MILES DAVIS – DARK MAGUS – 1974

Esse disco é a base do concerto que MILES DAVIS e banda fizeram quando passaram pelo Brasil pela segunda vez, em 1974.

Eu estava lá, no TEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO, e vi aquele gênio original, ousado e vanguardista, tocando seu TROMPETE acoplado a uma pedaleira de guitarra, wah-wah, eco e tudo o que a tecnologia da época permitia!

Devastador!

Para um rocker como eu e amigos que estavam lá comigo, foi um bacanal sonoro iconoclasta.

Na metade da apresentação houve intervalo; e os mais velhos se retiraram protestando. Não era o MILES que por aqui estivera em fins dos anos 1950!

Ao contrário, havia aderido ao JAZZ FUSION. E trouxe uma banda jovem, com 3 guitarristas, baixo, bateria, dois percussionistas, e mais dois nos sopros. Foi tamanco sem couro: pau puro!

Quanto chegamos ao MUNICIPAL passamos por um preto magrinho e COOL, usando enorme echarpe; e postado nas escadarias fora do teatro. Era MILES DAVIS observando as potenciais vítimas ou futuros e reverentes cultores.

O que fizeram MILES e músicos é vanguarda até hoje, passados perto de 50 anos! Música livre, entrosada, mas sem roteiro muito definido. Na prática, um ROCK DA PESADA e sem piedade ou concessões. O concerto abalou o conservador, histórico e recatado principal teatro da cidade!

O repertório saiu pela primeira vez em disco no Japão, nos anos 1990 do século passado, após a morte de MILES DAVIS, em 1991. Depois, uma avalanche de discos inéditos, shows e vasto escambau foi despejado mundo afora!

Eu calculo que mais de 120 discos/CDs foram lançados ou relançados. Uma universidade sonora para estudo e curtição dos fãs, e todo o mundo.

Na edição limitada acima, o saxofonista e flautista DAVID LIEBMAN, que estava na banda, escreve um livreto expondo como o trabalho e os arranjos foram organizados.

Ele cita a criatividade, conhecimento musical e intuição de MILES DAVIS para fazer tocar a enorme máquina sonora que forjou. MILES dava organicidade ao caos domando a liberdade dos jovens músicos da banda.

Mas, não é disco para todos. É duro, multirrítmico, percussivo, e mescla o FREE JAZZ ao FUNK, algo entre SUN RA, JAMES BROWN e SLY & THE FAMILY STONE, em cima de um sub-reptício e recorrente ROCK (JAZZ?) MINIMALISTA.

E, claro, há os sopros, madeiras e metais, também nada convencionais. A começar por DAVIS, e sua engenhoca barulhenta: um trompete soando a galáxias do BE-BOP e de qualquer racionalidade tradicional!

Como disse um integrante da banda, à época, “MILES IS MILES AND MILES AWAY!” Um vulcão arrasador!

Verifique – se aguentar ou duvidar!!!! É para joviais e inconformistas. E, principalmente, para os que não perderam o humor e a curiosidade.
Original publicado em 04/02/2019

INSÔNIA – 1 – DISCOGRAFIA PERTINENTE, ACHO…

MEGERA SILENCIOSA, TORTURADORA IMPÁVIDA, SINGRA CONFUSA NO MAREMOTO SURDO

DE MEU DESESPERO NESSE AFOGAR ETERNO,

PARA ACORDAR INCOMPLETO E VIVER AUSENTE,

NA CALMARIA ABÚLICA DE UM CORPO EXANGUE.


QUASE MORTE:

EXTENSA, PERENE, INCONCLUSA;

QUASE VIDA:

LENTA, DESATENTA, INERME;

O COTIDIANO INSONE EU PEREGRINO EXAUSTO

FEITO NAU SEM MÁQUINAS, UM TAXI PERDIDO,

NO MÓRBIDO ENTARDECER DE MAIS UM DIA ROUBADO;


MADRUGADAS, INCERTEZAS E OBSCUROS MEDOS

FRUSTRAÇÕES E REMORSOS DISTORCENDO IMAGENS,

AGENDA, PENSAMENTOS E AFAZERES TRÔPEGOS,

DESFILAM PROJETADOS NO INTERIOR DA MENTE,

NA TELA IMPERFEITA QUE A NOITE GUARDA.


