ANNIE HASLAN, RENAISSANCE E CARREIRA SOLO.

O RENAISSANCE e ANNIE HASLAN são grandes. Fazem um misto de FOLK/POP LIGHT e ROCK PROGRESSIVO SINFÔNICO. Realizaram discos muito legais e artisticamente inovadores.

O RENAISSANCE foi uma das vertentes da prolífica linhagem inaugurada pelos YARDBIRDS, que legaram ERIC CLAPTON, JIMMY PAGE e JEFF BECK, os três na gênese do HARD-ROCK e do HEAVY METAL. E, também do ROCK PROGRESSIVO.

O RENAISSANCE começou como projeto de KEITH RELF e JIM McCARTHY, vocalista e baterista da nova banda, em 1968.

Gravaram dois LPs seminais, em sentido diametralmente oposto ao dos outros integrantes, mesclando FOLK, MÚSICA RENASCENTISTA, PSICODELIA e POP MELÓDICO.

A vocal feminino era de JANE RELF, irmã de KEITH. Um cantar algo lúgubre. Mas, claro, já eram ROCK PROGRESSIVO. E, com o tempo, transformaram-se no ILUSION, mais ou menos na linha do RENAISSANCE.

Com ANNIE HASLAN, nos vocais, e mudança radical na formação, o RENAISSANCE foi um grande sucesso, na década de 1970.

Ouçam e tenham “PROLOGUE”, de 1971; e “ASHES ARE BUURNING”, 1972; os dois primeiros discos da nova fase, e que sintetizam muito bem o conceito que pretendiam seguir.

Os discos finais, em torno dos anos 1980, são algo medianos, e com uso de sintetizadores, como pediam aqueles tempos.

ANNIE é pessoa encantadora. Conta-se, que fãs do RENAISSANCE a abordaram, no CANADÁ, se não estou enganado. E a convidaram para fazer apresentações no BRASIL. Ela adorou, e veio mesmo, anos atrás.

ANNIE andou outras vezes por aqui; e há vídeo amador com ela e fãs cantando e tomando caipirinhas, no RIO DE JANEIRO. Há um CD gravado ao vivo em PETRÓPOLIS, no Rio de Janeiro chamado, chamado “UNDER BRAZILIAN SKIES”. E outro pirata e delicioso, gravado com o FLAVIO VENTURINI & BANDA.

ANNIE e VENTURINI são, de certa forma, artistas afins e complementares.

A carreira solo de ANNIE é interessante, e o primeiro disco, de 1977, “ANNIE IN THE WONDERLAND, é um clássico do CROSSOVER/FUSION de POP-NEW AGE e ROCK PROGRESSIVO. Teve a produção instigante e luxuosa de ROY WOOD, que foi marido dela, e mago da música alternativa

ROY era mentalmente instável, e deu vida ao THE MOVE, ao WIZZARD, e fundou a ELECTRIC LIGHT ORCHESTRA, com JEFF LINNE, no ínício da década de 1970. Um consórcio sacro-iconoclasta, e certamente imperdível!!!!!

O álbum “ANNIE HASLAN”, gravado em de 1989, foi produzido por MIKE OLDFIELD, e tem participação e música composta por JUSTIN HAYWARD, dos MOODY BLUES – outra banda estilisticamente muito próxima ao RENAISSANCE.

É nele onde está a linda “MOONLIGHT SHADOW”, que toca em rádios FM mundo afora.

ANNIE é a precursora/inspiradora de KATE BUSH, ENYA e FLORENCE & THE MACHINE, certamente outras várias. Ela tornou-se modelo e referência para o NEW AGE MUSIC, com acento FOLK e muita doçura no repertório.

Seu repertório é quase “baba”; mas só tangencia. Tudo o que ANNIE HASLAN gravou é delicioso e de bom gosto. ANNIE não é para diabéticos; e muito menos para demoníacos.

Desfrutem sem moderação.

