Duas meninas inglesas, talentos explosivos e incontornáveis, cruzaram vidas e vozes nas rádios, shows e gravadoras. E, talvez, nunca tenham se encontrado pessoalmente!
Elas foram a bola da vez quase ao mesmo tempo, entre 2003 e 2011. E, de certa forma, pagaram preço alto em momento histórico de transformações de mercados e tecnologias. A indústria da música estava e continua em crise.
Então, o que fazer quando surgem pedras valiosas, semilapidadas e ocupando praticamente o mesmo espaço artístico? JOSS e AMY são excelentes cantoras e basicamente de música negra, e suas imensas variações.
A gravadora ISLAND, filiada à UNIVERSAL MUSIC, contratou AMY WINEHOUSE. E uma pequena gravadora, a S CURVE, levou JOSS STONE – que depois foi para EMI.
AMY WINEHOUSE, garota pobre, família disfuncional e consumidora de drogas; voz contralto nítida e atitudes antissociais, cantava REGGAE/SKA, HIP-HOP… em bares da Inglaterra.
Gravou pela primeira vez em 2003. “FRANK”, o álbum de estreia seguindo o novo R&B , HIP-HOP, foi elogiado e fez algum barulho. Mas AMY somente arrasou em 2006, com “BACK TO BLACK”. Disco de letras agressivas mas calcado na sonoridade tradicional do R&B. Foi o álbum mais vendido de 2007, com seis milhões de cópias!!!
JOSS STONE, adolescente de classe média descoberta em Londres foi enviada para NOVA YORK, onde imediatamente se transformou em sensação internacional. Era o ano de 2003 – e tinha aos 16 anos de idade!
JOSS saiu “cantando…pneus”. Os dois primeiros discos, SOUL SESSIONS em 2003; e MIND, BODY AND SOUL lançado em 2004, e também de R&B / SOUL tradicionais, venderam mais de 5 milhões de cópias!
Observe as estratégias: são inversas. AMY WINEHOUSE começa, no mesmo ano que JOSS, 2003, gravando o R&B modernizado da época. E vai para o “tradicional” em seu disco seguinte, onde está claramente influenciada pelo cantar de DINAH WASHINGTON e BILLIE HOLIDAY.
AMY infelizmente teve pouco tempo. Mas deixou quase pronto o que poderia oferecer dali em frente. Em 2011, LIONESS, HIDDEN TREASURES, seu disco póstumo, ela ensaia repertório mais abrangente.
Vai de clássicos POP da década de 1960, como OUR DAY WILL COME, canção com dezenas de versões, a de JULIE LONDON, por exemplo. Ou WILL YOU LOVE ME TOMORROW, hit das SHIRELLES, também de outras com outras versões, ao longo das décadas.
AMY fez dueto com TONY BENNETT, teste definitivo do POP ADULTO, e adequado para o seu background e características vocais.
Quatro anos mais jovem, JOSS STONE é “cria espiritual” de ARETHA FRANKLIN e JANIS JOPLIN, e com respingos de DONNA SUMMER, e DUSTY SPRINGFIELD – a referência inevitável para qualquer cantora inglesa dos últimos 50 anos. Ela começou tutorada por BETTY WRIGHT, veterana de R&B, com sucessos marcantes na década de 1970.
Professora exigente, BETTY ensinou JOSS a voz e os maneirismos dos clássicos da SOUL MUSIC e do R&B, em canções intensas e difíceis de cantar e interpretar. BETTY ainda participou nos vocais em gravações e shows.
Eu só me lembro de ter assistido uma vez a estreia de gente tão jovem e com tanta energia: foi MARIA BETHANIA cantando CARCARÁ, quando tinha uns19/20 anos. A voz, já marcante, abalou as estruturas do teatro!!!! Eu estava lá e tinha 14 anos… Inesquecível!!!
JOSS STONE fez o DVD da foto, em 2004. Juntou o repertório dos discos iniciais e, acompanhada por banda impecável, gravou show simplesmente fantástico!
Aos 16 anos, a voz diferenciada já estava mudando. JOSS cantou belamente, demonstrou carisma, descontração e domínio de palco. Para uma adolescente já linda, mas corpo ainda em formação, ficou justificada sua fama de grande promessa.
Depois, foi preciso testa-la no mercado jovem. Porque não faria o menor sentido uma quase menina dedicar-se a repertórios tão adultos, que exigem maturidade e sensualidade. Os pais cuidavam dela. A mãe ia junto nas viagens, etc… e certamente não permitiriam exageros.
Assim, a sequência de discos já sem o sucesso dos iniciais, é composta por SKAS, o novo R&B; HIP-HOP voltados para a moçada, em geral. A exigência da voz também é menor, mais compatível ao repertório.
São discos bons – mas não memoráveis:
“INTRODUCING”, 2007, mescla NEO SOUL, HIP-HOP, e boa participação de LAUREN HILL, o sucesso mais notório da época. “COLOUR ME FREE”, 2009, é menos intenso e vai na mesma linha. JOSS fez com DAVID STEWART, ex – EURYTHMICS, um bom álbum, em 2011. É POP mais pesado, com guitarras e arranhando o ROCK. E a voz de JOSS já está bem madura. O volume dois de “SOUL SESSIONS”, saiu em 2012 – ensaio para a volta ao R&B mais original.
Finalmente, em 2015, lançou “WATER FOR SOUL”, a sequência POP, SKA, REGGAE e R&B. Foi o derradeiro álbum de inéditas. E talvez haja relação com a briga e processos contra a gravadora EMI, para o rompimento de contrato.
Em vinte anos, JOSS STONE gravou relativamente poucos discos. Mas cantou com muita gente, JAMES BROWN, SLY STONE: MICK JAGGER, STING, PAT LABELLE, AL GREEN, etc… Ela vendeu mais de 40 milhões de discos, nos diversos formatos.
E não deixou de excursionar e a bem sucedida turnê de 20 anos de carreira passou pelo BRASIL e girou o mundo, Prestem atenção na banda fantástica; principalmente no guitarrista STEPHEN DOWN – um exuberante!!!
Eu assisti a vários SHOWS COMPLETOS e de épocas diferentes, que ela fez. JOSS, quando publiquei esta resenha, estava com 35 anos, e cantando melhor do nunca! Madura, linda, carismática e dona do palco. Estava claramente transitando para repertório mais adulto de R&B, SOUL, e adjacências; rearranjando o acervo base e os antigos sucessos para o seu público que, é lógico, também amadureceu.
A grande vantagem de JOSS STONE foi nunca ter sido uma SANDY, por exemplo. Ela não começou carreira cantando músicas que jamais se adequariam à maturidade. JOSS não entrou em crise com a própria História, como provam shows atuais.
Oito anos de distância do último disco certamente ajudaram JOSS a retornar em outro nível. E com suas marcas registradas: cantar descalça e distribuir girassóis ao público.
Ela é SUPER DUPER!
POSTAGEM ORIGINAL: 16\09\2023

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