ADAGA INVISÍVEL, FERRO IMPLACÁVEL

QUE VIOLA MEU CORPO E APAGA O ÂNIMO,

FLUXO IMPRECISO QUE DESCARRILHA O DIA,

CONSTRÓI NO VÁCUO QUE EM MIM HABITA

O ALAMBIQUE DE PESARES QUE DESTILO.


PARA TI, INSÔNIA,

MINHA ADEGA DE ÓDIOS EU ESCANCARO!

GEORGE RUSSELL – TEÓRICO DO JAZZ DE VANGUARDA

Pianista, arranjador e compositor americano, que se tornou teórico importante da vanguarda musical por ter criado, em 1953, um MÉTODO DE HARMONIA BASEADO EM JAZZ, em vez da música clássica europeia – como era o comum.

Sua teoria influenciou GIL EVANS, JOHN LEWIS e, principalmente, o JAZZ MODAL que MILES DAVIS desenvolveu em KIND OF BLUE.

Em meados dos 1960, o JAZZ se encontrava em um dilema: a forma tradicional vinha perdendo prestígio do público; e os músicos profissionais estavam ficando sem mercado de trabalho.

Foi quando o conceito de FUSION foi criado e incorporado à linguagem “jazzística”, admitindo uma certa aproximação com o POP.

Incontáveis músicos importantes, entre eles WES MONTGOMERY, JOHN COLTRANE e o próprio MILES enveredaram por esse caminho. Aliás, multifacetado e diferente de artista para artista. Há uma infinidade de discos obscuros, esquecidos nas discografias oficiais, que expõem a mudança.

Talvez fosse curioso montar uma coleção com esses discos. Mas é preciso investigar, buscar, estudar para se chegar a eles. Exigirá escavação meio às cegas. Mas, por que, não?

Os discos da foto são parte de um BOX que junta a produção para duas gravadoras: BLACK SAINT e SOUL NOTE. A música de GEORGE RUSSEL é um multimercado sonoro:

MISTURA MÚSICA ALEATÓRIA, MÚSICA ELETRÔNICA, EXPERIMENTAÇÃO COM VOZES, algo de ROCK PROGRESSIVO – por assim dizer…; E FREE JAZZ e JAZZ CONTEMPORÂNEO e MODERNO!

Muito louco, por supuesto!

Não são pastiches mal pensados. Há originalidade evidente. Seguindo a tendência dos músicos de JAZZ da época, RUSSELL migrou para a Europa. Foi para a ESCANDINÁVIA, em 1964, onde gravou e influenciou a turma que futuramente daria a base sonora da GRAVADORA E.C.M!

Há nos discos JAN GARBAREK, TERJE RYPDALL, JON CHRISTENSEN, entre vários, à época muito jovens, e aproveitados por causa do perfil vanguardista.

O BOX é muito diferenciado e, talvez, seja demais para muitos. Então se puderem escolher foquem em “ELECTRONIC SONATA FOR SOULS LOVED BY NATURE” e “TRIP TO PRILARGURI”, que expressam mais claramente o compositor e suas intenções.

É BOX para colecionadores de vanguardas, músicas incomuns e curiosidades competentes.

Encarem – se tiverem coragem….
PUBILIDAÇAO ORIGINAL 31/01/2019

RAY CHARLES – PURE GENIUS: ATLANTIC RECORDINGS 1952/1959

Há dúvidas sobre a importância musical e cultural do tio RAY? Claro que não!

RAY CHARLES ROBINSON foi um autêntico gênio. Cego, estudou em escola pública, como era o esperado, e assumiu o “BRAILE” com espontaneidade, entusiasmo mesmo! E aprendeu a ler, escrever, e interpretar textos.

Em oito anos de estudos leu e compreendeu MARK TWAIN, e outros clássicos. Estudou as sonatas de CHOPIN, e a BÍBLIA também. Ele gostava de dicionários, e os consultava.

RAY disse que aprendeu muita coisa na escola; e muita coisa fora dela, como gostar de DUKE ELLINGTON, ELLA FITZGERALD, e JO STTAFORD. Gostava de JAZZ, e de NAT KING COLE.

Sua carreira como artista foi cintilante.

Dizer o quê?

Atuou de 1949 a mais ou menos 2000. Foram 62 ÁLBUNS, 127 SINGLES e incontáveis coletâneas; há vídeos, também. E muitas participações de e com outros artistas. Era ativo e autoconfiante. Foi BANDLEADER competente.