TIO SÉRGIO a respeita e adora!

RYIUCHI SAKAMOTO, MÚSICO SUPERDOTADO.

Os que não conhecem o japonês saberão o quê perdiam quando o conhecerem.

É um virtuose do piano, teclados e da produção. E, mais que isso: é um arrojado intérprete e compositor.

Vai da música POP à VANGUARDA ELETRÔNICA. Fez TRILHAS SONORAS, também; e gravou e tocou TOM JOBIM com mestria e originalidade irrepreensíveis!

RYUICHI SAKAMOTO, que faleceu em 2023, era um dos maiores pianistas de sua geração.

De formação acadêmica impecável; e alma com estadia em botequins, conjunção astral de imensos predicados para um artista dedicado à música popular. Tudo o que legou é de refinamento ímpar!

Na década de 1960, dizia-se pejorativamente que “havia japonês no samba”, quando alguma percussão, arranjo ou execução não rolavam. Isto parou.

E deixou de ser verdade porque os japoneses são, hoje, os maiores recuperadores, preservadores e colecionadores da música brasileira neste planeta, e em sua órbita!

Eles tratam com afeto e devoção do SAMBA DE MORRO, à BOSSA NOVA; de CARTOLA a PAULINHO DA VIOLA; e passando por TOM JOBIM, IVAN LINS, MILTON NASCIMENTO, EGBERTO GISMONTI, GIL, CAETANO…e centenas de perdidos que só por lá você encontra os discos, se quiser escutar ou adquirir…

OS JAPONESES SÃO OS CURADORES DO MUSEU VIVO DA RIQUEZA MUSICAL DE MUITOS POVOS!

Eu sou catador de coisas nas lojas virtuais do Japão. Eles são espetaculares em quase tudo. Fazem o mesmo com o ROCK, o POP, o BLUES, o COUNTRY, sabe-se lá mais de onde, ou o quê?

Sempre dedicados e com a disciplina e o “minimalismo perfeccionista” que nós, brasileiros, ironizamos mas admiramos porque bonito, eficiente e eficaz.

Eles são os historiadores da cultura popular que a imensa maioria dos países não tem a capacidade, ou determinação para fazer ou proteger.

BRASIL, incluído.

SAKAMOTO fez a trilha para o filme FURYO, EM NOME DA HONRA, em que DAVID BOWIE também atua com brilho!

RYUICHI tem discos intrigantes e experimentais, como este DISCORD, 1998; um ELETRÔNICO DE VANGUARDA mesclado à MÚSICA DE CÂMARA CONTEMPORÂNEA. E é “NOISE”…, sim! Vale a pena “instilar” gotas dele na alma…

Gravou, também, com o inglês DAVID SYLVIAN, que era do JAPAN, talvez menos acaso do que se suporia…

Procurem saber sobre esse artista, também. Um dos mais criativos dos últimos 35 anos, juntamente com a islandesa BJORK – ambos sobreviventes e transcendentes do ROCK dos 1980.

O Japa era antenado. Atuava em vários estilos, e com gente tão diferente; experiências que o tornaram um eclético seletivo imprescindível para quem se interessa e gosta de música diferenciada.

E ele nos prospectou muito de perto. Observem os dois CDs do trio MORELENBAUM2/ SAKAMOTO: CASA e A DAY IN NEW YORK, lançados em 2000 e em 2002. São fáceis de achar na Internet; e talvez ainda seja possível adquirir a cópia nacional.

São discos que trazem basicamente composições de TOM JOBIM. “CASA” foi gravado no estúdio na residência do próprio TOM, no Rio de Janeiro, e RIYUCHI toca no piano do maestro. É lindo, brasileiro, e sem deixar de ser universal.

É a nossa alma estudada por três músicos excelentes e dedicados, que acrescentam nuances aos clássicos e standards que o mundo inteiro já conhece.

