O tempo anda mais ou menos do jeito sombrio que, vez por outra, acontece dentro de mim: nublado; hoje mais fresco; um quase frio mas esquentando. O litoral norte paulista é assim no inverno.
A seca está pedindo chuva e, talvez, emulando as paragens nórdicas ou irlandesas, mesmo sendo o Guarujá de frente para o mar tropical.
Eu gosto disso. Prefiro tanto quanto os dias luminosos e bonitos.
O inverno é um “habitat” em que me dou bem. E convidativo à introspecção; adequado à reflexão contida cautelosa e discreta.
No calor, eu tomo cervejas. No frio, também – mas alterno com vinhos. Sou amigo dos fermentados. Evito destilados – alcoólicos demais para o meu gosto.
Parece que a indústria da música está encontrando jeito de sobreviver e ganhar algum dinheiro na era digital.
Há tempos a bola da vez se tornou o “STREAMIN”, serviços que tocam e oferecem músicas a preços certamente possíveis e competitivos. O som é o melhor possível!
Aliás, sem o artefato limitador, o COMPACT DISC, a música digital se expande, ganha contornos e qualidade jamais alcançados!
Goste-se ou não, a qualidade do som digital superou há muito o som do DISCO DE VINIL. Agora redivivo, tornou-se objeto caro e ainda que para poucos. No entanto, ao contrário de minhas previsões e até vaticínios, leva jeito de permanecer.
Os taxistas ficaram em polvorosa por causa do Huber. Mas pouca gente se importou com a derrocada em que entrou a indústria da música dos anos 1990 em diante. A culpa foi da pirataria – ultra simples de realizar. E dos preços altos, e do quase enterrado MP3.
Uma parte importantíssima da indústria cultural foi à bancarrota; e teve de se reinventar na marra.
Porém, a maioria do mundo gostou das novas tecnologias – os CDS, DVDS, LDS, e agora, do STREAMIN. E principalmente de saborear o delicioso trabalho dos artistas sem pagar:
Bater bumbo, tocar guitarra, reger, compor, cantar produzir, investir, etc… não comove muita gente. Seria “não trabalho”; e por isso teria de ser de graça…” um direito adquirido”…
Somos muito hipócritas e ignorantes, isto sim!
Enquanto penso nisso, escutei quatro cantoras bastante diversas artística e existencialmente.
Vocês devem, e precisam conhecer o espetacular grupo vocal americano, THE MANHATTAN TRANSFER, de bastante sucesso dos anos 1980 e 1990.
Eles sempre cuidaram em alto nível da formação do repertório. Gravaram o fino da GRANDE CANÇÃO AMERICANA. E, também, artistas brasileiros de ponta como DJAVAN, IVAN LINS, MILTON NASCIMENTO, TOM JOBIM, entre vários. O MANHATTAN TRANSFER fazia um delicioso, competente, e dançante JAZZ-POP. Procurem ouvi-lo.
Na formação do quarteto, a excepcional JANIS SIEGEL, uma das vocalistas, desenvolveu carreira solo independente – como todos eles, aliás -, e faz discos bonitos e sofisticados.
Mais uma vez, escutei o disco em que ela é acompanhada somente pelo pianista FRED HERSH: “SHORTY STORIES”, lançado em 1989 pela ATLANTIC RECORDS. O repertório de compositores atuais é fabuloso, sensível e irrepreensível.
Está no clima dessa época do ano, e ajuda a espantar o horror que estamos enfrentando nesses dias politicamente cálidos e destrutivos.
Ouvi, também, um pouco de CARLY SIMON, e hoje gosto mais do que antes. Ela sempre me pareceu pouco profunda em sua perene crise existencial de menina rica. No entanto, encontrou sentido e nicho próprio no tempo e no espaço. Ouvi-la é delicioso; e compreendê-la talvez seja imprescindível: CARLY canta o cotidiano da mulher urbana, liberada e autônoma.
De passagem, observo a foto da capa de “NO SECRETS”, que discretamente nos fazia imaginar, o que JAMES TAYLOR desfrutara, quando foram namorados, na década de 1970…
Hum… nada mais humano, concordam?
Existia aqui em PANDEBRAS, um pequeno BOX com os 5 primeiros CDs de CARLY. Foi barato quando lançado e permanece muito agradável e adequado para os mais adultos.
Então, emendei para JONI MITCHELL, minha cantora e artista múltipla predileta. Busquei o queixoso, lúgubre e solitário clássico pleno de “D.R”s – discutir a relação, todos sabem: “BLUE” foi lançado em 1971 e é obra de arte explícita. Obrigatória para quem aprecia boa música mais introspectiva, e que dê conta das trovoadas e maremotos que incidem sobre almas sensíveis.
E adentrei o portal cósmico para o suicídio virtual.
Tomei nave direto para os dois gélidos CDS cometidos por NICO, entre 1968 e 1970, no BOX THE FROZEN BORDERLINE: “The MARBLE INDEX” e ” DESERT SHORE”.
Pois, é!
O que vocês acham da seguinte frase: “Esse disco é um artefato, e não uma mercadoria. Você não pode vender suicídio!… É JOHN CALE, parceiro de LOU REED, no VELVET UNDERGROUND, comentando a respeito do LP “THE MARBLE INDEX”…
Na mosca! – Ou na lápide?
NICO é um caso à parte na história do ROCK! Voz cavernosa e comportamento digno de admiração e concordância por sua companheira de geração, a inglesa MARIANNE FAITHFULL.
Ou seja, são duas artistas claramente autodestrutivas. MARIANNE, quando jovem, namorava e se drogava com KEITH RICHARDS.
E, se você já ouviu falar de SYD VICIOUS e NANCY LAURA SPUNGEN, agora acabei de apresentar o modelo acabado seguido pelos dois….
Alemã, bonita e modelo na FACTORY, de ANDY WARHOL; a notória notável NICO participou do CULT e seminal primeiro disco do VELVET UNDERGROUND, “cometido” em 1966. É aquele da banana…
Bem, se você pensa que a segunda metade anos 1960 foi um período só de alegria inconsequente, cheio de perspectivas otimistas; coalhado de HIPPIES; e pelo SUNSHINE POP de grupos como MAMAS & THE PAPAS, 5TH DIMENSION, THE ASSOCIATION… é porque não assistiu “ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD”, de QUENTIN TARANTINO…
O VELVET UNDERGROUD e a NICO não entraram na trilha do TARANTINO, porque formaram a outra vertente que influenciou o futuro.
A turma o VELVET de várias formas influenciou ALICE COOPER, IGGY POP, STOOGES e DAVID BOWIE. E também o espírito lúgubre que assombrou as bandas do “DARK WAVE” inglês, do início da segunda metade da década de 1970 em diante: o GOTHIC ROCK de SIOUXIE and the BANSHEES, THE CURE, FIELDS OF THE NEPHLIN, JOY DIVISION… e ilustre caterva beyond.
Se refinarmos um pouco mais, vincou niilistas como LEONARD COHEN, a TOM WAITS, a NICK CAVE…
Alguns discos dessa prole sucessora lembram as trilhas sonoras de FILMES DE TERROR. E coisas de BORIS KARLOFF. NOSFERATU?
Ouvir NICO, MARIANNE e o VELVET UNDERGROUD é um jeito CULT de pavimentar caminhos para o cemitério ou a depressão.
Mas há consolo sublime ( ou sublimado? ): eles também enriquecem esteticamente o presente desesperador que observamos e vivemos… É arte cabível até que dias e tempos melhores advenham.
Chegarão.
( Será? )
POSTAGEM ORIGINAL: 12\09\2021