Ele “é um estilista como cantor e pianista”, e tinha voz personalíssima, reconhecível em quaisquer latitudes da Terra.

RAY CHARLES gravou do R&B ao COUNTRY. Cruzou do ROCK ao JAZZ, voou pelo POP mais refinado; e fez sucesso em todas as fases!

Deixou seguidores mundo afora. De GARY BROOKER a STEVIE WINWOOD a GARY WRIGHT, eles todos tecladistas e cantores que emulam o Tio RAY. E muitos mais…Ah, quase esqueço STEVIE WONDER, discípulo dileto! E isto só pra ficar nos anos 1960/1970!

A miscelânea aqui postada, “INSPIRED BY GENIOUS OF”, tem gente de todo tipo. Vai de seus contemporâneos no ROCK and ROLL, EDDIE COCHRAN e JERRY LEE LEWIS; a grupos do BEAT INGLÊS, como ANIMALS e MANFRED MANN. Também cantoras de BLUES, JAZZ e R&B, como BONNIE RAITT, DIANNE REEVES e RUTH BROWN. E tem LOU RAWLS, JOE COCKER e STEVE MILLER…

E, claro, não faltou o maior de todos. PAUL McCARTNEY!

Se encontrar o CD, não titubeie. RAY CHARLES permeou a música contemporânea indelevelmente.

O BOX da foto é magnífico, estupendo; pega sua fase ATLANTIC, e foi lançado pela RHINO RECORDS, em 2005. Traz o fino do R&B em 164 músicas. Tem belo, ótimo e luxuoso livro explicativo com texto, fotos discografia. E, claro, 8 CDs com tudo, tudinho, o que RAY fez na gravadora.

O BOX em si é a reprodução de uma vitrolinha portátil, aquelas dos anos 1950, com um SINGLE do tio RAY no prato. UM MUST para colecionadores!

Coloquei pra ilustrar, mais 5 CDS originais, com capa e tudo, que também estão no repertório do BOX, mas fora dele.

Aqui, temos “apenas” a primeira fase de RAY. Estou à procura, se não custar o meu “TERCEIRO OLHO”, de sua fase mais conhecida, na GRAVADORA A.B.C. Tenho alguns discos, mas poucos….

É por lá que está um clássico estupendo e regravado ao limite, “I CAN´T STOP LOVING YOU” – simbiose inesquecível entre o R&B e a COUNTRY MUSIC, e que todo mundo conhece.

Falar de RAY CHARLES deixa qualquer um inibido. Ele foi maior do que consigo descrever ou elogiar. É reverenciar e curtir. Tempos não muito distantes, fizeram espécie de cinebiografia dele. Muito boa e adequando.

Quem não conhece o RAY CHARLES ROBINSON sequer passa em vestibular para o primeiro grau do POP e do ROCK!

Conosco e os deuses, RAY CHARLES!
ORIGINAL 29/01/2020

BATERISTAS E A MODERNIDADE

 

Entre os meses de outubro de 1958 e agosto de 1959, vieram ao mundo três discos seminais, clássicos absolutos ouvidos de lá em diante por gerações, e reeditados por diversos meios.

Aqui estão obras que influenciaram o futuro; ou se tornaram apenas sucesso de público quase eterno.

Eu falo do primeiro disco de JOÃO GILBERTO, “CHEGA DE SAUDADES”, de outubro de 1958 que, além do violão inovador e a presença de TOM JOBIM, teve a colaboração essencial de um baterista que reorientou o samba para novos rumos, mais próximo ao que faziam os jazzistas de seu tempo: MILTON BANANA.

Sem ele, a tradição não teria sido renovada em formato mais contemporâneo. A BOSSA NOVA passa pelos três em consórcio insubstituível.

No dia dois de março de 1959, foi gravado “SO WHAT?”, a primeira faixa do álbum que simboliza a modernidade no JAZZ, “A KIND OF BLUE”, de MILES DAVIS.

Começa com o baixo de PAUL CHAMBERS. Em seguida, criando caminhos para todos seguirem vem BILL EVANS, o genial pianista, que estrutura a música que virá com a sutiliza e arte que o consagrou.

Eis que a um minuto e trinta e um segundos, desponta para o eterno o BATERISTA JIMMY COBB.

Na caixa acústica ressoa o prato que preenche por completo o ambiente, e libera MILES DAVIS, JOHN COLTRANE e o resto do grupo para criar uma das faixas fundamentais da história do JAZZ.