E “DAY” ( IN NEW YORK ) é igualmente refinado e gostoso, e vai na mesma linha romântico-contida, por assim dizer. Foi gravado em NOVA YORK, no dia seguinte ao final da turnê que fizeram usando o repertório que desenvolveram na estrada.

JACQUES MORELEMBAUM é violoncelista em nível internacional, e PAULA, a mulher dele, é boa cantora, adequada para a nova MPB e, principalmente, para recordar a BOSSA NOVA. São dois CDs legais de ouvir e ter.

Cada um pode ter o SAKAMOTO que preferir. Eu aposto nesses aqui aqui. Por enquanto. O tempo trará outros.

MADELEINE PERROUX – SECULAR HYMNS – 2017

O DISCO É UMA AVENTURA ANTROPOLÓGICA. E FOI GRAVADO EM IGREJINHA DE QUASE DEZ SÉCULOS (!!!), NO INTERIOR DA INGLATERRA, EM 2016.

A CAPTAÇÃO TEM ACÚSTICA PERFEITA E NOS DEIXA A SENSAÇÃO DOS TEMPOS E VIDAS QUE HABITARAM O LOCAL. O CLIMA É DE “ACONCHEGO ANCESTRAL”, POR ASSIM DIZER…

O REPERTÓRIO É CULT E INUSITADO. ALGO BLUESY RESVALANDO PARA O FOLK E UM VERNIZ JAZÍSTICO, PASSA POR TOM WAITS E WILLIE DIXON, EM MEIO A OUTROS ACHADOS.

A PARTE INSTRUMENTAL É PRIMOROSA, MESMO COM CERTAS LIMITAÇÕES VOCAIS INCOMUNS EM MADELEINE. QUE SEMPRE É INTERESSANTE E BOA CANTORA.

TUDO EMBALADO EM CHARME COMPLEMENTAR: FOI LANÇADO PELA IMPULSE RECORDS!

VALE A TENTATIVA. NÃO PERCAM!

CURTIS MAYFIELD – ARTE E MILITÂNCIA

 

CURTIS MAYFIELD COMBINAVA MILITÂNCIA SOCIAL E POLÍTICA PELOS DIREITOS CIVIS E, PRINCIPALMENTE, A CONSCIÊNCIA NEGRA. E FAZENDO ARTE DE QUALIDADE.

ENTRE 1961 E 1996, CONSTRUIU CARREIRA PROLÍFICA. PRIMEIRO, COM O GRUPO SOUL “THE IMPRESSIONS”, DE BASTANTE SUCESSO ATÉ 1970. E, DAÍ PARA FRENTE, COMO ARTISTA SOLO, PRODUTOR MUSICAL E EMPREENDEDOR.

“SUPERFLY”, CONSAGRADA TRILHA SONORA DE 1972, COMPOSTA POR MAYFIELD; “WHAT´S GOING ON”, DE MARVIN GAYE, EM 1970; E “INNERVISION”, DE STEVIE WONDER, SÃO TIDOS COMO GRANDES PILARES DA MODERNA BLACK MUSIC ENGAJADA E CONSCIENTE. CURTIS ERA CONSIDERADO ESTILISTA NA GUITARRA, E RECEBEU EM VIDA A CONSAGRAÇÃO QUE MERECIA.

AQUI ESTÃO 4 DISCOS BEM REPRESENTATIVOS DA CRIATIVIDADE DE MAYFIELD:

O BOX LUXUOSO EDITADO PELA GRAVADORA RHINO, EM 1996, FAZ ÓTIMO APANHADO GERAL DA CARREIRA. E, TAMBÉM, “SUPERFLY”, EDIÇÃO DUPLA E TAMBÉM GRAFICAMENTE BELÍSSIMA DA MESMA RHINO.

E, PARA CELEBRAR A OBRA DE CURTIS MAYFIELD, UM TRIBUTO FEITO POR VÁRIOS ARTISTAS, EM 1993.

