ELIZETH CARDOSO E ARACY DE ALMEIDA. O QUE TÊM EM COMUM ESSES DOIS DISCOS?

Sou gato de bibliotecas e discotecas.

Ando por elas assediando ( palavrinha da moda, heim ! ), cheirando e apalpando bumbuns e outras partes de discos e livros; lendo contracapas e orelhas; observando os designs gráficos, e os selos de gravadoras.

Tudo considerado, ckntinuo cumprindo um ritual que me fascina, desde criança, por coisas gravadas e impressas.

Acho que gosto mais dos “objetos” discos e livros, do que da “escutação” ou das leituras.

Claro; mais ou menos. Estou exagerando… Sou meio grávido de músicas ouvidas e leituras feitas.

Muita ainda é ou foi feita pela metade; por pequenas partes e muito pouco método. Assimilei muito através da sensibilidade; ou por osmose e gravidade ( caíram sobre mim …) É um hobby viciante. Não largo nem por ameaça ou porrada literalmente aplicada .

Recentemente, eu andava atrás de cds lançados pela GRAVADORA ELENCO, na década de 1960. São fascinantes! Um acervo diferenciado, criado, gravado e produzido por ALOYSIO DE OLIVEIRA , que juntou patos e sapatos; jacarés e tigresas; a velha guarda e os modernos artistas da época.

Era uma gravadora temática, BOUTIQUE sonora refinada, como a BLUE NOTE e a VERVE, americanas, exemplos magníficos.

Vagando pelo virtual cheguei em um disco lançado na ELENCO, em 1966, chamado “SAMBA É ARACY DE ALMEIDA”.

É muito interessante. ARACY era sambista da velha guarda. E, nesse disco gravou os compositores clássicos como NOEL ROSA, ASSIS VALENTE e ARY BARROSO. E, também, MARCOS VALLE, atualíssimo ainda hoje!

O diferencial é que ARACY está acompanhada pelo conjunto de ROBERTO MENESCAL, e a produção de AlOYSIO trouxe todo o repertório para o som contemporâneo da época do lançamento. E ARACY canta com leveza e descontração.

O resultado é BOSSA NOVA de verdade.!

Inspirado nela escutei, também, o “CULT” “CANÇÃO DO AMOR DEMAIS”, de ELIZETH CARDOSO, lançado em 1958, e por muitos considerado o primeiro disco gravado de BOSSA NOVA, porque as musicas são de TOM JOBIM e VINÍCIUS DE MORAES; e JOÃO GILBERTO toca violão – mesmo que sem as ousadias que vinha desenvolvendo.

Porém, o disco é convencional. Feito para a voz de ELIZETH, e com destaque total para ela. Os arranjos de TOM JOBIM são bem feitos, e nada inovadores. Ele usa violinos, harpas e toda a tradição sonora do SAMBA-CANÇÃO, onde ELIZETH era mestra consumada.

Mesmo com “CHEGA DE SAUDADES” no repertório, eu acompanho a opinião do poeta e professor AUGUSTO DE CAMPOS: está longe de ser um disco de BOSSA NOVA.

Tempos atrás, a revista RECORD COLLECTOR fez resenha elogiosa e curta do disco, e lhe deu 4 estrelas. Uma chancela relevante!

Agora, ouvindo e comparando os dois discos eu cheguei a algumas conclusões:

Os inventores da BOSSA NOVA são, mesmo, JOÃO GILBERTO e TOM JOBIM. VINÍCIUS tangenciou o gênero.

O SAMBA CANÇÃO não transitou para a modernidade; não havia elos possíveis, já que, de certa forma, a BOSSA o contestava na sua “breguice” formal e no uso “açucarado ” das cordas – “assassina serial” de ouvintes diabéticos!

Mas, era um jeito americano de fazer e arranjar músicas, contemporâneo à grande canção americana da época. É só dar uma olhada nas paradas e identificar…

De outro lado, o SAMBA DE RAIZ forma a base da BOSSA NOVA com naturalidade impressionante. A tradição de ARACY juntada ao “POP” de MENESCAL e sua turma, são exemplos claros. Ao adicionar uma colherada de JAZZ no otimismo dos tempos democráticos de JUSCELINO KUBISTCHEK, criou-se uma receita musical próxima da perfeição.

Bem, como gato velho, miei demais por aqui. Mas, acho que ainda mantenho parte do meu faro.

CANNED HEAT – CULT PSYCHEDELIC BLUES

ALTERNATIVOS sempre! E, ao mesmo tempo, “discutindo o conceito” do verdadeiro BLUES. Também TRADICIONALISTAS, mas longe do CONSERVADORISMO e da monotonia melódica do BLUES. No fundo “seriam” JOHN LEE HOOKER redivivo expandindo o ensinamento e a pegada criada por HOOKER.

