTAL E ELETRÔNICA: 1973/1979
Em 2022, PHILLIP GLASS terminou e lançou a sua DÉCIMA SEGUNDA SINFONIA, e completou a sua visão sobre a trilogia BERLIM, de DAVID BOWIE – que junta três discos seminais da saga criativa do ROCK através dos tempos.
GLASS acertara com BOWIE que também comporia sobre “LODGER”, original de 1979, e o terceiro disco da trilogia original. Ele Já havia feito magníficas sinfonias baseadas em “LOW”, em 1993; e “HEROES”, em 1996. Agora, esse triatlo artístico de grande fôlego e pertinência, já está disponível. Não percamos. É obrigatório! DAVID e PHILLIP merecem.
O histórico e pioneiro do ROCK PROGRESSIVO nas rádios de São Paulo, Jaques Sobretudo Gersgorin, dizia no KALEIDOSCÓPIO, o programa dele,😀 que ROCK era o encontro da “MAGIA COM A TECNOLOGIA”.
E a tecnologia recuperou a magia desenvolvida por um SUPERGRUPO alemão de KRAUTROCK, formado em 1973.
O HARMONIA foi a coalisão – colisão? – que juntava MICHAEL ROTHER, guitarrista e multi-instrumentista, que iniciou a carreira emulando KINKS, HENDRIX e o THEM; e depois, os desconstruiu no NEU, a dupla CULT que formou com KLAUS DINGER – outro criativo fora de esquadro.
Para constituir o HARMONIA vieram mais dois músicos com sobrenomes que parecem retirados de algum alfarrábio escrito em latim: HANS-JOACHIM ROEDELIUS e DIETER MOEBIUS. Ambos em teclados, percussão e instrumentos eletrônicos variados. A dupla estava na praça desde 1971, sob o nome de CLUSTER – que subsistiu longamente em idas e vindas, associações, e vasto etc… existencial.
Para simplificar, sobras do NEU + CLUSTER = HARMONIA. O nome que escolheram quase ironicamente, tanto por causa da beleza de FORST, no interior da ALEMANHA onde viviam, quanto pela tensão criativa gerada pelos três. “Foi quase um amor à primeira vista”, brincavam.
Em frase brilhante que li sobre eles, os três sabiam perfeitamente que a ALEMANHA OCIDENTAL não era o QUINQUAGÉSIMO PRIMEIRO ESTADO AMERICANO!
Portanto, desfigurar, reconstruir, e recriar um ROCK à imagem e semelhança da sólida e independente cultura ALEMÃ, era mais do que ESTÉTICA: Ladeava com a ÉTICA! Vocês recordam BELCHIOR quando canta que um TANGO ARGENTINO LHE CAÍA BEM MELHOR DO QUE UM BLUES?
Pois, é!
STOCKHAUSEN e a MÚSICA de VANGUARDA falava mais aos músicos experimentalistas e “progressivos”. E dava o tom para quase a totalidade do “KRAUTROCK” – visto como ROCK PROGRESSIVO alemão de características próprias.
O “KRAUTROCK” é pleno de ELETRÔNICA, IMPROVISAÇÃO e POLIRITMIA. E vai da “MÚSICA ESPACIAL” à “NEW AGE”; e comporta percussão inspirada por diversos lugares do mundo.
No KRAUTROCK viajam do TANGERINE DREAM ao CAN, passando pelo KRAFTWERK e incontáveis e apreciados militantes.
E acreditem, não é um modismo e nem movimento xenófobo.
Ao contrário, é um enorme criadouro cultural. Um compósito versátil de “ROCK”, “WORLD MUSIC” e o “PROGRESSIVO” tradicional. Abrange e integra o “FOLK”, o “HEAVY”, o “HARD” e até o BEAT; e articula elementos do JAZZ de VANGUARDA e da música de CONCERTO (CLÁSSICA? ERUDITA?) É uma macrocosmo vibrante!
Todos combinados, ou não; misturaram-se a essa estética poderosa e produtiva que se instalou na EUROPA, e mantem-se.
O tempo e a criatividade perfuraram as camadas que se abriram para o “ROCK INDUSTRIAL”, o “TECHNO” e o “GOTHIC ROCK.” E, vertiginosamente fertilizou o RAP, e as diversas variações da MÚSICA POP ELETRÔNICA atual!