ESTA LÁ FAIXA DE JERRY BUTTLER, PARCEIRO NOS “IMPRESSIONS” E GRANDE CANTOR NEGRO, FAZENDO “CHOICE OF COLOUR”, HIT EMBLEMÁTICO DE CURTIS MAYFIELD. E NESTA GRAVAÇÃO A SIMBIOSE PERFEITA ENTRE O “R&B: E A :SOUL MUSIC”, ARREMATADO POR UM “RAP” TOTALMENTE INTEGRADO AO CONTEXTO DA MÚSICA. IMPERDÍVEL!

UM ACIDENTE INUSITADO E HORROROSO DEIXOU CURTIS TETRAPLÉGICO, EM 1996. UM CANHÃO DE LUZ, O TAL “SUPERTRUPPER”, DESABOU SOBRE ELE DURANTE UM SHOW! NINGUÉM MERECE! ELE MENOS AINDA…

FAÇO, AQUI, O MEU TRIBUTO E CONSIDERAÇÃO À GRANDEZA PRODUTIVA E HUMANA DE CURTIS MAYFIELD.

ESCUTEM.

ANITTA E A DANÇA DO “QUEBRA-BUNDA” – “IN MEMORIAM”…

 

Foi inevitável. E chegou a hora quando me rendi ao mito!

Não, queridos, não estou falando do BOLSONARO, mas da ANITTA.

No final de 2018 assisti a seu “concerto” na televisão!

O que achei?

Bom, ela é pequenininha, bonitinha e não tem ideia do que é cantar. E as letras que balbucia são incompreensíveis para os não iniciados.

Entendi nada e menos ainda do novo hit da menina: chato, monorrítmico, arrastado, usando uma orquestra de comunidade para nada. Palavras seguidas por palavras e fazendo sentido nenhum. Som e quase fúria ( uterina ?) “meaning nothing”.

O show foi mitológico! Em um dos sentidos possíveis da palavra mito: algo que sempre existiu, mas não aconteceu. E foi perfeito; PLAY BACK TOTAL!

E sei lá o que o povo achou dele. A Globo não mostrou uma única vez a plateia. Por que será, heim!

Meu falecido tio, NENÊ GARINI, garantia existir um parafusão no umbigo que servia para segurar a bunda evitando que ela caísse. E achava um perigo rebolar demais, porque afrouxava o parafuso e desmontava a estrutura nadegal…

Assistindo a garotada rebolando os glúteos, nessa espécie de “DANÇA DO QUEBRA-BUNDAS”, eu lembrei do velho NENÊ GARINI. E fiquei esperando por bundas várias dispersas pelo palco, em confusão total; e cada um procurando a sua sem encontrar.

Mas, como cantou RITA LEE, “Tá na moda”.

Eu sou velho tolerante, de uma geração que viu de tudo e sabe que o sexo não foi inventado nos anos 1980…

Sei, também, que não é verdade quando se diz que a música de ontem era melhor do que a de hoje. Sempre existiu o ruim, o medíocre, e o popularesco sentimentaloide travestido de emoções não filtradas pelo intelecto.

Os nossos grandes artistas continuam. E os pequenos aparecem, acontecem e vão embora. O negócio é deixar a turma se divertir. Agora, levá-los a sério? Aí não dá, né!

Feliz 2022, ANITTA; que o tempo demonstrou ser mais esperta e reziliente do que parecia. E muito melhor do que a concorrência, vide LUDIMILLA. A menina, hoje, faz parte do “board” de um banco digital. E foi indicada para um Grammy, uau!

Não é pouca coisa!

JOHN COLTRANE – BLUE NOTE YEARS -1957

 

A RIGOR, COLTRANE GRAVOU COMO LÍDER PARA A BLUE NOTE SOMENTE “BLUE TRAIN”.