Ideia Maluca?

Então vamos lá: BOOM BOOM, clássico de HOOKER, “está” em “SHOULD I STAY OR SHOULD A GO “, HIT do THE CLASH, gravado 1977. E, mais ainda, em THE BEAR, de JOHN MAYALL, 1968.

BOOM BOOM permeia redefinido em PSICODELIA o hit cult de NORMAN GREENBAUN, “SPIRIT IN THE SKY”, 1969;

E, também, no TRANSGRESSIVO ACID ROCK “ON THE ROAD AGAIN”, dos caras da foto, o próprio CANNED HEAT, já notados em 1968 por velhinhos como o TIO SÉRGIO, aqui!

E só para citar alguns filhotes espirituais, quando não criadores de plágios escarrados daquele RIFF SEMINAL E RECORRENTE perpetrado por JOHN LEE…

E há mais, muito mais! Perguntem pro Valdir ZamboniAyrton Mugnaini Jr.Mauricio Dos Santos NascimentoClaudio Finzi FoáGeninho PintoKlaus SveignerGerson Périco

O CANNED HEAT faz isso desde sempre. E para sempre. Têm muitos discos gravados. Um deles, clássico , com o próprio JOHN LEE HOOKER.

Eles usam o PAU DE MACARRÃO MUSICAL para abrir a massa do BLUES. São tradicionalistas e revolucionários ao mesmo tempo. Um fenômeno!

É o BLUES ALTERNATIVO transitando pelo tempo: é sessentista ou cheirando grunge. Tem pra todo mundo! AHHH, o CANNED HEAT faz coisas algo “PROG”, mas sempre BLUES…

Por tudo isto, há quem os adore, como o TIO SÉRGIO! Existem uns poucos que nem tanto…

E você? Vai testar?

Vale a pena ir fundo.

RYIUICHI SAKAMOTO E ALVA NOTO!

Acordei no meio da madrugada pensando em SAKAMOTO. E tudo porque a minha última leitura, antes de embarcar nos sonhos, foi uma resenha crítica do disco ao vivo dele com “ALVA NOTO”: “TWO – LIVE AT SIDNEY OPERA HOUSE”.

ALVA, de quem jamais ouvira falar é, na definição da “RECORD COLLECTOR” , uma “compositora alemã minimalista”. E, para meu susto contido, é o quinto disco que os dois fazem juntos!!!

A moça organiza “abstrações eletrônicas, beeps, interferências, e vasto etc…” acompanhando RYIUICHI e suas improvisações ao piano. “SUSHI e CHUCRUTE” – dupla nipo-germânica.

A música é “acalmante e instigante”, para dizer o mínimo…

Mas, que mistérios e talentos têm esse mago monástico iluminado e perfeccionista, que singra o piano esculpindo músicas? E torna as composições de Tom Jobim, por exemplo, mais cintilantes do que sempre são?

Vejam os dois excepcionais discos disponíveis no Brasil gravados com JACQUES E PAULA MORELEMBAUM! O japa dá colorido ao brasileiro, que os três sabem “ser”.

E vai além. SAKAMOTO consegue casar-se ou justapor-se a outro estelar fugidio e solitário, DAVID SYLVIAN; duela com BOWIE, compôs incontáveis trilhas sonoras; vai do “tradicional moderno” à transvanguarda POP-JAZÍSTICA! Tudo junto ou em sequências impensáveis!

Esse “batráquio nipônico” é artista e músico excepcional!!!! Tenho quase nada do que ele gravou! De agora em frente, vou procurar mais.

Mas, o quê? Quais de seus discos ou fases?

A resposta que tenho para o mistério do moço, é o uivo uníssono das torcidas do FLAMENGO, LIVERPOOL, e KASHIVA ANTLERS: “NÃO SEI!, NÃO SEI!, NÃO SEI! Vou às cegas. E será difícil errar!!!

Conheçam o SAKAMOTO. A sonoridade que ele extrai do piano é bela, única e perfeita demais! Postagem original 17/01/2020

SEIJI OZAWA – EM 50 CDS – PELA DEUTCHE GRAMMOPHON

A toda vez em que me defronto com algo repelente ou absolutamente inaceitável para os meus valores, procuro um antídoto, uma vacina, qualquer coisa que me livre da visão ou sensação.

Dia desses, início da madrugada e zapeando pela televisão, caí em cena tenebrosa de um filme chamado “Em Luta pela Liberdade”, ou em busca… tanto faz. É sobre a condenação de um inocente a morte. Um tema que não digiro, não aceito, não assisto e não canso de mostrar o meu desprezo, oposição ou seja lá o quê for e contra quem for.

Sou radicalmente contrário e não importa o motivo da condenação.