Mas TIO SÉRGIO, o que têm o BOWIE, o PHILLIP GLASS e o BRIAN ENO com este “SMÖRGÁSBORD” maluco?
tô indo lá!
HARMONIA + ENO: TRACKS AND TRACES AMPLIADO, 1976, LANÇAMENTO EM VINIL
BRIAN ENO disse que o HARMONIA foi o “melhor grupo do mundo, entre 1973 e 1975”!!!! Mas durou apenas 3 discos e nenhum sucesso de público, e terminaram!
Porém, juntaram-se por umas semanas, em 1976, para fazer “TRACKS AND TRACES”, por iniciativa de ENO, que levou para a ALEMANHA um gravador de 4 pistas e o histórico sintetizador VCS3.
Eles gravaram tudo em fita cassete, e o produto final saiu de baixa qualidade técnica. E os “tapes” se extraviaram! E quase perdemos esse disco lindo, que mistura a crueza do ROCK ELETRÔNICO alemão à concepção melódica da AMBIENT MUSIC – que ENO já vinha desenvolvendo, e intensificou à partir dali.
Os “tapes” originais somente foram localizados mais de vinte anos depois! Porém, a MAGIA DA TECNOLOGIA atual possibilitou recompor tudo, e utilizar as faixas extras, que também foram feitas durante onze dias de gravação e convivência entre os quatro músicos.
O produto está aí. E, para os mais curiosos, existe um BOX com 7 CDS e tudo o que o HARMONIA gravou. Para mim, é overdose – mas pensando melhor… Para muitos, será um importante reconhecimento histórico e objeto de coleção!
E o BOWIE, como entrou nisso?
Perfeitamente; e vou acrescentar o IGGY POP na equação. BOWIE e ENO eram fãs e ouviam muito KRAUTROCK. Ambos gostavam do HARMONIA, do CLUSTER e do KRAFTWERK. E anteciparam a importância da nova música que estava sendo feita na ALEMANHA, desde o início dos 1970.
Antes da fase BERLIM, os indícios de outra mudança na carreira de BOWIE já despontavam. O LP “STATION TO STATION”, 1976, pode ser considerado o primeiro da fase eletrônica de BOWIE. A influência do KRAFTWERK é notória!
Em 1977, BOWIE produziu dois discos para IGGY POP; e excursionou com ele para promovê-los, tocando teclados em meio à penumbra dos palcos. “THE IDIOT” é, também, claramente marcado pelo KRAUTROCK, e “LUST FOR LIFE”, mais pesado, segue por ali.
Logo após gravar com o HARMONIA, adivinhem o que ENO fez? Encontrou-se com BOWIE e TONY VISCONTI, em BERLIM, e gravaram “LOW”, cuja metade da obra é instrumental; é KRAUTROCK eivado por AMBIENT MUSIC.
ENO participou intensamente dos três discos da TRILOGIA BERLIM, arranjando, compondo, etc. E consolidou sua marca e criação. As produções foram de TONY VISCONTI, parceiro de DAVID desde sempre.
A bem da exatidão histórica, HEROES, 1977, foi gravado na FRANÇA. E a guitarra “icônica” na faixa título é tocada por ROBERT FRIPP, do KING CRIMSON, outro fã das vanguardas musicais, e participante com ENO em discos criativos e ousados de música eletrônica.
LODGER, 1979, o último da trilogia, foi gravado em NOVA YORK. E o guitarrista é de ADRIAN BELEW, muito próximo de FRIPP ao longo da vida, e integrante em várias bandas que BOWIE montou. Uma perspectiva histórica mais correta consideraria a TRILOGIA BERLIM uma “TETRALOGIA”, se “STATION TO STATION”, entrar na dança. Eu voto nessa hipótese. E você?
E a isso tudo é bom parear as duas produções de BOWIE para IGGY POP. E tratar os discos instrumentais de ENO, por exemplo ANOTHER GREEN WORLD, como pioneiros daquela modernidade em ebulição.
Agora, dou o meu pitaco final: o HARMONIA “harmoniza” muito bem com isso tudo!
Tentem e lambuzem-se, pois vale a pena conhecer!
POSTAGEM ORIGINAL: 11\02\2023