MAS, PARTICIPOU DE VÁRIOS: “COLTRANE TIME” , POR EXEMPLO. QUE, NA VERDADE, É UM DISCO DE CECYL TAYLOR, PIANISTA DE VANGUARDA.

CLARO, O DISCO FOI RELANÇADO, OPORTUNÍSTICA E MALANDRAMENTE, EM NOME “JOHN COLTRANE”, APÓS A MORTE DELE.

SIGO LAMBUZANDO OS BEIÇOS A CADA VEZ QUE OUÇO!

É ALTAMENTE RECOMENDÁVEL!!!!

JOHN COLTRANE – IMPULSE – 1961/1967

FASE BASTANTE ECLÉTICA . TEM BELEZAS CONVENCIONAIS, FEITO O DISCO IRRESISTÍVEL COM “JOHNNY HARTMAN”, CANTOR E VOZ COMO RARAMENTE APARECEM; E DISCO COMO “BALLADS”.

E HÁ “WORLDJAZZ”, EXPERIMENTAÇÕES, ESPIRITUALIDADE HETERODOXA E O QUE MAIS SE PENSAR EM TERMOS DE PROCURA ESTÉTICA, E DESENVOLVIMENTO DE IDEIAS E TÉCNICAS.

NÃO SEI EXATAMENTE QUANTOS, ENTRE OS 31 DISCOS QUE ACHEI, OU TENHO DESTA FASE, SÃO ORIGINAIS. E QUANTOS SÃO MONTAGENS PÓSTUMAS APROVEITANDO O QUE JÁ HAVIA EM ESTÚDIO E AO VIVO.

NÃO IMPORTA. SÃO, TAMBÉM, CRIAÇÕES DE VULTO! O HOMEM SUPORTANDO O ARTISTA TRABALHOU INSANA, DESTRUIDORA E PRIDUTIVAMENTE POR TRINTA UM ANOS. UM LEGADO EM MÚSICA E ALMA.

COLTRANE MERECE BIOGRAFIA CRÍTICA E COMPREENSIVA SOBRE O HOMEM E A EXTENSA E INTENSAMENTE VIVIDA OBRA.

JOHN COLTRANE É UM GÊNIO AINDA EM ASCENSÃO. NÃO PREVEJO O SEU LIMITE.

JOHN COLTRANE – PRESTIGE RECORDINGS – 1957/58

OUTRA ENXURRADA DE GRAVAÇÕES, MAS POUCOS DISCOS COMO LÍDER DE SEUS PRÓPRIOS GRUPOS.
ENTRE OS AQUI POSTADOS, APENAS “COLTRANE” É DISCO DE CARREIRA. NOS RESTANTES ELE PARTICIPOU.
DESTA FASE, DEZ PODEM SER ATRIBUÍDOS A ELE, MAS FORAM CONFIRMADOS SOMENTE TRÊS.
CLARO, É UM TRABALHO HISTÓRICO, ARTÍSTICO E ANTROPOLÓGICO LANÇAR TUDO O QUE ELE GRAVOU E PARTICIPOU. O CAPITALISMO INCLUI E ACEITA O OPORTUNISMOS – PARA O BEM E PARA O MAL!
SEJA COMO FOR, JOHN COLTRANE JAMAIS É MENOS DO QUE ÓTIMO.
LAMBUZE-SE E LOCUPLETE-SE! 

PINK FLOYD – “VARIATIONS ON A THEME OF ABSENSE” – 1994 – BOOTLEG DE ALTÍSSIMO NIVEL! E BREVE NARRATIVA SOBRE BOOTLEGS E A PIRATARIA

 

Vocês talvez nem imaginem!

Mas, antes da sórdida pirataria tomar conta do mercado musical brasileiro com seus objetos mal feitos, houve disseminação de miscelâneas de sucessos variados e da hora.

CDs fabricados quase profissionalmente, que eram distribuídos por “vendedores alternativos” – tambem cúmplices de bandidos, claro – e vendidos quase livremente em lojas normais.