Mudei imediatamente.

Caí, por sorte, em um concerto no Japão, com SEIJI OZAWA regendo a SEGUNDA e a SÉTIMA sinfonias de BEETHOVEN, com a “SAITO KINEN ORCHESTRA”, criada por ele em 1992 para divulgar músicos japoneses e sob o controle e a visão do grande maestro.

Claro, concerto no Japão, durante o FESTIVAL DE MATSUMOTO, em 2016. Um momento sublime, portanto.

SEIJI OZAWA é raro e precioso.

Nasceu na China, em 1935, durante a “ocupação japonesa”, e a família retornou ao Japão, em 1944.

Começou estudando piano, mas à semelhança de JOÃO CARLOS MARTINS, nosso grande pianista, machucou-se gravemente. SEIJI estava jogando RUGBY. Foi obrigado a largar o piano e passou a estudar regência.

OZAWA é possivelmente um gênio. Trabalhou com CHARLES MUNCH, VON KARAJAN e LEONARD BERNSTEIN. É um cara de vanguarda, incentivador de compositores contemporâneos em repertórios orquestrais. É encrenqueiro conhecido e regente de sonoridade, convicções e ideias muito originais.

Em meados da década de 1970, ouvi e comprei disco regido por ele com a SIMPHONIETA DE JANACECK, obra contemporânea que me deixou maluco – mas que não repus, ainda, em minha discoteca.

Comprei, também, uma cantata de BRAHMS, se não estou enganado, simplesmente imperdível.

O japa é esfuziante! Um regente de garra, grandiloquência sonora, e gestos precisos. E mesmo tendo gravado, e conhecer a fundo compositores como BEETHOVEN, entre vários, suas interpretações sempre são únicas, pessoais, talvez inusitadas. E mesmo eu, que deixei um pouco de lado a música clássica, jamais esqueço artistas como ele.

O que assisti, ontem, pareceu-me perfeito nas circunstâncias. SEIJI, com mais de oitenta anos, vestido de maneira informal à japonesa, velhinho mas quase lépido, cumprimentando e até confraternizando com seus músicos, regeu uma orquestra moderna, “multinacional/racial”, como quase certamente é a maioria das orquestras contemporâneas importantes.

A certeza do que pretendia com BEETHOVEN, a compreensão dos gestos até por mim, um leigo, para efetivar a regência; e aquela coisa indefinível, algo entre o celestial e o mundano elevado ao estado da arte, compensaram a minha quase incontida ira ao dar-me de frente com as ignomínias a que o mundo nos submete!

Publiquei um desejo imenso nesta foto e texto. Estou inclinado a correr risco e trazer este box para mim.

É a fase áurea de OZAWA. BOX com 50 cds em capas originais e, certamente, um livreto adequado para expor uma vida intensa, grandiosa, bela – arrogantemente bela! – por contraditório que eventualmente possa parecer!

SEIJI OZAWA, mesmo doente, continuava cabeludo, inquieto e decidido, sempre em linha com o contemporâneo. Está em vias de tornar-se imortal. É uma criatura em conformidade consigo mesma. Mas jamais em paz! O maestro é um rebelde com inúmeras causas; praticante da contestação e da ousadia, exercidas com método, proficiência, e uma peculiar forma de transmitir satisfação com os vários deveres cumpridos

Eu quero esse BOX! postagem original 17/01/2023

TRÊS DISCOS DE MÚSICA POPULAR DE VANGUARDA:

 THELONIOUS MONK & SONNY ROLLINS, DE 1953/54; ERIC DOLPHY NOS ESTERTORES DO BE BOP, EM 1960, JÁ ANTECIPANDO O FREE JAZZ; E O PRIMEIRO DISCO DO KING CRIMSON, DE 1969, PROPONDO UM NOVO JEITO DE FAZER O ROCK PROGRESSIVO, COM ELEMENTOS DA VANGUARDA E DO FREE JAZZ.

TALVEZ TENHAM EM COMUM O CONTROLE DA EXPLOSÃO MUSICAL QUE PROPUNHAM, REORGANIZANDO O CAOS QUE CRIAVAM E GERANDO UMA NOVA ESTABILIDADE HARMONIZANDO A PRÓPRIA DESTRUIÇÃO CRIATIVA QUE PROPUSERAM.
PODE SER UM JEITO DE VER A COISA.

“UM VERÃO NA GRÉCIA.” GRANDE FILME SOBRE TEMPOS DENSOS: 1967/1969, MÚSICA, POLÍTICA, MUDANÇAS SOCIAIS…

 Os cinco CDS aqui postados foram lançados pela excelente RHINO RECORDS, no início da década de 1990.

Coligem o fino do “GARAGE ROCK” e do “SUNSHINE POP”, uma das fases mais interessante, criativa e bonita da música POP.

