SUN RA – E A VANGUARDA MUITO ALÉM DE “THE HELIOCENTRIC WORLDS!

Tive paciência e consegui mais ou menos saber quantos discos gravou SUN RA e sua ARKESTRA: foram 136. Quer em bom português? Contei cento e trinta e seis discos!

Entre os mitos que o cercam está o de ter criado a própria gravadora, “EL SATURN RECORDS”, prá lá de singular. E quase-famosa por ter feito LPS sem grandes sofisticações gráficas, mas artisticamente instigantes e muito difíceis de serem encontrados pelaí!

SUN RA foi um dos primeiros independentes.

Colecionador sortudo e destemido será quem achar algum daqueles discos. São raros e preciosos!

Quem se interessar pelo “MAGO” deve, também, dar uma olhada na produção do cara por outras gravadoras, como a também cult ESP, e a IMPULSE.

Mas, pode ir direto para as reedições em CDS, da suíça EVIDENCE MUSIC, que vem mapeando a carreira do cara com zelo e respeito.

SUN RÁ era de ecletismo total! Mas, à sua maneira peculiar e subversiva. Teve carreira longa e impressionante.

Começou na década de 1940, e trabalhou compulsivamente por mais de 50 anos! Era superdotado e workholic como JOHN MAYALL ou MILES DAVIS.

Acompanhou grupos de DOO-WOP; gravou BE-BOP; deu canjas várias na transição da música negra dos anos 1940 ao R&B em voga.

Envolveu-se com todo tipo de JAZZ, do RAG ao ROCK; gravou BLUES; meteu o criativo bedelho em mil coisinhas excêntricas e esotéricas.

DIZZY GILLESPIE e THELONIOUS MONK eram fãs se SUN RÁ.

Em 1956 gravou, inclusive, com um “esperma ensandecido” (PORRA-LOCA, para os menos recatados) chamado “YOCHANAN, A SPACE AGE VOCALIST”… um híbrido de cantor de R&B, Proto-RAPPER, ou simplesmente um preto maluco! Tudo isso está no CD duplo “SINGLES”, aqui na postagem!!!!

SUN RA propôs e conseguiu um jeito novo de “re-rever” a música de formas diferentes e nunca feitas! Era criativo, insistente e desbravador. Usou teclados eletrônicos ainda nos anos 1950; abusou de sintetizadores e tudo o que fosse ligado às vanguardas musicais esvoaçantes, ou que o ligasse às coisas cósmicas, míticas, místicas, ou simplesmente fora do eixo… e antes que o PINK FLOYD pensasse nisso…

SUN RA era uma METAMORFOSE GALOPANTE, foi um dos criadores do AFRO-JAZZ.

Ao contrário do FREE JAZZ, de ORNETTE COLEMAN, onde a liberdade para improvisar era total, a proposta AVANT GARDE de SUN RA é uma construção/desconstrução ativa, mesmo que não-programada, de uma obra musical que requer disciplina, técnica e sensibilidade.

SUN RA é um arquiteto do caos sonoro inteligível. Intervinha nas gravações, trocando músicos durante a execução dos trechos. Dava o tom, a ideia; e se não gostasse do som de um trombone, digamos, fazia o trompetista, por exemplo, executar aquela parte do jeito que quisesse. E, se RA concordasse, ia juntando, gravando tudo de acordo com a sua percepção e gosto.

SUN RA acrescentava ou retirava instrumentos, ideias, frases; e o resultado é uma colagem sonora com liberdade vigiada, livre ‘ma, non tropo”. Fica estranho, mas é coeso e musicalmente instigante. A metáfora que me ocorre, é consertar o motor do avião em pleno voo…

Ele rompeu e subverteu a ideia inicial do FREE JAZZ, e está nas raízes da FUSION, DO ROCK PROGRESSIVO, e é precursor do “AFRO-FUTURISMO” jazístico. SUN RA é um compositor, arranjador, maestro maluco, que dirige sua orquestra ao sabor de si mesmo.

