SEO BENEDITO, O MOTORISTA DO ÔNIBUS 570

As profissões têm abrangência além delas mesmas. Observem os motoristas de ônibus. Foram um dos fascínios da minha infância, lá pelo final dos anos 1950, junto com os carros de bombeiros e aviões….

Guiar um ônibus foi brincadeira que tomou conta de minha imaginação. Um dia, debaixo de protestos quase armados das TIAS DIVA e NORMA, que me criaram por uns 4 anos, “instalei” uma roda de carrinho de bebê que achei na rua, numa velha mesa “inútil”, na casa de minha avó.

Virou a direção do “busão”! O câmbio era um pedaço de cabo de vassoura enfiado na terra de um vaso velho – mais encrenca…

Eu dirigi adoidado, depois da voltar da escola e fazer a lição de casa…

Até meados da década de 1960, os motoristas de ônibus tinham status e respeito na sociedade ( na paulistana, ao menos ). Era comum as mães embarcarem os filhos, e pedirem a eles que os deixassem num determinado ponto do caminho.

E eles faziam; era parte da responsabilidade comunitária e da vida social cotidiana daqueles tempos.

A primeira vez que “viajei” sozinho de ônibus foi em 1959 – eu acho! Eu tinha uns 6/7 anos, Meu pai conversou com o motorista e me colocou dentro do ônibus.

Quando entrei, estava tocando no rádio música da CELI e do TONY CAMPELLO, sucessos de nosso POP ROCK. Jamais esqueci; e um dia, na mesa de um bar, na Avenida Paulista, contei minha aventura para o TONY, de quem me tornara amigo.

O ônibus partia do LARGO DE MOEMA, em frente à Igreja; subia a Avenida Indianópolis e entrava na “Moreira Guimarães”, hoje margeando a “Avenida Rubem Berta”; seguia em direção a SANTO AMARO, passando pelo Aeroporto de Congonhas, parou onde hoje é o JUMBO, já perto de onde eu morava.

O percurso demorou uns 20 minutos…

O motorista parou, minha mãe já estava aguardando e me recebeu no ponto.

Era gente confiável; e a vida era mais segura, lá em “PATÓPOLIS”, vulgo cidade de SÃO PAULO.

Motoristas de ônibus e taxis; e motorneiros de metrôs e trens; são personagens do imaginário social.

Expressam o mito da liberdade, movimento e da libertação pessoal, que todos anseiam viver.

Claro; não é exatamente isto! E, talvez seja o contrário.

A “guia” até pode ser longa e a “coleira” menos apertada; mas existe o trajeto pré-definido, a desgastante rotina por dias, meses, anos, décadas…

Mas, se o cara dirigir um trem é pior: caminha sobre trilhos imutáveis. Se for metrô, piora mais ainda: o condutor caminha dentro de túneis, embaixo da terra, lugar feio, insalubre, claustrofóbico.

Os três enfrentam o tédio repressivo e sem alternativa…

Com o taxi é diferente. Um taxi-driver, antes dos aplicativos, tinha vida imprevisível; a maioria andava a esmo. Pegava gente que nunca viu, e não sabia para onde levaria. Dirigia de um lado para o outro da cidade meio sem destino… Podia começar na MOOCA, ir para SANTANA, de lá para SANTO AMARO… a não-rotina de doidos, em hospício aberto…

O motorista de táxi tem quase aventura existencialista diariamente; é viver o aqui e agora, e sem um porquê; iniciar um papo sem conclusão; ouvir comentários sem participar, ou saber os motivos…

Muitos gostam; afinal, podem pintar aventuras legais, etc, dizem alguns…

Mas e o SEO BENEDITO?

Pois, é; era o motorista da linha 570. Na década de 1960, o busão barulhento saía do Vale do Anhangabaú e chegava na Praça da Árvore, na zona sul de São Paulo, cruzando parte do centro, a Vila Mariana, Vila Clementino, dezenas de ruas, e finito. Depois, voltava…

Ele esteve lá por anos a fio, décadas, talvez. E por muito tempo carregou a mim e a incontáveis famílias, quando morávamos na rua LOEFGREN, em Vila Clementino.

SEO BENDITO era um senhor amável, conversava e brincava com a garotada – o que já era proibido; esperava os velhos, mulheres e crianças subirem e se ajeitarem dentro do veículo; era conhecido dos pais por todo o trajeto, e garantia da entrega segura dos passageiros em seus destinos.

Ele e o cobrador ( trocador? ) eram profissionais respeitados e que se autorrespeitavam; elos indispensáveis da interação social urbana. Exemplos da civilidade que perdemos, e da harmonia que achávamos que manteríamos, mas esvaiu-se na cachoeira dos tempos e da violência.
POSTAGEM ORIGINAL 23/04/2021


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