“SUMMER OF LOVE”, em dois volumes, foca no SUNSHINE POP, o misto de ROCK PSICODÉLICO mais leve, e música dançável e alto astral.

A série NUGGETS traz GARAGE BANDS e também SUNSHINE POP. E se baseia, mas vai além do colecionável LP DUPLO ORIGINAL, lançado nos anos 1970.

Foi o primeiro álbum a trazer parte da História, e principalmente legitimidade, para o ROCK DE GARAGEM de bandas desconhecidas que se tornaram míticas: SEEDS, CHOCOLATE WATCH BAND, ELECTRIC PRUNES, e incontáveis… hoje, monumentos da discografia imprescindível sobre a década de 1960.

A trilha sonora do filme é composta de músicas e artistas conhecidos naqueles tempos: MAMAS & THE PAPAS, ANIMALS, PROCOL HARUM…

Mas, curiosidade interessante: a quase totalidade das versões foi feita por bandas italianas daqueles tempos; e algumas bem legais! Instigantes! No mundo inteiro, “aconteceram” bandas copiando ou vertendo esses grandes clássicos…

A melhor música da trilha aparece em versão original. É um CULT meio esquecido do “POP – BARROCO – PSICODÉLICO – PROGRESSIVO” (Ufa!!!): a longa, densa e sofisticada ELOISE, com BARRY RYAN. Procure conhecer. Um ÉPICO POP sensacional!!!

E, lá vai o filme.

UM VERÃO NA GRÉCIA, ( LA SYNDROME DI ANTONIO ) 2016

DIREÇÃO: CLAUDIO ROSSI MAXIMI, COM QUERALT BADALAMENTI ( MARIA ) E BIAGIO IACOVELLI (ANTONIO)

É o melhor filme que assisti em 2021!

Profundamente humano, política e existencialmente inquietante; cheio de referências e diálogos profundos; e visitas por conhecidos lugares históricos.

Claro, permeado por algum humor, nem sempre refinado, como o bom cinema italiano geralmente traz. E tudo sintetizado em menos de duas horas.

Assisti-lo é muito prazeroso, e deve ser revisto algumas vezes, principalmente pelos quê se interessam por dilemas daquela geração, suas repercussões; conquistas, ganhos, perdas, oportunidades não identificadas, e vívidas frustrações.

Eu “estive lá”, digamos….

A vida pode ser lida como a construção de uma grande MANDALA. É frágil, bela, feia, às vezes… E a sua regra maior e mais frustrante é a IMPERMANÊNCIA de tudo… É muito trabalho realizado, que pode ser destruído por sopros de vento.

Literalmente, o resultado e a resposta estão “BLOWING IN THE WIND”…, como cantam dois chatos pertinentes e imprescindíveis: BOB DYLAN e o deputado paulista EDUARDO SUPLICY…

O grande momento daquela geração, a minha, foi a sequência explosiva e rica, abrangendo meados da década de 1960 até 1975, mais ou menos.

O ponto existencial, artística e politicamente culminantes foi 1968. Houve rebeliões, e confrontos geracionais no mundo inteiro.

Atingiu os ESTADOS UNIDOS, passou por toda a EUROPA democrática, principalmente FRANÇA, ALEMANHA e INGLATERRA…

Com resquícios na TCHECOSLOVÁQUIA, comunista, mas com certas liberdades interrompidas com a invasão soviética na PRIMAVERA de PRAGA, 1968.

A rebelião global chegou à ARGENTINA e URUGUAI; ao CHILE e ao BRASIL, também – enquanto houve liberdades e democracia…

Foi período político coalhado de ditaduras. E por prazeres explícitos liberados pelas inovações científicas e comportamentais, como a liberação que a pílula anticoncepcional trouxe às mulheres.

Tempo rico, nobre e denso E, torpe ao mesmo tempo. Pode-se alterar a ordem desses 4 fatores como se quiser…A vida ainda é mais ou menos assim…

“UM VERÃO NA GRÉCIA”, é uma pequena obra de arte.

As tramas acontecem em 1969/1970. E um dos subtemas é o reflexo disso tudo na ITÁLIA. E na GRÉCIA, principalmente, governada por um coronel golpista e sanguinário de nome PAPADOPOULOS – já acomodado na lixeira da História.

O roteiro mostra a construção de uma curta história de amor, interrompida pela distância, por dúvidas, e a inexperiência principalmente de ANTONIO. Tudo vem mesclado à filosofia, política e arquitetura. E com ensinamentos da mitologia grega, seus “deuses-espelhos” cheios de boas qualidades, defeitos, maldades, intrigas, perfídias e taras. ( na dúvida, visite o planeta TERRA).