Esta profusão da incúria ajudou na destruição do mercado musical, principalmente no segundo e terceiro mundos.

Os CDs, nos 1990, eram caríssimos. Como sempre, por causa da corrupção, ganância e desprezo das gravadoras tradicionais. Mal administradas, irrealista e imediatistas.

O consumidor se vingava comprando esses discos não tão clandestinos. A pirataria e a falsificação grotesca acabaram com a INDÚSTRIA CULTURAL DA MÚSICA como a conhecíamos…

Os “BOOTLEGS” também eram discos ilícitos, mas diferentes. Geralmente gravados em shows ao redor do mundo, foram sendo aprimorados, e chegaram ao cúmulo de provirem das próprias mesas de gravação das bandas! Há shows espetaculares editados em BOOTLEGS!!!

Eu mantenho alguns.

Durante a década de 1990, fui dono de três lojas de CDS. A última delas encerrei em 2002. Não aguentei a concorrência da pirataria e a ganância das gravadoras.

A decisão final foi depois de ter abastecido a loja pela última vez, Paguei, na época em um grande distribuidor, R$ 34,50 por um disco nacional do ERIC CLAPTON, o RAPTILE.

Inconcebível!! Por quanto deveria eu vender o artefato, vinte anos atrás? Foi o prego final no caixão do meu negócio.

Por volta de 1996, eu visitei uma grande distribuidora de “BOOTLEGS”, no ABCD paulista. Era estocada com a fina flor da produção “alternativa” mundial!

Vi BOX com 10 CDS do LED ZEPPELIN, esmerado, com ensaios, shows e o quê o “tinhoso” dispusesse!

Vi CDS dos BEATLES de todos os jeitos!

Eu mesmo mantenho em minha coleção coisas do PINK FLOYD, entre elas um BOX japonês, revestido em seda, numerado, ultra bem acabado, com shows gravados ao vivo!

Tenho, também, um concerto raro e fabuloso de DAVID SYLVIAN. E outro precioso dele com ROBERT FRIPP. Guardei um show espetacular do DAVID BOWIE com o NINE INCH NAILS. E tive outro sensacional do “LIVING COLOUR”, entre os poucos e variados, mas de qualidade superior que achei valer a pena ficarem na minha discoteca.

Consegui algumas reproduções esmeradas, e à época inéditas de CDs históricos da gravadora VERTIGO, tudo em alto nível. E BOOTLEG!!!

Vi, por aí, naqueles tempos, os famosos: “OLHO DE PEIXE”, de LENINE; e o “OUTRO OLHO”, DE TOMZÉ. Discos raros e preciosos, mas que as gravadoras não se interessaram em “repor”…

A fofoca terminal foi que BRUCE DICKINSON recusou-se a lançar no BRASIL o sensacional disco ao vivo gravado aqui, “SCREAM FOR ME SÃO PAULO, por causa da pirataria.

Não adiantou. Foi lançado em edição exata como a original, e vendeu aos milhares nas rotas do ROCK pelo Brasil e América Latina…

E todos “EXTRAOFICIALMENTE”…

Isto foi sendo eliminado lá fora. É o justo e o correto. Era usurpação; e hoje viraram peças raras para colecionadores!

Quando artistas e gravadoras começaram a liberar seus arquivos, a curiosidade mudou de foco, porque vieram trabalhos mais profissionais e bem feitos. E esse tipo de “contravenção” deixou de ser interessante.

Os BOXES de “IMERSÃO” total nos discos, talvez sejam decorrentes dessa demanda do mercado por algo que as gravadoras não pretendiam liberar. BOOTLEGS E PIRATARIAS forçaram a barra e aí estão…

O PINK FLOYD foi, talvez, a banda mais pirateada do planeta. Vi dezenas e dezenas de shows, roubos escancarados; bandidagem explícita. E, como todo crime, eram e são predatórios e antissociais.