Ouçam JIMMY COBB sob a perspectiva de um ARAUTO. Um Messias! Eu faço isto frequentemente! É a nave JAZZ singrando o cosmo rumo a sabe-se lá o quê, ou quando!

Para incrementar a discussão, um disco talvez mais fraco, comparativa e artisticamente falando, porém entre os mais vendidos na história da música: “TIME OUT”, gravado por DAVE BRUBECK QUARTET. E a faixa mais popularmente associada ao que seria, humm…JAZZ: “TAKE FIVE”!

Pois, é!

Curiosamente, os que brilham são PAUL DESMOND, no SAX ALTO, e um solo algo comportado do grande BATERISTA JOE MORELLO, porque feito para consolidar a música, marcando antológicos um minuto e cinquenta segundos de apresentação de MORELLO, minuciosamente definidos.

O PIANO de BRUBECK os acompanha com a mestria à beira da música clássica; um dos atrativos para um público branco, mais rico e refinado, que os quatro atingiam. E foi tudo feito em agosto de 1959.

Por favor, jamais suponham que havia racismo. Para os que têm dúvida, procurem outro disco do quarteto de BRUBECK, acompanhando o fantástico BLUES-SHOUTER, JIMMY RUSHING.

Quero argumentar: no espaço de dez meses o mundo da música recompôs rumos! E o JAZZ passou a ganhar mercados.

Mas, o que fazem por aqui, TERJE RYPDAL, um guitarrista inovador; o baixo consagrado de MIROSLAV VITOUS; e JACK DeJOHNETTE, neste sensacional disco da gravadora ECM, de 1979?

É “FUSION à COLD?”

O toque em alto estilo de JACK DeJOHNETTE comandando os pratos da bateria, tornou-se uma das marcas registradas do JAZZ CONTEMPORÂNEO EUROPEU; e neste álbum conduz a incrível e peculiar sonoridade desse “JAZZ POWER TRIO” multinacional.

JACK DeJOHNETTE tem discípulos espalhados pelos discos da gravadora ECM. E pelo mundo… Músicos que, como ele, se recusam a meramente acompanhar, e constroem andamentos, harmonias e melodias com a bateria.

A nova safra de discos da gravadora traz um JAZZ muito peculiar, fincado em música onde o tema central é desconhecido, abrindo espaço para solos e a participação de todos, em um “continuum” que não parece improvisado, ao contrário.

O trio do pianista WOLFERT BREDERODE, neste álbum de 2016, faz música de beleza, sobriedade e sutileza imensas! E abre com aquele som do prato que JACK DeJOHNETTE criou. imperdível!

Você talvez estranhará e perguntará:

Mas, TIO SÉRGIO, e o “LED ZEPPELIN 4”, lançado em 1971, o que faz por aqui?

Ora, a mais esfuziante, “acutilada” e talvez mais conhecida abertura com os pratos da bateria está em “ROCK AND ROLL”.

JOHN BOHNAM, um quase batuqueiro, arrebenta o jogo para sempre, o eterno sempre!

Entenderam?

RENATO VON GLEHN, O BEM-VINDO

Conheci Renato uns quarenta anos atrás. É pai da Isabela, casada com o Toninho, meus cunhados. Nos víamos vez por outra em festas familiares, e ocasiões especiais, e minhas impressões sobre ele sempre foram as melhores. Renato é ( eu mantenho no presente ) das raras pessoas bem-vindas em quaisquer ambientes.

Papeamos diversas vezes. A mesa, os copos, a música – geralmente o bom samba que o Toninho e sua turma sempre nos propiciam -, e mais gente conversando, agregando assunto à vida sempre curta.

Conversar é preciso – porque para gente como “seo” Renato papear é viver! Viveu, vive…

Renato é ( continuo no presente ) um dos grandes contadores de histórias que conheci. Começo, meio e fim. Experiências, invenções, exemplos catados em fragmentos de memória, e transformados no papo que seguia ( segue? )…

Entre os melhores momentos em que cruzamos não foge de mim um final de ano, talvez 25 atrás, em Cotia, na casa do Toninho e da Isabela.

À mesa na varanda, idosa, digna, cult estávamos eu, Renato, meu pai Fernando, o Antonio meu sogro, e um velho e querido amigo de todos nós, Naiff Haidar.

