As profissões têm abrangência além delas mesmas. Observem os motoristas de ônibus. Foram um dos fascínios da minha infância, lá pelo final dos anos 1950, junto com os carros de bombeiros e aviões….
Guiar um ônibus foi brincadeira que tomou conta de minha imaginação. Um dia, debaixo de protestos quase armados das TIAS DIVA e NORMA, que me criaram por uns 4 anos, “instalei” uma roda de carrinho de bebê que achei na rua, numa velha mesa “inútil”, na casa de minha avó.
Virou a direção do “busão”! O câmbio era um pedaço de cabo de vassoura enfiado na terra de um vaso velho – mais encrenca…
Eu dirigi adoidado, depois da voltar da escola e fazer a lição de casa…
Até meados da década de 1960, os motoristas de ônibus tinham status e respeito na sociedade ( na paulistana, ao menos ). Era comum as mães embarcarem os filhos, e pedirem a eles que os deixassem num determinado ponto do caminho.
E eles faziam; era parte da responsabilidade comunitária e da vida social cotidiana daqueles tempos.
A primeira vez que “viajei” sozinho de ônibus foi em 1959 – eu acho! Eu tinha uns 6/7 anos, Meu pai conversou com o motorista e me colocou dentro do ônibus.
Quando entrei, estava tocando no rádio música da CELI e do TONY CAMPELLO, sucessos de nosso POP ROCK. Jamais esqueci; e um dia, na mesa de um bar, na Avenida Paulista, contei minha aventura para o TONY, de quem me tornara amigo.
O ônibus partia do LARGO DE MOEMA, em frente à Igreja; subia a Avenida Indianópolis e entrava na “Moreira Guimarães”, hoje margeando a “Avenida Rubem Berta”; seguia em direção a SANTO AMARO, passando pelo Aeroporto de Congonhas, parou onde hoje é o JUMBO, já perto de onde eu morava.
O percurso demorou uns 20 minutos…
O motorista parou, minha mãe já estava aguardando e me recebeu no ponto.
Era gente confiável; e a vida era mais segura, lá em “PATÓPOLIS”, vulgo cidade de SÃO PAULO.
Motoristas de ônibus e taxis; e motorneiros de metrôs e trens; são personagens do imaginário social.
Expressam o mito da liberdade, movimento e da libertação pessoal, que todos anseiam viver.
Claro; não é exatamente isto! E, talvez seja o contrário.
A “guia” até pode ser longa e a “coleira” menos apertada; mas existe o trajeto pré-definido, a desgastante rotina por dias, meses, anos, décadas…
Mas, se o cara dirigir um trem é pior: caminha sobre trilhos imutáveis. Se for metrô, piora mais ainda: o condutor caminha dentro de túneis, embaixo da terra, lugar feio, insalubre, claustrofóbico.
Os três enfrentam o tédio repressivo e sem alternativa…
Com o taxi é diferente. Um taxi-driver, antes dos aplicativos, tinha vida imprevisível; a maioria andava a esmo. Pegava gente que nunca viu, e não sabia para onde levaria. Dirigia de um lado para o outro da cidade meio sem destino… Podia começar na MOOCA, ir para SANTANA, de lá para SANTO AMARO… a não-rotina de doidos, em hospício aberto…
O motorista de táxi tem quase aventura existencialista diariamente; é viver o aqui e agora, e sem um porquê; iniciar um papo sem conclusão; ouvir comentários sem participar, ou saber os motivos…
Muitos gostam; afinal, podem pintar aventuras legais, etc, dizem alguns…
Mas e o SEO BENEDITO?
Pois, é; era o motorista da linha 570. Na década de 1960, o busão barulhento saía do Vale do Anhangabaú e chegava na Praça da Árvore, na zona sul de São Paulo, cruzando parte do centro, a Vila Mariana, Vila Clementino, dezenas de ruas, e finito. Depois, voltava…
Ele esteve lá por anos a fio, décadas, talvez. E por muito tempo carregou a mim e a incontáveis famílias, quando morávamos na rua LOEFGREN, em Vila Clementino.
SEO BENDITO era um senhor amável, conversava e brincava com a garotada – o que já era proibido; esperava os velhos, mulheres e crianças subirem e se ajeitarem dentro do veículo; era conhecido dos pais por todo o trajeto, e garantia da entrega segura dos passageiros em seus destinos.
Ele e o cobrador ( trocador? ) eram profissionais respeitados e que se autorrespeitavam; elos indispensáveis da interação social urbana. Exemplos da civilidade que perdemos, e da harmonia que achávamos que manteríamos, mas esvaiu-se na cachoeira dos tempos e da violência.
POSTAGEM ORIGINAL 23/04/2021
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