O BOX postado aqui eu o mantenho há 28 anos. É uma grande CAIXA DE PIZZA feita em madeira e papelão, com 8 CDS de shows variados e sobras de estúdio. É tudo razoavelmente bem gravado.

Há na caixa um vídeo K7 filmado no “MADISON SQUARE GARDEN”, em Nova York, em 1987. E, também, livro com muito texto e fotos. A camiseta que acompanhava o set sumiu! Quem sabe um dia eu consiga outra…

Esta é uma curiosa raridade que vai deixar os “floydianos” babando. É muito difícil consegui-la hoje em dia. Mas, os conteúdos estão disponíveis nas séries de BOXES lançados oficialmente pela banda.

Só pra recordar, sei lá quantos atrás o PEARL JAM lançou oficialmente uma série de CDS gravados ao vivo em vários shows.

Foram feitos para conter a pirataria.

DONOVAN – E O FIM DE UMA ERA

Entre 1966 e 1968, o mundo POP brilhou e parte dele apagou-se como um buraco negro.

Pensem em DYLAN e sua poesia pós-beatnik; sua viagem do FOLK à PSICODELIA, olhando com atenção para a vida do americano em suas raízes; para o país profundo e suas mediocridades, grandezas, absurdos e inconsistências…

Do ponto de vista musical, DYLAN ajustou-se, com o tempo, ao que a turma do colecionismo identifica como “AMERICANA” – sonoridade consistentemente feita “IN USA”.

BOB DYLAN passou pelo ROCK URBANO, com as letras elaboradas e influentes, uma de suas marcas definidoras. Vem construindo obra atemporal, mas de certa maneira contra o esteticamente estabelecido.

DYLAN jamais cantou bem. E parece que, intencionalmente, passou a cantar pior e com a voz gutural do dissabor. Ele constrói uma “literatura” ainda não totalmente desvendada. Um caminho truncado, e totalmente pessoal, mas rumo a quê?

Não importa; ele maior e mais completo do que quaisquer rótulos ou intenções a ele imputados. Um NOBEL DE LITERATURA já conquistou. Merecidamente, quase todos concordam. Seu texto apurado, criativo, personalíssimo fala de tudo o que a vida moderna e algo atemporal oferece. Sofrido, único e, mais interessante ainda, em grande parte musicado – o grande veículo para a poesia e literatura desses tempos. Portanto, um NOBEL PARA UM “LÍTEROMÚSICO”, mais vanguarda é difícil encontrar.

Mas, seria?

Em 1967, surgiu LOU REED, com o VELVET UNDERGROUND & NICO. No início, talvez o anti – DYLAN. O realismo explícito, a vida como ela é, sem autocompaixão, sem ilusões. Mas, de certa forma caminhando de encontro ao âmago do que talvez DYLAN tenha se apercebido antes.

REED vem palmilhando através dos anos, expondo veredas e feridas à sua maneira. Os dois são muito diferentes; mas, são americanos de olhar profundo para o país e a vida lá.

LOU REED também não cantava bem – em minha opinião. A América em carne viva canta mal. Que sinais daí emanariam da imperfeição?

Do outro lado do Atlântico surgiu um HEDONISTA PERSISTENTE, bom cantor de voz agradável.

DONOVAN propôs-se, em 1965, como um sonhador algo melífluo, influenciado pelos que orientaram o gosto de BOB DYLAN. Os mesmos WOODY GUTHRIE e RAMBLIN JACK ELLIOT, mas essencialmente sorveu de BOB DYLAN, já dominante sobre o POP daqueles tempos.

DONOVAN entrou com tudo na hipótese de que uma sociedade alternativa, mais humanitária e integral, estava em processo de construção. Suas letras, sempre metáforas de fuga de nosso mundo habitual, apontam para outras formas diversas de existir e viver.

Trouxe culturas também acessíveis para um britânico, como se quisesse agregar ao repertório dos indivíduos saída possível e até fácil, porque “ali ao lado”.