O mesquinho e o sublime mesclados e identificáveis na História humana em todos os tempos. Deuses e mitos humanos até demais!

O primeiro personagem principal é ANTONIO, um jovem estudante italiano interessado por filosofia e mitologia; inteligente, crítico, algo recatado e sonhador; que, ao formar-se no ensino médio, faz viagem de carro à GRÉCIA para seguir os passos, visitar locais, e verificar ensinamentos de seu ídolo: PLATÃO – o inventor do conceito de ALMA.

ANTONIO procura identificar em si mesmo os fundamentos básicos da filosofia platônica: instinto, emoção, razão. Mas, está principalmente interessado em outro aspecto enfatizado por PLATÃO: a IGUALDADE, que inspirou politicamente todo o pensamento da esquerda, do final do século XIX, em diante.

Para ANTONIO, era CHE GUEVARA e a militância peripatética pela AMÉRICA LATINA, quem incorporava a figura de PLATÃO.

E aqui entra a cálida, graciosa, inteligente, corajosa e progressista MARIA. A garota grega que estudara na Itália, e indicada por um amigo para orientar as buscas de ANTONIO.

Ela é o modelo de feminista que admiro. Em vez das vulgares e tão faladas, como LEILA DINIZ, por exemplo. Ou as ditas liberadas que vemos cotidianamente expostas no açougue de carne humana.

MARIA é arrebatamento e charme, na medida … digamos, certa. Suas intervenções irônicas e inteligentes; e as engraçadas e corrosivas manifestações de ciúmes, que todo homem casado, ou comprometido, já assistiu alguma vez, são inesquecíveis porque humanas demais…

Deixo o desenrolar para vocês assistirem.

E vou comentar sobre o sutil tema central do filme: a IMPERMANÊNCIA. E as fugazes oportunidades que a vida apresenta. Mas que, se não percebidas, muitas vezes determinam perdas insuperáveis…

Entre o arrependimento e o remorso oscila a MANDALA que cada um de nós constrói. E a sorte sempre está lançada.

Porque são demais os perigos dessa vida….

Ouça as músicas, e assista ao filme!

TEMPOS DENSOS: 1967/1969, MÚSICA, POLÍTICA, MUDANÇAS SOCIAIS… E UM GRANDE FILME SOBRE TUDO ISTO: “UM VERÃO NA GRÉCIA.”

Os cinco CDS aqui postados foram lançados pela excelente RHINO RECORDS, no início da década de 1990.

Coligem o fino do “GARAGE ROCK” e do “SUNSHINE POP”, uma das fases mais interessante, criativa e bonita da música POP.

“SUMMER OF LOVE”, em dois volumes, foca no SUNSHINE POP, o misto de ROCK PSICODÉLICO mais leve, e música dançável e alto astral.

A série NUGGETS traz GARAGE BANDS e também SUNSHINE POP. E se baseia, mas vai além do colecionável LP DUPLO ORIGINAL, lançado nos anos 1970.

Foi o primeiro álbum a trazer parte da História, e principalmente legitimidade, para o ROCK DE GARAGEM de bandas desconhecidas que se tornaram míticas: SEEDS, CHOCOLATE WATCH BAND, ELECTRIC PRUNES, e incontáveis… hoje, monumentos da discografia imprescindível sobre a década de 1960.

A trilha sonora do filme é composta de músicas e artistas conhecidos naqueles tempos: MAMAS & THE PAPAS, ANIMALS, PROCOL HARUM…

Mas, curiosidade interessante: a quase totalidade das versões foi feita por bandas italianas daqueles tempos; e algumas bem legais! Instigantes! No mundo inteiro, “aconteceram” bandas copiando ou vertendo esses grandes clássicos…

A melhor música da trilha aparece em versão original. É um CULT meio esquecido do “POP – BARROCO – PSICODÉLICO – PROGRESSIVO” (Ufa!!!): a longa, densa e sofisticada ELOISE, com BARRY RYAN. Procure conhecer. Um ÉPICO POP sensacional!!!

E, lá vai o filme.

UM VERÃO NA GRÉCIA, ( LA SYNDROME DI ANTONIO ) 2016

DIREÇÃO: CLAUDIO ROSSI MAXIMI, COM QUERALT BADALAMENTI ( MARIA ) E BIAGIO IACOVELLI (ANTONIO)

É o melhor filme que assisti em 2021!

Profundamente humano, política e existencialmente inquietante; cheio de referências e diálogos profundos; e visitas por conhecidos lugares históricos.

Claro, permeado por algum humor, nem sempre refinado, como o bom cinema italiano geralmente traz. E tudo sintetizado em menos de duas horas.

Assisti-lo é muito prazeroso, e deve ser revisto algumas vezes, principalmente pelos quê se interessam por dilemas daquela geração, suas repercussões; conquistas, ganhos, perdas, oportunidades não identificadas, e vívidas frustrações.

