JOCY DE OLIVEIRA, A ICONOCLASTA: “A MÚSICA SÉCULO XX DE JOCY”

O disco A MÚSICA SÉCULO XX DE JOCY, foi lançado em 1959.
O LONG PLAY original e os outros relançamentos tocam em 45RPM. É um tanto fora do convencional. São 13 músicas, com total de 20 minutos! A duração é mais curta do que os discos de “JOÃO GILBERTO” e do “DAVE CLARK FIVE” considerados “concisos”… hum!
O disco não foi ignorado. Mas execrado pela crítica e o público, porque concebido intencionalmente para ser “mal compreendido”.
JOCY tinha 22 anos, naquela época!!! E a cabeça muito além de um “barquinho e um violão”… No decorrer das décadas, tornou-se caso à parte na música popular brasileira. Eu afirmo que o álbum é a “anti – BOSSA NOVA”!
Por isso, coloquei foto de CD com os três primeiros discos de JOÃO GILBERTO. Falsos parâmetros para algo tão inovador e contestador.
Mas como assim, TIO SERGIO??!!!
Vou tentar descrever:
Começo citando algumas faixas do disco: SOFIA SUICIDOU-SE; UM ASSALTO NO MORUMBI; INCÊNDIO; BRASÍLIA SÉCULO I; A MORTE DO VIOLÃO; UM CRIME; SAMBA GREGORIANO, entre outras iconoclastias.
E, agora, algumas do JOÃO: CHEGA DE SAUDADE; DESAFINADO; LOBO BOBO; NOSSO AMOR; A FELICIDADE; AMOR CERTINHO; O BARQUINHO… e uma fieira de clássicos…
Sacaram a VIBE em termos de lírica?
JOÃO, TOM, VINÍCIUS e os bossa – novistas nos brindavam com o otimismo da era JUSCELINO. Cantaram o amor, o sorriso e a flor.
E João trabalhou em seu violão sofisticando o samba. Sua voz foi cuidadosamente posta, e o canto com as divisões musicais alteradas e muito estudadas. Obras de arte.
Uma evolução sofisticada, mas conservadora e de bom gosto evidente. A turma da Bossa Nova conseguiu “jazzificar” o samba, tornando – o rico em estrutura harmônica, o que enriqueceu e favoreceu para improvisar, estender, enriquecer cada tema.
Pois, saibam: o contraste com o disco de JOCY é chocante! Procurem escutar no YOUTUBE. É rápido, instigante, diferente, dolorido; e talvez desagradável ao primeiro contato.
Um retrato certeiro de um Brasil despontando, e visto por outro tipo de classe média intelectualizada!
JOCY de OLIVEIRA é paranaense, bem formada, e também da classe média alta. Ouvir “A MÚSICA SÉCULO XX”, é descobrir que ela se utiliza – talvez o verbo correto seja emular – de modernidades e ensinamentos dos bossa novistas para subvertê-los e contradizê-los.
Em vários momentos a gente “acha” que é Bossa Nova. Mas não é!
O grupo faz introduções nitidamente inspiradas em STRAVINSKY e outros clássicos (vá lá, eruditos) modernos. E JOCY os amalgama com rupturas de andamentos; mudanças abruptas de ritmo na narrativa musical; quebras de métrica – mas que se adaptam livremente ao discurso cantado por ela.
A música de JOCY é uma crítica aberta à sofisticação conservadora de seus companheiros de geração da Bossa Nova. É feita de propósito para contrapor-se ao bom-gosto absorvível de imediato. É constante ela cantar quase à beira da desafinação, fazendo harmonizações na ladeira do atonal…
Seria???
As letras de JOCY são inspiradas em cenas de violência e desespero. Expõem o vazio e a depressão de seus personagens através de sua poesia peculiar e de observações agudas.
É ironia e iconoclastia combinadas o disco inteiro. Ela escreve bem e criativamente.
JOCY arquitetou essa desconstrução. E a música que faz está sintonizada ao caos que observa. Afinal, a mestra entende e especializou-se em operar os sons incidentais e sem explicações, que habitam ou recaem sobre as pessoas e as cidades, que por ela são tecidos em colagens eletrônicas – os ancestrais dos SAMPLERS de hoje.
JOCY de OLIVEIRA sempre operou na criação do inusitado que a música de vanguarda e os computadores de hoje permitem cada vez mais.
Claro, tudo isso requer organização. E ela existe. As músicas sempre acabam abruptamente! O que dá a impressão de síntese reticente e inconclusa. Um nada mais a dizer repentino. E pronto! Para não dizer F@-se!
Impressiona!
Eu imagino o susto e a perplexidade do ouvinte comum, uns sessenta e tantos anos atrás, dando de ouvidos com essa cacofonia mascarada por uma tentativa de JOCY, de violão “em punho, ser doce, contemporânea e alegrinha!
Em uma das audições que fiz, sei lá o porquê este LP juntou-se a outro gravado por JOCY: “HISTÓRIA PARA VOZ, INSTRUMENTOS ACÚSTICOS E ELETRÔNICOS”, lançado em 1981. Também disco magnífico, e certamente dificílimo de achar.
Pois, então: de alguma forma casaram-se, e não me perguntem o motivo!
E acabou.
POSTAGEM ORIGINAL: 10/10/2022
Pode ser uma imagem de toca-discos e texto

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