Diferentemente do FREE JAZZ, onde cada um tocava sua parte sem a censura de outros; nos discos dele o comandante supremo é SUN RA. Ele é o diretor de obras do caos. Não sabia onde queria chegar, mas chegava prospectando, caminhando, perscrutando, tocando, construindo, destruindo, mudando a música…

Depois de gravada, claro, restava a obra composta: original, intuitiva, provavelmente não repetível, mas “organizada”, porque “petrificada” em disco.

Se o FREE JAZZ é obra coletiva, o AVANT – GARDE parece, em geral, produto individual: o conceito é do artista.

A história da música popular é um caminho tortuoso, desruptivo, e, ao mesmo tempo, previsível. Muita coisa díspar convive ao mesmo tempo.

Para muitos, o ápice da sofisticação na música popular foi a GRANDE CANÇÃO AMERICANA, de GERSHWIN, COLE PORTER…; e na voz de ELLA, BILLIE, SINATRA, entre vários.

A BOSSA NOVA talvez tenha sido o último ato da grandeza musical “tradicional conservadora”. E, tudo isto, culminando no final dos anos 1950 do século passado!

No mesmo espaço/tempo, o R&B e o ROCK AND ROLL comiam solto com incontáveis grupos de DOO-WOP, ELVIS PRESLEY e contemporâneos.

Além das experiências radicais na MÚSICA CLÁSSICA contemporânea, a ELETROACÚSTICA, por exemplo; à época estavam em curso subvertendo o gosto tradicional, e acrescentando elementos de ruptura.

No BRASIL, em 1959, a compositora JOCY DE OLIVEIRA, contestara sarcasticamente a BOSSA NOVA, em seu LP.

Mas, em 1961, executou no TEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO a primeira obra de música ELETROACÚSTICA do BRASIL. JOCY esteve e está além de seu tempo…

Talvez a transição entre a década de 1950 e a de 1960 tenha sido o período histórico onde ocorreram as mais significativas erupções e terremotos estéticos.

SUN RA não existiria sem esse amplo painel, composto por contradições procurando sínteses, e de saltos à frente. A entropia foi o FREE JAZZ, sucedido por uma quase-reorganização da vanguarda com o AVANT-GARDE.

Ao mesmo tempo, vieram os Beatles e os formatos tradicionais simplificados tomaram a cena novamente.

Até que…

SUN RA morreu aos 79 anos, em 1993, mas sua ARKESTRA continuou sob a direção, talvez até hoje, do saxofonista MARSHALL ALLEN, que já a trouxe ao Brasil.

Quando eu morrer, vou-me embora pra SATURNO, de onde SUN RA disse que veio. Porque lá sou amigo do Rei…

TRISTEZA PROFUNDA E ALEGRIA BREVE – ALGUNS ILUMINADOS DO UNDERGROUND, SUAS VOZES E DISCOGRAFIA GÉLIDAS

Quando ROBERTINHO, mais conhecido por ROBERT SMITH, saiu do palco sob aplausos e glória, depois de show do THE CURE, em São Paulo, fiquei pensando sobre a nossa intensa e talvez desmedida alegria enquanto povo – supostamente, quem sabe…

Pensando em indivíduos concretos, talvez todo brasileiro seja “SOLAR” enquanto não trafega pelo underground de si mesmo. Nesse tempo de iras, desacordos e polarizações, a infinita “sadness” deve suplantar alegrias breves…

ROBERT é um dos artistas mais introspectivos dos últimos 50 anos. Um não-brasileiro de alma e postura, mas que agrada e muito, quando por aqui se apresenta.

Ele é um ídolo improvável. E, quem sabe, se aproxime em fama e público a ROGER WATERS. Alguém tão discreto e tímido traria algum significado mais consistente para explicar seu público supostamente SOLAR?