Eu “estive lá”, digamos….

A vida pode ser lida como a construção de uma grande MANDALA. É frágil, bela, feia, às vezes… E a sua regra maior e mais frustrante é a IMPERMANÊNCIA de tudo… É muito trabalho realizado, que pode ser destruído por sopros de vento.

Literalmente, o resultado e a resposta estão “BLOWING IN THE WIND”…, como cantam dois chatos pertinentes e imprescindíveis: BOB DYLAN e o deputado paulista EDUARDO SUPLICY…

O grande momento daquela geração, a minha, foi a sequência explosiva e rica, abrangendo meados da década de 1960 até 1975, mais ou menos.

O ponto existencial, artística e politicamente culminantes foi 1968. Houve rebeliões, e confrontos geracionais no mundo inteiro.

Atingiu os ESTADOS UNIDOS, passou por toda a EUROPA democrática, principalmente FRANÇA, ALEMANHA e INGLATERRA…

Com resquícios na TCHECOSLOVÁQUIA, comunista, mas com certas liberdades interrompidas com a invasão soviética na PRIMAVERA de PRAGA, 1968.

A rebelião global chegou à ARGENTINA e URUGUAI; ao CHILE e ao BRASIL, também – enquanto houve liberdades e democracia…

Foi período político coalhado de ditaduras. E por prazeres explícitos liberados pelas inovações científicas e comportamentais, como a liberação que a pílula anticoncepcional trouxe às mulheres.

Tempo rico, nobre e denso E, torpe ao mesmo tempo. Pode-se alterar a ordem desses 4 fatores como se quiser…A vida ainda é mais ou menos assim…

“UM VERÃO NA GRÉCIA”, é uma pequena obra de arte.

As tramas acontecem em 1969/1970. E um dos subtemas é o reflexo disso tudo na ITÁLIA. E na GRÉCIA, principalmente, governada por um coronel golpista e sanguinário de nome PAPADOPOULOS – já acomodado na lixeira da História.

O roteiro mostra a construção de uma curta história de amor, interrompida pela distância, por dúvidas, e a inexperiência principalmente de ANTONIO. Tudo vem mesclado à filosofia, política e arquitetura. E com ensinamentos da mitologia grega, seus “deuses-espelhos” cheios de boas qualidades, defeitos, maldades, intrigas, perfídias e taras. ( na dúvida, visite o planeta TERRA).

O mesquinho e o sublime mesclados e identificáveis na História humana em todos os tempos. Deuses e mitos humanos até demais!

O primeiro personagem principal é ANTONIO, um jovem estudante italiano interessado por filosofia e mitologia; inteligente, crítico, algo recatado e sonhador; que, ao formar-se no ensino médio, faz viagem de carro à GRÉCIA para seguir os passos, visitar locais, e verificar ensinamentos de seu ídolo: PLATÃO – o inventor do conceito de ALMA.

ANTONIO procura identificar em si mesmo os fundamentos básicos da filosofia platônica: instinto, emoção, razão. Mas, está principalmente interessado em outro aspecto enfatizado por PLATÃO: a IGUALDADE, que inspirou politicamente todo o pensamento da esquerda, do final do século XIX, em diante.

Para ANTONIO, era CHE GUEVARA e a militância peripatética pela AMÉRICA LATINA, quem incorporava a figura de PLATÃO.

E aqui entra a cálida, graciosa, inteligente, corajosa e progressista MARIA. A garota grega que estudara na Itália, e indicada por um amigo para orientar as buscas de ANTONIO.

Ela é o modelo de feminista que admiro. Em vez das vulgares e tão faladas, como LEILA DINIZ, por exemplo. Ou as ditas liberadas que vemos cotidianamente expostas no açougue de carne humana.

MARIA é arrebatamento e charme, na medida … digamos, certa. Suas intervenções irônicas e inteligentes; e as engraçadas e corrosivas manifestações de ciúmes, que todo homem casado, ou comprometido, já assistiu alguma vez, são inesquecíveis porque humanas demais…

Deixo o desenrolar para vocês assistirem.

E vou comentar sobre o sutil tema central do filme: a IMPERMANÊNCIA. E as fugazes oportunidades que a vida apresenta. Mas que, se não percebidas, muitas vezes determinam perdas insuperáveis…

Entre o arrependimento e o remorso oscila a MANDALA que cada um de nós constrói. E a sorte sempre está lançada.

Porque são demais os perigos dessa vida….

Ouça as músicas, e assista ao filme!

JEFF BECK: FLASHES DA CARREIRA DE UM GÊNIO!