Arrisco afirmar que as pedras de gelo poucas vezes sentiram-se tão honradas e à vontade. A conversa regou o prazer da convivência; esticada ano novo adentro…Inesquecível!

Há cinco anos Renato deu um passo a frente de todos nós. E estivemos lá honrando sua existência. E, depois, fizemos o que ele fez em incontáveis ocasiões: fomos ao Restaurante do Clube Colping, um aconchegante lugar para comer e beber, no Campo Belo, São Paulo, e ocupamos várias mesas.

Cerca de 50 pessoas entre parentes e amigos. Repetimos a preferência do Renato com dor na vida e alegria triste no coração.

Quando saí, disse a todos: quando eu estiver pela bola sete, e depois de ela cair na caçapa, que todos se encontrem num bar para celebrar a vida pontuada pela morte.

Sempre inevitável como a dor.

Renato gostou do que a turma fez!

AS BELAS DA TARDE PERDIDA NO TEMPO

HISTORINHAS QUE O TIO SÉRGIO LEMBRA

Uma tarde, paulistana tarde, em bairro próximo a bairro nobre da zona sul da Capital de São Paulo, eu e o então meu amigo Ricardo visitamos outro amigo dele. Evento perdido no tempo. Talvez há uns 49 50 anos.

Era um cara legal e mais velho do que nós dois. Italiano e algo reservado; arquiteto em fase de projeção que, depois, tornou-se famoso. Morava em casa moderna e ampla que havia construído. Intrigante, cool!

Tinha discos, mas o som não era essas coisas. O que “eram” demais – e se me recordo, um tanto a mais do que demais!!!! – eram as duas namoradas que coabitavam fazendo um Power Trio harmônico, excitante, fora das normas: uma negra e outra branca. Belas. Mas, nada esfuziantes! Naturalmente integradas aos comportamentos que rolavam no anno domini de 1972, por aí…

A dobradinha literalmente sem bucho incendiou minha imaginação, que perscrutava hipóteses, técnicas, táticas, capítulos e integrações possíveis entre aqueles três. Moderno ao cúmulo; mas, improvável pelo que conhecia ao vivo da vida.

Chegamos lá, recepção casual, sem bebidas ou antipatias, mostraram para nós a aranha capturada dentro da casa. Enorme; perigosa, mas rejeitada em vidro de maionese. Era parte da decoração, um contraponto incômodo.

E veio o cachorro, de raça, talvez pastor alemão. Grande, mas abilolado por uma brincadeira que vi, tempos após, em um estúdio de rádio durante o programa “KALEIDOSCÓPIO”, do Jaques Sobretudo Gersgorin, em meados dos anos 1970:

O pessoal fumava maconha e soltava a fumaça no focinho dos bichos! Eu garanto: cachorro voa; aqueles pobres, ao menos, voavam…Maldade, ontem; e crime, hoje em dia…mas, parte do underground, da contestação periférica à caretice da ditadura…

Este pessoal era da ala psicodélica da esquerda…

A visita foi para bater papo, distrair o ócio. Coisas entre vizinhos, que Ricardo, o meu amigo, e o arquiteto eram.

O quarteto fumou maconha; eu não. Odeio a erva. E ficou a observação do natural improvável; e, depois disso, os perfeitamente possíveis trios, ou quartetos, quintetos, múltiplas escolhas e conúbios que sempre aconteceram e acontecem…Sexo é banal…

O tempo passou, nunca mais ouvi falar do Ricardo. Sobre o arquiteto famoso eu soube, mas não falo; das moças não sabia e jamais soube.

Discrição e naturalidade são meios de se penetrar no âmago dos pequenos segredos. Quem fofoca não é convidado. E, antes de tudo, eu sempre fui um cavalheiro