ROBERT SMITH sempre foi um espetáculo de fragilidade. Então, pensei em outros fortes/frágeis e seus percursos sobre essa “tangerina” encoberta por placentas de nuvens”. Ela mesmo, a TERRA…

A ordem na postagem foi supostamente estética. Pra sair menos mal na foto. Então,

Alguém conceberia artista mais ensimesmado, e com a voz mais chorosa e desolada do que NEIL YOUNG?

TIO SÉRGIO trouxe outros. ROBERT WYATT, ex – SOFT MACHINE, é um fiapo de voz, e mora no DESOLATION RAW do ROCK… Aconchegante feito estar sozinho de madrugada no velório de alguém querido é ouvir GENE CLARK, em quaisquer de seus discos. Sua voz belíssima, bem colocada sobre melodias e arranjos FOLK, passam o homem que ele foi: deprimido, solitário, frágil, deslocado.

Mas, pode piorar. Se o relacionamento amoroso vai mal escutar JONI MITCHELL pode ser o tiro de misericórdia no coração dos sofridos. Ela, um gênio em vários sentidos, e nos atrai com suas composições lindas, bem escritas e arranjadas – mas, não disfarçam o eterno buraco que ostenta no peito, na mente, no corpo…

GRAHAN NASH, ex-namorado, escreveu para ela a singela “OUR HOUSE”, gravada por CROSBY, STILLS, ELE e NEIL YOUNG. Talvez pressentindo o gosto da alegria breve. O nosso “ROBERTINHO”, 64 anos, fez o clássico “LOVESONG”, para sua mulher, MARY, com quem está desde a adolescência…

E vamos para o WILD SIDE da existência. Ouçam SCOTT WALKER, principalmente MONTAGUE TERRACE IN BLUE, que não cai nada bem para um ídolo POP provocador de histerias, em meados da década de 1960. SCOTT sempre foi ermo, dark, solitário e recluso. Abdicou do mundo e ponto final…

E que tal um naco de alegria com LOU REED tomando sangria num PERFECT DAY no parque? Nem vou mergulhar na discografia barra pesada que deixou A faixa no álbum TRANSFORMER, é o auge de calor humano que o marido da LAURIE ANDERSON conseguiu. E, por falar nela….

Para vocês aquecerem a alma penada para o verão, mais um pouquinho de cicuta na cachaça…

Conhecem o espetacular disco de 1974 prenunciando o espírito DARK WAVE, gravado por NICO, PHIL MANZANERA, BRIAN ENO, e JOHN CALE?

Procurem. Lá está versão assustadora e cabisbaixa de THE END, consagrada pelos DOORS. O restante do repertório não desatina… é ladeira abaixo…

Pesquisem o lindíssimo “SONGS FROM THE COLD SEAS”, trilha para um filme de HECTOR ZAZOU, com SIOUXIE, JANE SIBERRY, BJORK, SUZANNE VEGA, JOHN CALE, e outros gélidos.

E não percam a alemã UTE LEMPER em PUNISHING KISS, com NICK CAVE, ELVIS COSTELLO, PHILLIP GLASS, TOM WAITS, SCOTT WALKER e KURT WEILL. Um repertório que somente os alemães poderiam “aquecer” com tal proficiência…

Ah, ia esquecendo, a dupla UNTHANKS, em disco ao vivo com músicas de ROBERT WYATT e ANTHONY and the JOHNSONS. Sopa fria, boa para verões quentes… no norte da Europa.

Pra terminar, o grupo americano BLACK TAPE FOR A BLUE GIRL, que talvez o ROBERTINHO conheça, e é a cara dele. Na postagem, um de seus não-hits recônditos: “”THIS LUSH GARDEN WITHIN”. É Dark Wave assumida e consumada.

