“A vida é o que acontece com você, enquanto você faz planos para ela”. Encontrei esta frase atribuída a John Lennon, em um cartão de aniversário, enquanto procurava documentos para providenciar o enterro de tia Diva. Ela morreu, dia 29 passado, muito rapidamente aos 88 anos. Não sofreu.
Toda vida é completa por si mesma. Não é o que cada um pensa a respeito de sua própria. Mas ela é. Quando se acaba e a energia que nos mantém solares cessa, a feição de luas pálidas sobrevém e se mantém, até nos autoconsumirmos e voltarmos ao nada – pelo menos o corpo que a suporta. Sobre o espírito especulamos e desejamos que seja eterno. Não pedimos para nascer e a maioria de nós vai embora compulsoriamente. Somos assim: segmentos de reta, finitos num universo impensável; Inesquecíveis num círculo pequeno de amigos e parente – enquanto não nos esquecem… definitivamente.
Tia Diva era pessoa de fé. Católica por formação e quase espírita por aprendizado. Como boa brasileira não resistiu aos apelos por algo a mais que lhe tornasse inteligível o viver. Tinha um quê de budista no comedimento, na recusa às grandes emoções, às paixões súbitas e a quaisquer arroubos ou cenas.
Viveu bem; mas a meio pau. Não exacerbou, não sofreu intensamente por nada ( que se saiba ) mesmo tendo sido constantemente solidária com os que convivia e gostava. Era amada por todos e certamente nos amou, também.
Foi professora, era solteira, independente, e algo severa e rígida. Jamais soubemos de algum alguém que a tivesse tirado do sério. Duílio, um dos irmãos, que também já cumpriu a tabela, certa vez brincou perguntando se ela pretendia morrer “invicta”. Ninguém sabe, ninguém viu; em família, pouco se especulou sobre isso – eu acho. Diva viveu como quis e às próprias custas. Foi feliz?
Na juventude e na maturidade foi mulher bonita e atraente. Era simpática, educada e fina. Aldahyr, amigo de todos nós que também já percorreu os dezoito buracos do “green”, quando adolescente nela reparava atributos que, para nós, sobrinhos, não seria, digamos, legal observar. Acho que ela jamais soube. Mas o que acharia disso na intimidade?
Eu e os primos mais próximos convivemos com ela a vida inteira. Quando criança, morei em sua casa e com os outros tios solteiros – Tonico, Norma, Juliano e a vó Maria, também. Foi um período interessante, de formação, que deixou em mim detalhes de caráter marcantes.
Recentemente, eu soube que de certa maneira “os meus direitos federativos” foram “emprestados” para que Diva e irmãos dessem um jeito em mim. Parece que dona Helena, a minha mãe, não me aguentava, porque eu dava trabalho além da conta.
Jamais me vi assim, no entanto… Vai saber…
Por essas e outras – muitas outras – sou grato à Diva pela convivência que ela a mim e a todos propiciou. Na semana derradeira, como sempre eu e Angela estivemos presentes quase todos os dias. Os outros primos, também. Um dia antes de entrar em coma conversamos bastante e ela me agradeceu por estar lá. Não precisava, todos fizemos por afeto e gratidão.
DIVA se foi tão discretamente quanto viveu. E nós permanecemos feridos e saudosos dos capítulos que escrevemos juntos. Deixou memórias.
POSTAGEM ORIGINAL: 13\09\2015
POSTAGEM ORIGINAL: 13\09\2015