DONOVAN LEITCH é um dos criadores do FOLK PSICODÉLICO de tinturas orientais. O SITAR e outros instrumentos indianos estão na maioria de seus discos, lançados pela EPIC, nos anos 1960.

Na dialética da política, o imperialismo britânico na Ásia, aproximou da metrópole a Índia, sua música, existência e cultura milenares.

Talvez tenha sido mais fácil para DONOVAN permanecer um “alternativo” ao longo de décadas. Os discos, aqui, pegam o auge da carreira dele. São melodicamente lindos e literariamente impecáveis e originais. Recomendo todos.

Mas se você quiser escolher comece por MELLOW YELLOW, 1966, um susto pop que tirou a atenção do tio Sérgio do jogo de botões; vá para SUNSHINE SUPERMAN, também de 1966 – disco lindíssimo.

DONOVAN era íntimo dos BEATLES. Esteve na ÍNDIA com eles para “cursar meditação transcendental e outros babados”, digamos, com o MAHARISH MAHESH. E foi a primeira estrela pop a ser presa com drogas. Casou-se com Linda Lawrence, ex de BRIAN JONES, dos ROLLING STONES, e assumiu o filho dos dois. Trajetória pra lá de marcante!

E continuou ascendente. Derive, então, para a “FUSION ABRANGENTE” de HURDY GURDY MAN, que saiu em 1968.

E, se quiser colecionar, mesmo, procure a versão inglesa em vinil de A GIFT FROM A FLOWER TO A GARDEN, também de 1968, um álbum duplo em caixa belíssima e preciosa!

Em todos eles, o fino do fino do ROCK INGLÊS da época. Participaram os suspeitos de sempre: JIMMY PAGE, JOHN PAUL JONES, ALLAN HOLDSWORTH, BIG JIM SULLIVAN, JACK BRUCE… para ficar em alguns.

DONOVAN suspeita que a inspiração suprema para a formação do LED ZEPPELIN foi a gravação do disco HURDY GURDY MAN, 1968. Porque também estavam lá JOHN BOHNAN e ROBERT PLANT…para ajudar nessa obra complexa e impecável do ROCK PSICODÉLICO + FUSION “ORIENTAL” feita na Inglaterra!!!!

E, provando que era parte relevante do auge da época, do LP BARABAJAGAL, 1969, participa o JEFF BECK GROUP, em duas faixas.

DONOVAN é “Cult” e imperdível. Tem, inclusive, um DOUTORADO HONORIS CAUSA PELA UNIVERSIDADE HARTFORDSHIRE, conseguido em 2003, pelo conjunto de sua obra relevante, esquisita, única e original. Seguiu passos que DYLAN, depois, confirmou com o PRÊMIO NOBEL.

Em 2012, DONOVAN entrou para o ROCK AND ROLL HALL OF FAME. O discurso de indicação foi feito por JOHN MELLENCAMP, cantor de COUNTRY ROCK PESADO, primo irmão do SOUTHERN ROCK.

A fala é obra de arte em retórica, sentimento, profundidade e veemência. Procurem no YOUTUBE, é instrutivo e imperdível!

E quando vocês lerem que os PRETTY THINGS gravaram três discos com o nome ELECTRIC BANANA, fiquem sabendo que é uma frase da música MELLOW YELLOW, e se refere ao um “vibrador” amarelo da cor do açafrão! Ele deve ter usado, vai saber…

DONOVAN fez parte daqueles artistas dos 1960, que apagou-se no buraco negro, mesmo continuando firme gravando e se apresentando.

Dia desses o canal 620 passou um show dele, em 2015, na Alemanha. Plateia cheia. DONOVAN LEITCH continua violonista de nível alto, e cantando bem. Mesmo com as limitações que a idade e a poliomielite lhe trouxeram.

É um diferenciado imprescindível! Vital!

Resgate-o!