Agora, eu vou pra piscina, aplacar o excesso de calor. Minh`alma refrigerada por tanta música alto-astral está fora de meu corpo…

Morrer, por enquanto não, obrigado…

BEACH BOYS – BOXES E COLETÂNEAS 1962/1988

INCLUSIVE UM BOX EXCLUSIVO, O “MORRETÃO” ACIMA À ESQUERDA!

NEM PROCUREM POR AÍ, PORQUE NÃO ENCONTRARÃO!

SÓ EXISTEM 4 CÓPIAS, EM CAIXAS DIFERENTES, COM DESIGNS PARA O MESMO CONTEÚDO. FORAM FEITAS UMA PARA CADA AMIGO QUE PARTICIPOU DE ALGUMA FORMA NO PROJETO, QUE VOU DESCREVER ABAIXO.

ESTA É A MINHA.

A HISTÓRIA É A SEGUINTE: HÁ UNS VINTE ANOS, EU E UM GRANDE AMIGO CONVERSANDO, CONCLUÍMOS QUE ERA POSSÍVEL CRIAR UMA COLETÂNEA DOS BEACH BOYS QUE FUGISSE DO ÓBVIO. E MANTIVESSE A MAIS ALTA QUALIDADE POSSÍVEL.

FIZEMOS!

ELE SELECIONOU 80 MÚSICAS, EM TRÊS CDS, GRAVADAS ENTRE 1962 E 1970, PERÍODO DE PRODUÇÃO MAIS IMPORTANTE DA BANDA. E FEZ PESQUISAS SOBRE TEXTOS RELEVANTES, PARA O PROJETO..

EU CUIDEI DA PARTE GRÁFICA E DA ARTE. PRODUZI AS CAIXAS E CRIEI COLAGENS E ETC E TAL…

FICARAM BEM INTERESSANTES.

Os seguintes são mais conhecidos.

O BOX THE ORIGINALS saiu em 1997, e traz a produção algo dissociada entre 1965 e 1967. Ou seja SURF BEAT e arremedos de PROTOPSICODELIA (SMILEY SMILE, 1967) São mini LPs bem feitos e de qualidade muito superior ao que as séries ORIGINALS se transformaram. Eu tenho outras edições individuais de cada disco bem melhores. Mas, esta é de estimação.

SMILE 1967/2011, projeto megalomaníaco tentado por BRIAN WILSON, em nome da banda, e que gerou imensas reações internas no grupo.

Aqui, na versão terminada em 2011. É CULT, mas não me convence. A somatória das faixas tentou ser uma espécie de compêndio particular da história musical americana.

Acho mal realizado e não suficientemente pensado. Mas, é minha opinião apenas…Muitos acreditam que supera PET SOUNDS. Eu discordo.

SUMMER DREAMS é uma coletânea de 1991. Vista geral de toda carreira, com um bônus de luxo: a versão de CALIFORNIA DREAMIN´, clássico absoluto dos MAMAS & THE PAPAS, em arranjo à BEACH BOYS, e a participação luxuosa de ROGER McGUINN, dos BYRDS, na guitarra. A música é, também, a cara dos BEACH BOYS!

PET SOUNDS SESSIONS, 1996. Eu tenho somente o BOX, sem qualquer recheio. Ganhei de um amigo.

Eu não compraria, porque demais para mim. Acho imersões em geral um exagero: muita coisa entre a masturbação pura e simples, e a completa falta de “ereção” artística. Bastam dois CDS: o original e as sobras significativas. O restante é pra fãs incondicionais.

Qualquer hora, uso esta caixa para algum projeto com a discografia dos BEACH BOYS adequada à época, e mais a meu gosto…

Agora, THE BEACH BOYS – SOUNDS OF SUMMER, THE VERY BEST OF…, CAPITOL, UNIVERSAL, 2022, é a COLETÂNEA IDEAL!!!

Oitenta faixas, abrangendo a carreira toda! Ótimas remasterizações. Acompanha BOOKLET com texto e fotos, em visão ampla, geral e irrestrita do percurso dos moços pela história da brilhante discografia que construíram!!!