-” NÃO PARA, NÃO!!! CONTINUA TOCANDO !!! TÁ MUITO BOM!!!!
– MAS, STEVIE, EU NÃO SOU BATERISTA!!!
– SEGUE, PÔ!!! O CACHÊ É POR MINHA CONTA…”

Certo dia em 1972, STEVIE WONDER entrou dançando no estúdio ELECTRIC LADYLAND, em NOVA YORK onde, meio em segredo, estava gravando para depois tentar fechar novo acordo financeiro com a MOTOWN RECORDS.
O disco tornou-se “TALKING BOOK”, o início da renovação vitoriosa de sua espetacular carreira!
Foi assim: JEFF BECK, um dos músicos que participava da sessão, adorava “brincar” na bateria quando ninguém estava olhando…
E WONDER o viu fazendo o RIFF de entrada do que viria a ser “SUPERSTITION”, um de seus clássicos!
Gravaram imediatamente a “DEMO”. A MOTOWN aprovou, e renovou o contrato de STEVIE WONDER por muito mais grana, além de garantir maior liberdade artística para ele criar…
A música foi cedida a JEFF BECK, como parte de pagamento da sessão. E o nosso herói comentou que, sem querer, tornou-se parceiro em um dos GRANDES RIFFS da História, tanto da bateria quanto do teclado desenvolvido por STEVIE WONDER!
Inesquecível!
O acaso é um grande realizador! E demolidor implacável, também! A sorte às vezes está lançada…
JEFF BECK começou a estudar piano aos quatro anos de idade. Um dia, arrancou tecla do instrumento…A mamãe BECK percebeu que o “instrumento” do garoto era outro…
Com 8 anos de idade, ele construiu uma guitarra para imitar seu ídolo, CLIFF GALLUP, o guitarrista de GENE VINCENT, figura central do histórico ROCK AND ROLL. Aliás, também um dos ídolos de JIMMY PAGE.
Os dois se conheceram porque a irmã de JIMMY estudava com JEFF. Um dia foi visita-la e, enquanto mamãe PAGE fazia um chá, os dois ficaram tocando…
Precoce desde sempre, e inventor de instrumentos e sonoridades, BECK foi se enturmando até ficar meio conhecido com os TRIDENTS, onde tocou por quase 2 anos, e aprendeu a tirar sons e a fazer “ruídos”… JEFF BECK sempre se interessou por tecnologia, experimentações e máquinas…
JIMMY PAGE lá por 1964/65 já faturava bem tocando em estúdios. E quando CLAPTON deixou os YARDBIRDS porque discordava da opção pelo POP ROCK, ele foi a primeira opção para substitui-lo…
Mas, não topou. E indicou BECK.
JEFF depois de um SHOW foi quase sequestrado por GIORGIO GOMELSKY, o “empresário” da banda que, bem ao estilo máfia russa da época, “o convenceu” que uma banda TOP precisava de um guitarrista, os dois foram ao MARKEE CLUB.
Eram os YARDBIRDS.
FOR YOUR LOVE, com CLAPTON na guitarra, havia ido muito bem, em 1965, e a maior parte do time queria seguir por ali…
Mas, BECK trouxe inovações no uso da guitarra, e foi muito além de GEORGE HARRISON, em “I FEEL FINE”, outro marco pouco reconhecido…
Suas ideias futuristas grudaram na performance da banda, e os SINGLES fabulosos em sua curta era, HEART FULL OF SOUL, OVER, UNDER, SIDEWAYS DOWN, YOU ARE BETTER MAN THAN I; e outras gravações seminais, algumas com PAGE na segunda guitarra, como HAPPENING TEN YEARS TIME AGO, revolucionaram e “liberaram” a guitarra no ROCK, em meados da década de 1960.
Quando entrou para os YARDBIRDS, JEFF BECK logo percebeu a diferença. O sucesso com a mulherada era total. A VAN da banda estava sempre com marcas de batom, telefones, endereços e os etcs… que compõe o sucesso entre as groupies e fãs.
BECK É PRIMEIRO SÍMBOLO DO NOVO JEITO DE TOCAR E FAZER AS GUITARRAS SOAREM. Certamente influenciou a sonoridade de CLAPTON no CREAM; que, por sua vez, influenciou JIMI HENDRIX…
E la nave va….