NEOPSICODÉLICOS E ARREDORES – 1984/2000

Acordei com a impressão de que a minha discoteca tem vários pavilhões organizados de acordo com a periculosidade dos moradores, ou detidos…
Tem espaço para LULUS FOFINHOS e CHIWAWAS IRRITADIÇAS. E locais para LOBOS, LEÕES, TIGRESAS e outros “SUPER FURRY ANIMALS”.
E, também, para bichos movediços, cediços, obscuros e arredios. Talvez boa parte do que publico agora esteja nessa categoria. Claro, importei alguns LOBOS e CHIWAWAS que dão um certo tempero e reduzem o perigo de tédio.
Talvez nunca os sub-estilos nomeados tenham tido expansão tão grande do que a partir do PUNK, cerca de 1975.
O ROCK dos anos 1980/1990 não é minha especialidade e nem predileção. Mas, como todo curioso e xereta do POP, dei minhas mordidas, tomei ferroadas, expulsei alguns bichos e mantive outros; HÁ VÁRIOS DISCOS LEGAIS e INTERESSANTES.
Resolvi focar nos chamados NEOPSICODÉLICOS. Definitivamente, talvez! É possível que alguns a turma não concorde que sejam totalmente PSICODÉLICOS.
Mas, tio Sérgio foi torturado no ROCK AND ROLL HALL OF FAME, confessou e entregou: quando escuto “WISH”, do THE CURE, sinto os ELECTRIC PRUNES escondidos debaixo das saias de ROBERT SMITH. É só levanta-la!
Vá e faça um ultrassom em BECK quando ouvir MUTATIONS. Você encontrará útero engravidado e ouvirá o coração de RAY DAVIES, KINKS, cerca VILLAGE GREEN.
Êpa! Há gêmeos! Tem um SYD BARRETT escondido ali!
Anos atrás – quase muitos! – perguntei ao Fernando Naporano o que achava do “RIDE”. Ele respondeu meio encabulado que não gostava. Porque os moços apareciam nos “Programas do Chacrinha na Inglaterra”, e não eram lá essas coisas. Concordo.
Mas procurem conhecer “CARNIVAL OF LIGHTS”, álbum PSICODÉLICO até o último reduto! Se você não encontrar os BYRDS de 1968/69 por ali, é porque tem bebido errado! É um grande disco!
E há esse BOX DOS CHARLATANS. Até excessivo para mim. No entanto, o mantive porque tem esse TRAVO PSICODÉLICO que a turma do BRITPOP sabia fazer bem.
E o PULP, heim? Nossa, TIO SÉRGIO? Eles?
Sim, disco perfeitamente categorizável como PSICODÉLICO e talvez PROGRESSIVO. E vem com ajuda na produção e orquestrações do SCOTT WALKER, sempre um plus e garantia de não-mesmice! É bom, sim senhor!
As meninas do LUSH eu adoro. E “SPLIT” é um disco lindíssimo, no precipício entre a PSICODELIA e LAIVOS PROGRESSIVOS. Elas não são CHIWAWAS! São LEOAS! Quem encontrar a coletânea delas não se arrependerá! E acho imprescindível que vocês conheçam o disco do SLOWDIVE, NEOPSICODÉLICO nítido e cult!
Há duos pop algo sui-generis nessa parada. Os franceses do AIR, para alguns TECHOPOP CHIC. Eu enxergo nesse disco viagens movidas por alguma química…
E os belgas ( ou holandeses, ou sei lá… ) do DE VISION? Comprei há duas décadas na loja do ALEXANDRE TWIN. Fazem a ponte entre os MOODY BLUES e o DEPECHE MODE!
Mas pode isto, TIO SÉRGIO?
Pode sim; e é bem legal!
Meus ouvidos enxergaram hálitos de ROCK PSICODÉLICO em vários discos do RADIOHEAD, OK COMPUTER, inclusive. E nas “guitarras quase INDUSTRIAL ROCK” do CURVE e MY BLOOD VALENTINE.
Falar o quê dos PIXIES, JESUS & MARY CHAIN, STEREOLAB, RAIN PARADE, COCTEAU TWINS, PLACEBO, SPIRITUALIZED, KULA SHAKER e, principalmente, em “MELLON COLLIE” dos SMASHING PUMPCKINS?
E recomendo o “THIS MORTAL COIL”, neste BOX de 4 CDS, um deles com as versões originais sobre as quais eles fizeram covers! É muito bom e artisticamente estiloso.
Aproveitem se puderem, encontrarem, e optarem pelo excelente e talvez definitivo resumo de todo o BRIT POP. É o caixotão chamado THE BRIT BOX”, que traz em 4 CDS 78 MÚSICAS de todo o mundo e seus amigos: OASIS, BLUR, CATATONIA, e tantos e tontos que é bom vocês pesquisarem. Não é tri-legal, como diziam os gaúchos?
Então, “SANTO DAIME PAZ” – aliás, em matéria de trocadilho infame talvez seja o meu recorde.
Divirtam-se!!!
Publicação original em 24/01/2021