Tudo o que importa em BOX/ALBUM com 3 CDS! E o preço final na porta de casa na faixa de $ 25 BIDENS!!!!!!!!!!!!!! Uns R$

140,00 MANDACARUS.

Assediem a FADINHA MASTERCARD, e a obriguem a trazer para vocês neste natal!!!

Vale cada centavo!!!!!

BUD POWELL – BLUE NOTE & VERVE REEDIÇÕES 1947/1963

A sorte de nós, contemporâneos, e independentemente de idade ou geração, é termos acesso a material histórico, gravado em décadas anteriores, e recuperados por tecnologias que os trazem com excelente qualidade técnica para os dias de hoje.

É curioso acompanhar as discografias. Há uma característica mais ou menos comum aos “boxes” de CDS feitos dos anos 1990 em diante, principalmente no jazz.

Todos enfatizam e relevam as sessões de gravações, e seus inúmeros “takes” alternativos, OUT TAKES, e outros quitutes. Isto significou uma riqueza de músicas, arranjos, detalhes e técnicas artísticas. E, principalmente, o relançamento de álbuns originais, e a criação de vários outros que já despontam como clássicos.

E porque são!

Todos foram produtos de sessões de gravações recuperadas, geralmente as mesmas de onde foram retirados os discos originais.

Naqueles tempos, gravava-se em série diversas músicas, e depois selecionava-se o que sairia e o que seria arquivado.

Desse ponto de vista, e também do colecionismo, os boxes trazem a produção bruta e integral. Mas, nem sempre as capas dos discos originais e das edições posteriores do material lançados em outros discos, e todos novos clássicos e colecionáveis.

Por isso, é um misto de satisfação pela overdose, e frustração por termos de ir atrás, se quisermos, dos prodigiosos discos e suas capas concebidas originalmente.

A indústria musical sempre faturou e continua ganhando bastante grana conosco, os colecionadores. Eu sou exemplo: tenho quase tudo de BUD POWELL. No entanto, se aparecer uma nova seleção do mesmo, outra capinha, e se não custar caro, ela vem pra minha toca!

Colecionadores são todos infantis. Movem-se no lúdico!

POWELL era um gênio. Reconhecido por MILES DAVIS, CHARLIE PARKER, DIZZY GILLESPIE, THELONIOUS MONK, e o monte de gente com quem também gravou do final dos anos 1940 até meados da década de 1960: J.J.JOHNSON, MAX ROACH, SONNY ROLLINS, craques deste calibre.

Para muitos, BUD fui juntamente com CHARLIE PARKER – com quem não se dava bem – o maior nome da revolução ocorrida no JAZZ em meados do século passado.

O BE BOP, estilo que teve seu ápice nos ano 1940 e 1950, batizado com este nome porque os músicos associavam o andamento rápido, “notas pequenas” e dissonantes, ritmo sincopado e frases que às vezes terminavam abruptamente, com o atrito das marretas pregando trilhos nos dormentes de estradas de ferro!

JAZZ com inspiração nos barulhos que a sociedade Industrial produzia?

BUD POWELL viveu 42 anos. Teve a saúde fragilizada, inclusive a mental, depois de uma surra que levou da polícia ao ser preso por suposta vadiagem, no final dos anos 1940. Ele sofreu muito com diversas internações e acabou por pegar tuberculose, na Europa, que o consumiu e matou.

E para os que se recordam do filme “ROUND MIDNIGHT”, o músico representado pelo personagem de DEXTER GORDON, é um compósito entre BUD POWELL E LESTER YOUNG…

As coleção da BLUE NOTE está recheadas de obras primas. A da VERVE, também, que tem um acabamento gráfico belíssimo e luxuoso, com textos, e relatos de seguidores como HORACE SILVER e TOSHICO AKIYOSHI; fotos e tudo o mais.

