COLEÇÕES POSSÍVEIS: “BRASILIANA” E “AMERICANA”

TIO SÉRGIO, este compósito de alcoviteiro da música e conselheiro matrimonial entre vocês e os discos vem, não muito respeitosamente, propor a instauração de outra dissidência (“mais uma, seu velho irresponsável”?) na discoteca dos fãs da MPB.
Já tentei vender essa ideia algumas vezes, com alguma timidez e reticência, mas agora vou dar nome aos bodes.
Vou contar desde o início. Na América, há muito tempo a turma separa bodes pretos de bodes brancos, uma decorrência da segregação de raças. E isto gerou culturas à parte que se miscigenaram.
Mas para efeito do colecionismo, por lá sobram evidências que sustentam esta separação.
Para os “pérolas negras”, há décadas existe um Hit Parade baseado em estilos e origens. Bodes pretos formam a maioria do RHYTHM ´N’ ´BLUES, da SOUL MUSIC, do FUNK, do JAZZ original, e de muitas tipificações que “saltam aos ouvidos”, mesmo quando feitas por não negros.
Para os bodes brancos o pessoal com cara de bolacha, pescoço vermelho e bandeira americana na porta de casa, há o “COUNTRY-WESTERN” como matriz inspiradora. Claro, existe imensa segmentação; mas dá pra identificar, em sua maioria, como música feita por brancos.
Nem vou comentar, especificamente, um dos filhos desse blend magnífico: o ROCK. Porque há tantos e cada vez mais depois que a segregação básica começou a desaparecer…
Então, o que significaria “AMERICANA” neste contexto?
A turma de lá propôs colecionar também observando a integridade original da música branca, mesmo que ela se desenvolvesse em vários tópicos. É parte da AMERICANA gente como ELVIS PRESLEY, JOHNNY CASH, WILLIE NELSON, EVERLY BROTHERS, EAGLES, BRUCE SPRINGSTEEN e ATÉ o GREEN DAY. Entre milhares ou talvez milhões.
E o que os distinguiria, por exemplo do PEARL JAM, do KANSAS, da MADONNA e tantos vários outros?
Seria a putativa autenticidade original: não terem sido contaminados por nada que viesse de fora dos E.U.A. Coisa difícil, talvez impossível, mas a turma tenta desenvolver isso lá.
Mas vale a pena fazer?
Sei, lá. É questão de perspectiva.
Por causa disso, o disco de ELVIS PRESLEY que consolidou o “ROCK AND ROLL, a gravação original da CHESS RECORDS lançada em 1956, ainda que já a caminho da fusão com R&B; e também BILLIE JOE, guitarrista e vocalista do GREEN DAY em dupla com NORAH JONES gravaram o álbum FOREVERLY, em 2013, e recriando magnificamente um álbum inteiro e original dos EVERLY BROTHERS; são dois exemplos de AMERICANA na veia…
Aqui, no BRASIL, a criação de uma “BRASILIANA” tomaria outras características. A miscigenação entre brancos e negros na música e na sociedade é mais cristalina. A turma da música de raiz brasileira se entende sem diferenças tão caracterizadas. Mas para fazer algo semelhante a exigência é ser original da terra.
Numa discoteca tipicamente BRASILIANA entrariam artistas como CHICO BUARQUE, PAULINHO DA VIOLA, ZECA PAGODINHO, ADONIRAM BARBOSA, CARTOLA, JOÃO BOSCO, e a turma das ESCOLAS DE SAMBA, DO CARNAVAL, FORRÓ e MÚSICA CAIPIRA DE VERDADE.
Estarão incluídos a riqueza absurda de ritmos e músicas regionais. Além de uma infinidade a ser pesquisada, inclusive entre os artistas mais novos, claro.
Mas não entrariam artistas de características mais pop, como CAETANO VELOSO, GILBERTO GIL, PIXINGUINHA, EGBERTO GISMONTI, MARCOS VALLE, MARISA MONTE… E nem o RAP, SERTANEJOS e NEO-AXÉS, ou o POP\ROCK PÁTRIO que todos conhecemos. E ficaria de fora boa parte da BOSSA NOVA. Seriam Quem sabe seja complexo demais – instigante, no entanto: o que fazer com TOM JOBIM? e VILLA LOBOS?
Resumindo: tem espaço pra muita, muita gente “ocupar a exclusão”. Então, a minha sugestão para os colecionadores de MPB é montar uma esfuziante dissidência radical – de raiz!
Eu sei que vai bagunçar o teu orgasmo sonoro, mas vale tentar pensar esta orgia. Porque será um jeito peculiar de ouvir e perceber a música brasileira.
POSTAGEM ORIGINAL: 21/09/2020
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