UM DEUS EM MINHA JANELA

Indiferente como sempre, Atlântico saiu de si mesmo e veio nos perscrutar. Quase sempre faz isto no inverno. A praia para ele pouco importa. E gente tanto faz. Construções, avenidas, postes? Ele não sabe. Ultrapassa, contorna, deforma e retorna.
Até quando? Não sabemos e ele também não sabe.
Não sabe, mas continua belo. Ele não sabe que nós sabemos. Valores? Ele não os tem – e nem precisa deles. Quando a gente o machuca, ele não está nem aí: apenas se vinga. E quando e se quiser. E do jeito dele.
Nós passamos, ele permanece. Século após século, era após era, presta contas somente ao Cosmos, ao “Sistema”. Ele não sabe que é vivo. Mas, nós sabemos. Ele não é amistoso e não está nem aí com isso…
Início da madrugada, eu insone tentei decifrar o Atlântico.
Taciturno? Achei que sim. Mas, ele não sabia. Noite azul de lua cheia velada por nuvens? Ele não dá a mínima.
E os Namorados? sempre eles e ainda bem! Mas para o ATLÂNTICO tanto faz… Diamonds in the Sky? Rhyanna? Beatles e Lucy in the Sky with Diamonds? Ele nem reparou. Simplesmente não sabe; não liga!
E prosseguiu lentamente, em metástase sobre a pele da areia. Hipnótico, perturbador, sedutor irrefreável como Kate Blanchet, em”Carol”. E eu surpreso, tímido e perplexo, como a Thérèze, de Rooney Mara – que foi seduzida por “Carol” naquele filme cult e famoso…
Mas, para ele tanto faz. Ele nunca sabe…
POSTAGEM ORIGINAL: 16\09\2021
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