Juntei ao material uma foto de POWELL com o trombonista J.J.JOHNSON, cool como quase tudo o que se refere àquele período rico, enfumarado, cult. E, também, um discasso de CHICK COREA chamado REMEMBERING BUD POWELL!

ALLAN BLOOM, crítico literário e cultural, classifica a gravação de “UN POCO LOCO”, pela BLUE NOTE, em 1951, entre as grandes obras de arte produzidas nos EUA! A música veio em três TAKES. É o piano rápido e peculiar de BUD POWELL, acompanhado por baixo, e principalmente pela bateria de MAX ROACH – que engata ao jazz uma percussão latina da pesada, quase trombando com o samba!!!

Realmente, é MUCHO LOCO!

DAVE CLARK FIVE – BEAT/R&B – MITO DOS ANOS 1960!

DAVE CLARK foi o primeiro super – astro POP a impor respeito à indústria do disco.

Logo depois do início profissional da banda, em 1963, tomou as rédeas do negócio e da produção. Jamais permitiu ser explorado pela máquina.

Eram um tanto diferentes dos BEATLES, dos STONES e da turma BEAT em geral: uniram órgão ao saxofone, o que lhes dava simultaneamente um som ROCK- RETRÔ e vínculo direto com o R&B americano, mas sem perder a essência inglesa do BEAT.

E vou destacar o vocal “negão da pesada” do algo esquecido e excepcional VOCALISTA/TECLADISTA MIKE SMITH. Eles

produziram dezenas de SINGLES de grande sucesso.

O DAVE CLARK FIVE gravou em média 3 LPs por ano, com o poder de síntese de um JOÃO GILBERTO: alguns não chegam a 22 minutos de duração! E todos têm qualidade sonora superior. Coisas da E.M.I – COLUMBIA mundo afora, naqueles tempos!

E detalhe, a produção era deles e os direitos sobre os discos, também! Coisa impensável naqueles tempos!

Foram sucesso na AMERICA em nível dos BEATLES! E venderam milhões de discos no mundo inteiro.

Fizeram centenas de shows em locais totalmente lotados. Estiveram mais vezes no show de ED SULLIVAN, visto de costa a costa nos E.U.A, do que os astros pop de sua época, BEATLES incluídos.

E negociaram e receberam cachês maiores do que quaisquer deles, inclusive JOHN, PAUL GEORGE e RINGO!

Quando o período de sucesso retumbante já definhava, por volta de 1968/1970, já estavam milionários.

É argumentável que, ao contrário da imensa maioria de seus concorrentes, eles tinham formação superior. Na banda havia dois engenheiros eletrônicos, por exemplo.

E, claro, cuidar diretamente da administração dos negócios fez total diferença!

Talvez seus contraexemplos tenham sido o BEATLES, que quase faliram; e os ROLLING STONES – que só há pouco tempo retomaram em parte o controle sobre discos gravados na década de 1960. É onde estão os grandes clássicos. E, apesar de MICK JAGGER ser formado na LONDON SCHOOL OF ECONOMICS…

Após o final da banda, DAVE CLARK recusou diversas propostas milionárias para reuni-la novamente, e fazer alguns shows. Achava que não fazia sentido. E eles também não precisavam.

Porém, o mito sobrevive mesmo que, oficialmente, a imensa maioria de seus Lps não tenham sido reeditados em nenhum formato. Parece que, agora 2022/2023 isto será feito. Finalmente. Já há coletânea nova deles na praça, e muito bem produzida. Eu ainda não escutei.

A melhor coletânea oficial deles em Cd saiu em 1993, e tem 50 músicas.

Está aqui postada; e vendeu barbaridade! Os outros discos formam a obra completa da banda. São edições australianas.

Está na foto também, outra miscelânea dividindo sucessos com os HERMAN´S HERMITS.

DAVE CLARK é amigo de ELTON JOHN e, como dizem em Portugal, também “salta pocinhas”. Sua vida pessoal é bastante discreta e seu fã Club oficial muito ativo.