É interessante especular sobre as tendências artísticas de CLAPTON, PAGE E BECK. Claro, são todos interessados no BLUES e no ROCK; mas diferentes entre si.
CLAPTON era e permaneceu um BLUES MAN, mesmo também sendo excepcional no POP SOFISTICADO, que passou a desenvolver do início dos anos 1970, e até hoje.
No caminho, derivou um pouco para o REGGAE; depois foi paulatinamente na direção do POP JAZZ, e até com certo retrogosto de BOSSA NOVA.
Há um diferencial insuperável em favor de CLAPTON: Ele SABE CANTAR muito bem. E isto sempre fez toda a diferença!
JIMMY PAGE é um grande produtor, essencialmente de HARD ROCK, e com incursões no FOLK, audíveis em quaisquer discos do LED ZEPPELIN.
Por mais de uma década, teve a seu lado ROBERT PLANT, um dos grandes vocalistas de todos os tempos e eras, vantagem incontrastável para quem tem nenhum talento vocal, e todo talento para tocar guitarra, produzir …

JEFF BECK é um inventor de sonoridades e guitarrista incomparável. Mas, sempre foi limitado por não contar com talento para o vocal. Então, optou estudada, mas definitivamente pelo instrumental, trazendo vez por outra, alguém para cantar.
Desenvolver a carreira foi mais difícil para ele, que é o mais criativo de todos.
BECK extrapolou o BLUES ROCK em TRUTH, 1968; e BECK-OLA,1969, quando também reinou ROD STEWART, em disputa com o próprio BECK pela primazia na banda.
Tinha de acabar como terminou: cada um seguiu carreira solo vitoriosa.
Mas JEFF, em vez do BLUES, buscou seguidamente o RHYTHM´N´BLUES, onde explorou o estilo da MOTOWN; e passou pelo da STAX em discos como ROUGH AND READY, 1971; ou JEFF BECK, 1972 – este produzido STEVE CROPPER.
Ele aguardou mais de uma década para desaguar na DISCO e na DANCE MUSIC, com FLASH, 1985, disco produzido alternadamente por NILE RODGERS e ARTHUR BAKER.
Fez esses três excelentes álbuns de BLACK MUSIC, e com a marca indelével de seu criador.
JEFF BECK sempre soube a medida perfeita no uso dos experimentos e tecnologias de vanguarda. Adaptou-se à modernidade no decorrer dos tempos. E jamais perdeu o elo com a música bela, melodiosa e refinada, que “emprestou”, inclusive, para outros artistas.

Sua incursão no FUSION JAZZ foi posterior a outro inglês imenso, o guitarrista JOHN McLAUGHLIN, que inaugurou o estilo na banda de MILES DAVIS, com o seminal e definitivo “IN A SILENT WAY, lançado em 1969.
JEFF BECK, fez seu primeiro experimento na FUSION com RHAYNES PARK BLUES, rebatizada “MAX TUNE”, faixa de ROUGH AND READY, 1971. Está lá toda a conjugação guitarra / teclados que PAT METHENY e LYLE MAYS desenvolveram 8 anos após na gravadora ECM – que se especializou nessa FUSION CLIMÁTICA à europeia.
Depois, houve a experiência entre 1972 e 1973, com o “BECK, BOGERT & APPICE”, o POWER TRIO que mesclava /BLUES/R&B/HARD ROCK/ e algum PROG. E sempre exagerando na performance, mas com notórias deficiências nos vocais!
Aí foi a gota d’água.
Mesmo que os discos, principalmente o AO VIVO GRAVADO NO JAPÃO, tivessem atingido sucesso de vendas…
A conversão definitiva de BECK à FUSION consolidou-se em um de seus discos mais famosos: BLOW BY BLOW, produzido em 1975 por GEORGE MARTIN, ícone dos estúdios, e responsável pelos BEATLES e outros astros.
MARTIN trouxe a contenção exata para JEFF “performar”, daí em frente, em outros albuns.
É bom observar que os vídeos, SHOWS e discos ao vivo de JEFF BECK oscilam entre o excelente e o espetacular!
Há vários, expondo seu bom gosto e técnica refinada.
É minha opinião que JEFF BECK ultrapassou artisticamente JIMMY HENDRIX.
Seria? 

DAVE CLARK 5 – ALL THE HITS – JANEIRO 2020

O mais esperto entre os ídolos POP, raciocínio rápido, frieza e ousadia o tornaram o primeiro entre os grandes a tomar conta da própria vida, catálogo e negociações.

DAVE CLARK enriqueceu rápido. Saiu do mercado na hora certa – 1970 -, e permaneceu rico, ídolo e mito nos últimos 50 anos.

E o que ROBERT FRIPP, do KING CRIMSON, demorou dez anos para perceber, CLARK conseguiu antes de assinar contratos. A parte do leão sempre foi deles. Entre vários motivos porque financiaram os próprios discos, que venderam mais de 100 milhões de unidades no período áureo 1965/1970. Eram, de fato, os únicos concorrentes sérios para os BEATLES, nos EUA.

Em 2020, lancaram outra super coletânea. E, depois dela, virá toda a discografia, em Lps, CDs e BOX SET. Os fãs vão corresponder, certamente. Vejam aqui a entrevista dele na “RECORD COLLECTOR DE JANEIRO 2020”.