Uns 35 anos atrás, saiu um livro sobre o destino de vários ídolos POP no pós-sucesso. Um tsunami de falências e infelicidades.

DAVE CLARK ainda morava em se PENTHOUSE, em MAYFAIR, um bairro chique e caro de LONDRES.

Escutem o DAVE CLARK FIVE, é muito legal e animado. E, com discos altamente colecionáveis.

RENAISSANCE – A SONG FOR ALL SEASONS – BOX SET – 2019

SIM, UM EXCELENTE ÁLBUM DE ROCK PROGRESSIVO SINFÔNICO!!!

Conhecer a HISTÓRIA é jeito confiável para consolidar conhecimentos válidos. E, também, para relativizar saberes, recuperar detalhes, preencher lacunas, ou até corrigir eventuais erros.

A HISTÓRIA do RENAISSANCE é parte de uma lacuna obscurecida pelo brilho intenso que o foco nos “super guitarristas” ERIC CLAPTON, JIMMY PAGE e JEFF BECK, deu aos YARDBIRDS, durante a curta existência da banda, entre 1963 e 1968.

Quando o grupo terminou PAGE, o último LEAD GUITAR, formou o LED ZEPPELIN, portal imenso para o HARD ROCK e o HEAVY METAL. ERIC CLAPTON, que saíra em 1964, e tido como “GOD” na Inglaterra, agora consagrava-se no CREAM, onde ampliou a sua experiência acumulada com o JOHN MAYALL’S BLUESBREAKERS. E JEFF BECK, depois de 1966 seguiu multifacetada e sem paralelos carreira solo.

Mas, TIO SÉRGIO, e o vocalista KEITH RELF e o baterista JIM McCARTHY, o que fizeram?

Criaram o conceito inicial, e gravaram os dois primeiros discos do RENAISSANCE, com JANE RELF no vocal, em 1969. Foram dois fracassos de vendas, e sobrou ninguém da primeira formação do grupo.

Mesmo assim, o RENAISSANCE foi a DORSAL PROGRESSIVA surgida no “desfazimento” do histórico, abrangente e seminal “THE YARDBIRDS”…

“So Beggins The Task”, parafraseando o nome de bela canção de STEPHEN STILLS…

Tenho por aqui, sei lá onde, postagem mais completa sobre o RENAISSANCE. Então, vou ater-me a esse belo trabalho, que antes deste relançamento eu não apreciava muito. Aqui, eu adiciono algumas “bolocotas” informativas e interpretações para tentar situar a banda no contexto da época.

ANNIE HASLAN tem um incrível alcance vocal de 5/8!!! Estudou canto, tem dicção perfeita e clara. Sua voz tem a leveza e a doçura das cantoras de MÚSICA CLÁSSICA.
ANNIE foi selecionada através de um anúncio na revista MELODY MAKER, em 1971, e juntou-se ao diferenciado baixista JON CAMP; ao baterista TERENCE SULIVAN; ao excelente pianista e tecladista JOHN TOUT; e também ao violonista e guitarrista MICHAEL DUNFORD, o compositor da maioria das melodias. É curioso: o RENAISSANCE usou guitarra elétrica pela primeira vez neste neste álbum!

Como o KING CRIMSON e o PROCOL HARUM, o RENAISSANCE tinha letrista exclusiva: BETTY THATCHER, que morava em outra cidade, e recebia as partituras e uma fita com a melodia via correio Ela escrevia as letras e devolvia ao grupo. Pelo que ouvimos na discografia disponível, o entrosamento foi perfeito!!!

O RENAISSANCE sempre foi mais popular na AMÉRICA, incluindo o CANADÁ, do que na INGLATERRA – essa eterna reveladora de ídolos e talentos, que precisaram ganhar a vida fora, porque lá o mercado é comparativamente pequeno e os impostos enormes. Então, mudaram-se para os Estados Unidos por dois anos, e tentaram aproveitar o culto que foram despertando.

No começo, ficaram em um “limbo” de mercado. Fizeram turnês com o BLUE OYSTER CULT, o KISS, EAGLES e vários, até encontrarem o nicho mais adequado: a turma do PROGRESSIVO e redondezas. Excursionaram com o JETHRO TULL, GENESIS, GENTLE GIANT…

Os cinco primeiros álbuns da nova fase foram paulatinamente vendendo melhor. Mesmo assim, elesnunca estouraram.

“A SONG FOR ALL SEASONS”, o sexto, foi o primeiro sucesso de verdade, com 60.000 LPS vendidos, graças a “NORTHERN LIGHTS”, lançada em SINGLE, em 1978; que para surpresa de todos, atingiu o décimo lugar nas paradas inglesas. Eles foram 3 vezes no TOP OF THE POPS.

ANNIE vivia na época com ROY WOOD, o famoso guitarrista, líder da banda psicodélica inglesa THE MOVE, e um dos fundadores da ELECTRIC LIGHT ORCHESTRA. Ele produziu e tocou no primeiro disco solo dela: ANNIE IN THE WONDERLAND, 1977.

ANNIE HASLAN era, também, muito amiga de BETTY THATCHER, e inspirou a letra de “NORTHERN LIGHTS”, que tem nada a ver com a Aurora Boreal… É uma canção sobre saudades, amor e retorno ao lar. Afinal, eles viviam na estrada…

Para fazer “A SONG FOR ALL SEASONS” eles contrataram DAVID HENTCHEL, que produzira com sucesso ELTON JOHN e o GENESIS. Era experiente, tolerante, e sabia operar sintetizadores, um upgrade necessário naqueles tempos.

O disco foi concebido como ROCK PROGRESSIVO SINFÔNICO.

Trouxeram a ROYAL PHILHARMONIC ORCHESTRA, e os arranjos foram feitos por LOUIS CLARK, que também havia escrito para a ELECTRIC LIGHT ORCHESTRA. A regência coube ao maestro HARRY RABINOVITZ.
A banda e a orquestra gravaram separadamente, como fizeram os MOODY BLUES, em DAYS OF FUTURE PASSED. As orquestrações têm ecos de DEBUSSY, SCHOSTAKOVICH e PROKOFIEV.

Eu percebo traços da canção-tema dos filmes do “Agente 007”. Acho os arranjos pesados, intensos e dramáticos. Lembram mais o PROCOL HARUM do que o GENESIS.

A conjugação orquestra / banda ao vocal etéreo e refinado de ANNIE HASLAN, talvez tenha gerado o melhor disco do RENAISSANCE. Na opinião do grupo, é a MASTERPIECE da carreira. Apesar da capa desenhada pela HIPGNOSYS, que ninguém gostou ou entendeu direito…Afinal, se era pra exibir a foto de moça qualquer, por que não ANNIE?

O box lançado pela ESOTERIC RECORDINGS, em 2019, é bem realizado. Traz livreto, poster, comentários e as letras. Tudo em caixa bem apresentável.

A remasterização do disco original está ótima! A mixagem do baixo ficou excelente, o piano soa claro, inteligível, e o som do restante da banda está muito bem remixado e coeso.

A voz de ANNIE HASLAN está nítida e afinadíssima, como sempre. A orquestra integrou-se muito bem, e os instrumentos utilizados estão com recortes bem audíveis.

O box traz outras faixas adicionais. E mais dois CDS bônus de concerto gravado no TOWER THEATER, na PHILADELPHIA, EM 1978; e na B.B.C.

O som está razoavelmente audível. Mas com certeza não foi remasterizado. São as limitações e lapsos de um projeto muito bonito.

Os cantores do coro pediram para receber seus cachês em caixas de cerveja, ao invés de dinheiro…

Certamente foi uma honra também para eles trabalhar em disco tão belo.

Eu recomendo a todos!

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